Existe uma intuição comum sobre poupança em energia que está errada e que orienta mal muitas decisões domésticas: a ideia de que quem gasta pouco tem pouco a ganhar em comparar. A intuição faz sentido em termos absolutos e falha em termos relativos, e a distância entre as duas leituras explica por que motivo tantas casas com faturas pequenas continuam a pagar dos preços mais altos do mercado.
Os números de agosto permitem medir o efeito com precisão em três perfis. Num casal sem filhos, com consumo de 160 kWh por mês e potência contratada de 3,45 kVA, a diferença entre a oferta mais barata e a mais cara do mercado é de 15,61 euros mensais. Numa família típica, com 400 kWh e 6,9 kVA, sobe para 23,88 euros. Numa família numerosa, com 908 kWh e 13,8 kVA, chega aos 58,53 euros por mês. Em termos anuais, isto significa cerca de 187, 287 e 702 euros de diferença consoante o perfil.
A escala absoluta cresce com o consumo, como seria de esperar. O que não é evidente é a escala relativa. No casal sem filhos, os 15,61 euros representam mais de 45% do valor da tarifa mais económica, que se fica pelos 34,18 euros. Na família numerosa, os 58,53 euros representam cerca de 29% da melhor oferta, nos 202,40 euros. Ou seja, a penalização proporcional de estar no tarifário errado é substancialmente maior em quem consome menos, precisamente o grupo que assume que a comparação não compensa por a fatura ser pequena.
A explicação está na estrutura da fatura. Uma parte do que se paga não depende do consumo: depende da potência contratada e das tarifas de acesso às redes, componentes fixas que existem mesmo num mês em que a casa está vazia. Em consumos baixos, essa parte fixa pesa muito no total, e as diferenças de preço entre comercializadores incidem sobre uma base pequena, produzindo variações percentuais grandes. Em consumos altos, a componente de energia domina e o efeito dilui-se em termos relativos, ainda que o valor absoluto seja bem maior.
Há uma segunda leitura destes intervalos que interessa a quem toma a decisão. A dispersão entre a melhor e a pior oferta está, neste momento, historicamente elevada, sobretudo por causa da subida do mercado indexado ao longo do verão. Isto significa que o valor de comparar não é constante ao longo do tempo: há períodos em que os preços convergem e o exercício rende pouco, e há períodos como o atual, em que a mesma decisão vale várias vezes mais. Rever o contrato num momento de dispersão elevada é o equivalente doméstico de aproveitar uma janela, e ela não fica aberta indefinidamente.
Para quem quiser fazer a verificação, o método é curto. Retirar da última fatura o consumo mensal em kWh e a potência contratada, comparar propostas de eletricidade com esses valores exatos, e exigir o custo total previsto e não apenas o preço unitário. O passo seguinte, que costuma render tanto como a mudança de fornecedor, é confirmar se a potência contratada corresponde ao que a casa realmente precisa, através de um simulador de potência a contratar.
Em casas de consumo baixo, é frequente encontrar escalões acima do necessário, contratados anos antes e nunca revistos, a alimentar exatamente a componente fixa que torna a fatura tão sensível ao tarifário.














