Com a aceleração da inteligência artificial, a crescente dependência de infra-estruturas digitais e a necessidade de responder a mercados cada vez mais exigentes, as empresas são chamadas a repensar processos, modelos operativos e a própria forma como criam valor.
Para Luís Calado Pereira, director de Gestão de Oferta ICT da MEO, esta evolução exige uma abordagem integrada, que combine conectividade, dados, cloud, cibersegurança e inteligência artificial. Em entrevista à Executive Digest, o responsável defende que a tecnologia só produz impacto quando acompanhada por liderança, mudança cultural e capacidade de execução, destacando o papel das infra-estruturas digitais como base para a competitividade futura das organizações.
A própria MEO encontra-se num processo de transformação que procura reposicionar a empresa para responder às novas exigências do mercado. Segundo Luís Calado Pereira, a ambição passa por evoluir de operador de telecomunicações para uma organização tecnológica com uma oferta mais abrangente. Como explica, a empresa pretende tornar-se «uma plataforma integrada de serviços digitais que combina conectividade, tecnologia, dados e Inteligência Artificial», assumindo um papel mais relevante na economia digital nacional.
Este reposicionamento assenta em três eixos principais: a consolidação da liderança em conectividade e infra-estruturas críticas, o alargamento do ecossistema de serviços e uma transformação interna focada na eficiência, agilidade e proximidade ao cliente. Neste contexto, a área empresarial assume um papel particularmente importante, procurando afirmar- -se como parceiro tecnológico das organizações portuguesas nos seus processos de modernização.
Questionado sobre os principais obstáculos enfrentados pelas empresas portuguesas, Luís Calado Pereira identifica dois grandes desafios. O primeiro é estrutural e está relacionado com a existência de sistemas antigos, processos fragmentados e dificuldades de integração tecnológica. O segundo é de natureza cultural e prende- -se com a necessidade de alterar formas de trabalho e processos de decisão.
Na sua opinião, a transformação digital só produz resultados quando é assumida pela gestão de topo como uma prioridade estratégica. Por isso, considera que o sucesso não depende exclusivamente da tecnologia adoptada, mas sobretudo da capacidade das organizações para promover mudanças internas consistentes e sustentadas.
A importância da conectividade para a nova economia digital
Entre os factores que estão a acelerar a digitalização das empresas, Luís Calado Pereira destaca a evolução das infra-estruturas de conectividade. Na sua visão, a relação entre conectividade e inteligência artificial é hoje indissociável.
«Se olharmos para a inteligência artificial como cérebro da economia digital, a conectividade será o sistema nervoso. Sem redes robustas e resilientes, não há dados. Sem dados, não há IA. E sem IA, não há escala verdadeiramente transformadora», afirma.
Neste cenário, a fibra óptica continua a desempenhar um papel fundamental, garantindo largura de banda, fiabilidade e baixos níveis de latência para aplicações cada vez mais exigentes. Paralelamente, o desenvolvimento do 5G está a abrir novas possibilidades para as empresas, permitindo configurar redes adaptadas a diferentes necessidades operacionais.
O responsável destaca particularmente o potencial do 5G Standalone, que possibilita níveis superiores de eficiência e segurança, criando condições para aplicações em áreas como a automação industrial, logística, telemedicina e cidades inteligentes. A cloud surge como complemento natural deste ecossistema, permitindo às organizações aceder a recursos computacionais escaláveis sem a necessidade de investimentos pesados em infra-estrutura própria.
Apesar dos avanços registados nos últimos anos, Luís Calado Pereira considera que o principal desafio já não está tanto na disponibilidade das infra-estruturas, mas na velocidade de adopção das tecnologias que estas permitem.
A inteligência artificial constitui outra das áreas que mais atenção tem vindo a concentrar. Na MEO, explica, esta tecnologia é encarada como uma responsabilidade estratégica e não apenas como uma ferramenta operacional.
«Na MEO, encaramos a inteligência artificial como uma responsabilidade estratégica, integrando-a com segurança, rigor e visão de longo prazo em áreas de valor mensurável», refere.
A criação de um centro dedicado à inteligência artificial permitiu estruturar esta abordagem e acelerar o desenvolvimento de casos de utilização com impacto directo na actividade da empresa e na experiência dos clientes. Entre as aplicações já em funcionamento encontram-se soluções destinadas a melhorar o apoio ao cliente, reduzir pedidos relacionados com facturação e reforçar os mecanismos de auto-serviço.
No segmento empresarial, a inteligência artificial encontra-se integrada em diferentes ofertas, incluindo soluções capazes de antecipar erros, optimizar processos e reduzir custos em sectores como banca, saúde, hotelaria e retalho. O responsável destaca ainda o contributo da IA generativa para o aumento da produtividade nas organizações.
Modernização gradual e cibersegurança como prioridade
Uma das preocupações mais comuns das empresas continua a ser a coexistência entre sistemas legacy e novas plataformas digitais. Luís Calado Pereira reconhece que este é um dos desafios mais complexos da transformação digital, defendendo que não existem soluções universais.
Na sua opinião, o primeiro princípio deve ser a gradualidade. Em vez de substituições abruptas, as organizações devem optar por processos de modernização faseados, focados nas áreas de maior impacto e suportados por uma gestão rigorosa do risco.
O segundo princípio passa pela integração. Muitas vezes, explica, o valor pode ser criado através da ligação entre sistemas existentes e novas soluções, recorrendo a API, middleware e plataformas de dados sem necessidade de substituições totais. É precisamente nesta lógica que a MEO procura responder com soluções modulares e adaptáveis ao grau de maturidade digital de cada organização.
À medida que a digitalização avança, cresce também a preocupação com a segurança. Para Luís Calado Pereira, a cibersegurança deixou de ser apenas uma questão tecnológica para assumir uma dimensão estratégica.
«Hoje, é um factor crítico de competitividade, confiança e continuidade – um investimento com retorno real, e não apenas um custo», afirma.
Segundo o responsável, as organizações mais avançadas são aquelas que incorporam a segurança desde a fase de concepção dos projectos, adoptando uma abordagem de gestão contínua do risco. Na MEO, a cibersegurança é tratada de forma transversal, através de soluções de monitorização permanente, protecção avançada e mecanismos de resposta a incidentes.
No contexto específico da inteligência artificial, a empresa concentra-se em três áreas consideradas essenciais: governação, gestão de identidades e segurança dos dados. A monitorização contínua dos sistemas e a capacidade de análise e correlação de eventos completam esta abordagem.
A evolução da experiência do cliente constitui outra consequência directa da digitalização. Luís Calado Pereira observa que os consumidores e utilizadores empresariais passaram a comparar qualquer experiência com os padrões definidos pelas grandes plataformas digitais globais, elevando significativamente o nível de exigência.
Neste contexto, a hiperpersonalização, a omnicanalidade e a proactividade assumem um papel crescente. O responsável explica que a MEO tem vindo a investir em mecanismos capazes de antecipar problemas e resolver anomalias de forma automática, reduzindo tempos de resposta e melhorando a experiência global dos clientes.
«O objectivo é uma relação cada vez mais “invisível”: antecipar necessidades, reduzir fricção e criar mais valor», resume.
A transformação para modelos de smart business é outra tendência que já se faz sentir em diversos sectores de actividade. Luís Calado Pereira identifica a indústria, logística, banca, seguros e saúde entre os sectores mais avançados na adopção de tecnologias como Internet das Coisas, análise de dados, automação e 5G.
Por outro lado, áreas como o comércio tradicional, construção e agricultura continuam a apresentar maior margem de evolução, muitas vezes devido a limitações de recursos ou competências. Ainda assim, considera que a democratização tecnológica está a tornar esta transformação mais acessível.
«Hoje, tecnologias como IoT, cloud, IA generativa e 5G tornam a transformação mais acessível, permitindo a qualquer empresa avançar de forma concreta para o smart business», sublinha.
No plano internacional, Luís Calado Pereira considera que Portugal apresenta vantagens competitivas relevantes, nomeadamente ao nível das infra-estruturas de conectividade. Destaca a densidade da rede de fibra e a existência de infra-estruturas críticas capazes de posicionar o País como um hub tecnológico.
Contudo, admite que subsistem desafios estruturais importantes. A predominância de pequenas e médias empresas, frequentemente com menor capacidade de investimento, continua a limitar a velocidade da transformação digital. Acresce a necessidade de reforçar a literacia digital, criar mecanismos de financiamento adequados e aumentar a capacidade de atracção e retenção de talento qualificado.
Luís Calado Pereira acredita que, no futuro, tecnologias como Internet das Coisas, edge computing e inteligência artificial irão convergir numa nova arquitectura digital que permitirá às organizações operar de forma mais eficiente e inteligente.
«O IoT, o edge computing e a IA devem ser vistos como camadas complementares de uma nova arquitectura digital que permite às organizações serem mais inteligentes, eficientes e ágeis», afirma.
Em particular, considera que a evolução da IA generativa para modelos de Agentic AI poderá ter um impacto transversal na produtividade e nos processos empresariais. Contudo, alerta que o principal desafio não será tecnológico, mas estratégico e organizacional.
«O principal desafio para as empresas será estratégico, cultural e de governação: integrar estas tecnologias com dados de qualidade e liderança preparada será decisivo para garantir uma vantagem competitiva saudável », refere.
Para o responsável, a capacidade de adaptação cultural continuará a distinguir as organizações mais bem-sucedidas. Defende que a tecnologia, apesar de essencial, representa apenas uma parte da equação.
«Na transformação digital, a tecnologia é a parte mais fácil, sendo que o maior desafio é cultural, envolvendo pessoas, processos e formas de decisão», afirma.
Neste contexto, destaca a importância de lideranças capazes de promover experimentação, aprendizagem contínua e desenvolvimento de competências. Como resume, «quanto mais inteligente é a tecnologia, mais humana deve ser a liderança».
Nos próximos anos, Luís Calado Pereira antecipa um período de forte transformação impulsionado por duas grandes tendências. A primeira será a generalização da Agentic AI e da automação inteligente, capazes de executar tarefas complexas e apoiar decisões com níveis crescentes de autonomia. A segunda será a afirmação da resiliência digital e da cibersegurança como prioridades estratégicas de topo.
As organizações que conseguirem combinar inteligência artificial, segurança, governação robusta e equipas preparadas estarão melhor posicionadas para competir num ambiente onde o digital deixou de ser apenas um suporte da actividade para se tornar a própria infraestrutura sobre a qual assenta a criação de valor.
Este artigo faz parte do Caderno Especial “Transformação Digital”, publicado na edição de Junho (n.º 243) da Executive Digest.













