Os mercados obrigacionistas registaram rendibilidades positivas em junho na maioria dos segmentos, num mês marcado pela influência da geopolítica, das decisões dos bancos centrais e da divulgação de indicadores económicos.
A análise de Marco Giordano, Investment Director da Wellington Management, destaca que o rendimento das obrigações continuou a sustentar o desempenho da classe de ativos, apesar do ligeiro alargamento dos spreads e da crescente dispersão entre mercados, impulsionada pela valorização do dólar norte-americano.
Entre os principais fatores que estão a moldar os mercados, a gestora aponta a primeira reunião de Kevin Warsh como presidente da Reserva Federal (Fed). O banco central norte-americano manteve as taxas de juro entre 3,5% e 3,75%, mas adotou um discurso mais restritivo, sinalizando que quase metade dos membros da Fed admite pelo menos uma subida adicional das taxas este ano. A Wellington considera que a combinação entre inflação persistente, mercado laboral resiliente e uma comunicação menos orientadora poderá aumentar a volatilidade nos mercados de dívida de curto prazo.
A inteligência artificial continua igualmente a destacar-se como um dos principais motores dos mercados de crédito. Segundo a análise, as emissões de dívida ligadas ao setor mantêm uma procura muito elevada, permitindo às empresas financiarem-se em condições cada vez mais favoráveis. Ainda assim, os investidores estão a tornar-se mais seletivos, avaliando com maior rigor a estrutura das operações, a qualidade dos emitentes e as garantias contratuais. Para a Wellington, o ciclo de investimento em infraestruturas de IA continua a gerar novas oportunidades e a apoiar o crescimento da economia norte-americana, ao mesmo tempo que influencia outros mercados, como o da Coreia do Sul, onde a expansão da indústria dos semicondutores impulsiona as exportações e os mercados financeiros.
No plano geopolítico, o cessar-fogo alcançado entre os Estados Unidos e o Irão em junho permitiu a reabertura do Estreito de Ormuz e uma recuperação gradual da atividade marítima comercial. Apesar da redução dos receios imediatos de interrupção no fornecimento de energia, a gestora alerta que o acordo representa apenas uma estabilização temporária das tensões e que o risco de novos episódios de instabilidade continua elevado.
A análise identifica ainda os dados económicos como um potencial fator de surpresa positiva. Nos Estados Unidos, o abrandamento da inflação da habitação poderá perder força, tornando a evolução do mercado de trabalho decisiva para o comportamento dos preços. Na Zona Euro, embora a descida recente da inflação tenha reduzido os receios de estagflação, o Banco Central Europeu optou por subir as taxas de juro, numa tentativa de impedir que as pressões inflacionistas se alastrem a outros setores da economia. Já no Reino Unido, a resistência do consumo e do crescimento salarial continua a alimentar preocupações com a inflação, enquanto no Japão prossegue o processo de normalização da política monetária.
Por último, a Wellington sublinha que o risco político europeu permanece no radar dos investidores. A eventual mudança de liderança no Reino Unido, após a demissão do primeiro-ministro Keir Starmer, teve até agora impacto limitado nos mercados, mas as futuras decisões em matéria de política orçamental e de aumento da despesa com defesa poderão tornar-se determinantes para a evolução das obrigações soberanas europeias.













