Dos bancos centrais ao Estreito de Ormuz: O que está a ditar o rumo dos mercados?

Os mercados obrigacionistas registaram rendibilidades positivas em junho na maioria dos segmentos, num mês marcado pela influência da geopolítica, das decisões dos bancos centrais e da divulgação de indicadores económicos.

André Manuel Mendes

Os mercados obrigacionistas registaram rendibilidades positivas em junho na maioria dos segmentos, num mês marcado pela influência da geopolítica, das decisões dos bancos centrais e da divulgação de indicadores económicos.

A análise de Marco Giordano, Investment Director da Wellington Management, destaca que o rendimento das obrigações continuou a sustentar o desempenho da classe de ativos, apesar do ligeiro alargamento dos spreads e da crescente dispersão entre mercados, impulsionada pela valorização do dólar norte-americano.

Entre os principais fatores que estão a moldar os mercados, a gestora aponta a primeira reunião de Kevin Warsh como presidente da Reserva Federal (Fed). O banco central norte-americano manteve as taxas de juro entre 3,5% e 3,75%, mas adotou um discurso mais restritivo, sinalizando que quase metade dos membros da Fed admite pelo menos uma subida adicional das taxas este ano. A Wellington considera que a combinação entre inflação persistente, mercado laboral resiliente e uma comunicação menos orientadora poderá aumentar a volatilidade nos mercados de dívida de curto prazo.

A inteligência artificial continua igualmente a destacar-se como um dos principais motores dos mercados de crédito. Segundo a análise, as emissões de dívida ligadas ao setor mantêm uma procura muito elevada, permitindo às empresas financiarem-se em condições cada vez mais favoráveis. Ainda assim, os investidores estão a tornar-se mais seletivos, avaliando com maior rigor a estrutura das operações, a qualidade dos emitentes e as garantias contratuais. Para a Wellington, o ciclo de investimento em infraestruturas de IA continua a gerar novas oportunidades e a apoiar o crescimento da economia norte-americana, ao mesmo tempo que influencia outros mercados, como o da Coreia do Sul, onde a expansão da indústria dos semicondutores impulsiona as exportações e os mercados financeiros.

No plano geopolítico, o cessar-fogo alcançado entre os Estados Unidos e o Irão em junho permitiu a reabertura do Estreito de Ormuz e uma recuperação gradual da atividade marítima comercial. Apesar da redução dos receios imediatos de interrupção no fornecimento de energia, a gestora alerta que o acordo representa apenas uma estabilização temporária das tensões e que o risco de novos episódios de instabilidade continua elevado.

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A análise identifica ainda os dados económicos como um potencial fator de surpresa positiva. Nos Estados Unidos, o abrandamento da inflação da habitação poderá perder força, tornando a evolução do mercado de trabalho decisiva para o comportamento dos preços. Na Zona Euro, embora a descida recente da inflação tenha reduzido os receios de estagflação, o Banco Central Europeu optou por subir as taxas de juro, numa tentativa de impedir que as pressões inflacionistas se alastrem a outros setores da economia. Já no Reino Unido, a resistência do consumo e do crescimento salarial continua a alimentar preocupações com a inflação, enquanto no Japão prossegue o processo de normalização da política monetária.

Por último, a Wellington sublinha que o risco político europeu permanece no radar dos investidores. A eventual mudança de liderança no Reino Unido, após a demissão do primeiro-ministro Keir Starmer, teve até agora impacto limitado nos mercados, mas as futuras decisões em matéria de política orçamental e de aumento da despesa com defesa poderão tornar-se determinantes para a evolução das obrigações soberanas europeias.

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