Lições de liderança que pode aprender com “A Guerra dos Tronos”

Prestar atenção aos valores e ao estilo de persuasão pode ajudar a evitar que se seja decapitado ou esfaqueado até à morte.

Por Bruce Craven, colaborador da strategy+business

Atingir bons resultados exige a capacidade de enfrentar desafios e guiar-nos a nós e aos nossos colegas. Usei as histórias ficcionais da série “Crónicas de Gelo e Fogo” de George R. R. Martin e da adaptação da HBO “A guerra dos tronos”, no meu curso de MBA. As decisões de liderança das personagens de “A guerra dos tronos” por vezes têm consequências devastadoras, mas as que sobrevivem aprendem a melhorar as suas decisões e a ultrapassar riscos com mais eficácia.

Como líderes, temos mais capacidade para gerir esta tensão do que pensamos. Na primeira temporada da série, Cersei Lannister diz a Ned Stark: «Quando se joga o jogo dos tronos, ganha-se ou morre-se. Não existe meio-termo.» A rainha está errada – tanto no seu mundo ficcional como no nosso. Existe um meio-termo. É o das decisões ponderadas, com consideração pelos valores e crenças dos outros. Se decidirem jogar o jogo dos negócios, aprendam a compreender e a aproveitar as vossas competências no meio-termo.

OS VALORES DE NED STARK

No início de “A guerra dos tronos”, Lord Eddard “Ned” Stark, guardião do Norte, enfrenta vários desafios de liderança. Começa quando o seu amigo rei Robert Baratheon exige os seus serviços como mão do rei – uma posição equivalente ao chefe de gabinete. «Quero-te em Porto Real [a capital]», afirma Robert, «e não aqui no fim do mundo onde não és útil para ninguém.» Ned viaja com as filhas para uma cidade cheia de possíveis alia- dos e inimigos. Exausto e faminto, chega a tempo do início de uma reunião urgente dos conselheiros mais próximos do rei, o Pequeno Conselho. O rei avisa Ned de que alguns membros do conselho são bajuladores e outros são idiotas. Assim que senta, escreve Martin, «Ned pensava saber imediatamente [quem era quem].»

Ned faz assim um erro que muitos líderes também cometem. Reage instintivamente aos novos subordinados, guiado pelos seus valores pessoais. Os Stark, a sua família aristocrática, são conhecidos em Westeros como transparentes, autênticos e responsáveis.

Ned não compreende que os outros têm diferentes valores – ou que, mesmo tendo os mesmos, não os apresentam de forma tão transparente. Neste contexto, o termo “valores” não significa valores empresariais ou organizacionais, mas presunções e crenças. Normalmente são inconscientes, e moldados pelo modo como interpretamos as lições na nossa vida. Seguir os nossos valores faz com que sejamos melhores líderes, estimulando a motivação e empenho. Mas também podem fazer-nos agir de forma contraproducente, sem termos noção. Quanto mais claros formos na maneira como os nossos valores afectam a nossa liderança, melhor.

Por exemplo, os valores de Ned dão origem a uma discussão desastrosa com o seu chefe, o rei Robert. Inicialmente parecia não haver qualquer conflito. Tinham sido companheiros de armas  e ambos acreditavam veementemente na coragem e na honra.  Contudo, como Shalom H. Schwartz, psicólogo social, documentou, pessoas com valores semelhantes dão-lhes graus de importância diferentes. As prioridades de cada pessoa, normalmente inconscientes, chamam-se “hierarquia de valores”. No seu trabalho, Schwartz explica que há seis principais funções nos valores: (1) acreditamos nos valores e temos reacções emocionais aos mesmos; (2) estimulam as nossas acções; (3) acreditamos, independentemente do que encorajam as normas externas; (4) são o modo como decidimos o que é bom ou mau, justificado ou injustificado; (5) existem em hierarquias; e (6) baseamos as nossas acções nas prioridades.

Embora Robert e Ned partilhem dois valores importantes, dão-lhes diferentes prioridades. A hierarquia de valores de Ned pode ser classificada como dever, honra, coragem e, por fim, família. A de Robert pode ser coragem, recompensa e depois camaradagem. A família provavelmente não apareceria na lista de valores de Robert, como se viu pela marginalização do seu irmão, pela pouca importância dada aos próprios filhos e pelo desprezo total pelos seus filhos ilegítimos. Os valores de Ned impedem-no de ver como este aspecto do temperamento de Robert será importante.

Pouco depois de Ned chegar ao Pequeno Conselho, ficam a saber que Daenerys Targaryen, a filha adolescente e exilada do Rei Louco que depuseram, casou com um senhor Dothraki (bárbaro) e está grávida de um possível herdeiro que pode desafiar o reinado de Robert. O rei propõe enviar um assassino. Lord Stark rejeita imediatamente a ideia; assassinar crianças é, para ele, uma desonra.

Existe potencial para que o rei e a sua mão encontrem um meio-termo e cheguem a acordo, mas quando os seus valores são postos em causa, ambos se zangam. O rei Robert sente-se particularmente ofendido porque acredita que Ned está a desafiar a sua coragem. Será que a história poderia ter seguido outro rumo? Um dos aspectos mais empolgante de “A guerra dos tronos” é que um resultado diferente pareceria sempre possível se ao menos as personagens principais tivessem mais autoconsciência.

A pressão da liderança no dia-a-dia pode criar conflitos entre colegas, mesmo que tenham passado por fortes experiências juntos, que haja uma boa vontade mútua e tenham objectivos comuns. Se fizermos suposições sobre valores pessoais, podemos cometer erros devastadores. Se supusermos que as outras pessoas precisam de dar prioridade aos seus valores na ordem que preferimos, podemos enganar-nos em relação aos verdadeiros motivos dos outros, ficar cegos ao risco e danificar as parcerias de que precisamos.

A PERSUASÃO DE JON SNOW

Na quinta temporada da série, o Lorde Comandante Jon Snow precisa de tomar uma decisão que não tem uma solução fácil. Após anos de dormência, um grupo de “outros” sobrenaturais reapareceu do outro lado da muralha, com a capacidade de reanimar os mortos e transformá-los numa espécie de zombies. As suas primeiras vítimas são o povo livre (ou “selvagens”) que vive para lá da muralha e que foi um inimigo feroz da Patrulha da Noite durante mais de mil anos.

Deverá Jon fazer um acordo de protecção mútua com o povo livre, deixando-os passar a muralha e juntar-se à Patrulha? Este tipo de desafio exige estratégia e persuasão: competências que não podem ser dadas como garantidas, independentemente do cargo de um líder. «A liderança não depende do cargo», escrevem Robert E. Quinn e Ryan W. Quinn no seu livro “Lift: The Fundamental State of Leadership”. Descrevem a liderança como um processo social, frequentemente desencadeado «quando as pessoas escolhem seguir alguém que se desvia de pelo menos uma norma cultural ou convenção social aceite».

Em “A guerra dos tronos”, quando Jon Snow toma a sua decisão, tem de persuadir os seus colegas da Patrulha da Noite a juntarem-se a ele. As suas competências de persuasão reflectem os seus valores: verdade, depois comunidade, depois empatia, depois coragem.

Vejamos isto numa ordem inversa: ele exemplifica a coragem todos os dias, como guerreiro e ao enfrentar as atitudes dos seus irmãos da Patrulha da Noite sobre os selvagens. O seu empenho na empatia é evidente na sua insistência em reconhecer a humanidade entre pessoas que foram ridicularizadas ou temidas, incluindo o seu amigo Samwell Tarly e os selvagens em geral. O compromisso de Jon para com a sua comunidade é o resultado de ter sido sempre visto como o filho bastardo. Ele compreende a importância de ser inclusivo.

Mas, acima de tudo, é a verdade que o impele. Cresceu sem saber que eram os seus pais verdadeiros. Como intruso desde a infância, ao ser atirado para o cargo de líder compreende que a verdade não é apenas objecto de discussão. A realidade da Patrulha da Noite não pode ser alterada ou ajustada de forma a encaixar em determinadas prioridades da liderança.

Jon usa então a sua autoridade como novo Lorde Comandante para convidar todos os selvagens a entrarem em Westeros e a encontrarem lares seguros nos sete reinos. Em troca, os selvagens prometem abandonar as práticas de violar, pilhar e assassinar. Abandonarão quaisquer itens que possam ser vendidos em troca de comida e permitirão que os seus filhos sejam colocados em lares de Westeros como criados. É uma situação de sequestro para assegurar que os selvagens não voltam atrás e começam a matar os seus novos aliados. Alguns deles juntam-se à Patrulha da Noite e fazem o juramento para protegerem a civilização da ameaça à humanidade. O homólogo de Jon Snow nos selvagens, Tormund Giantsbane, concorda com as exigências; ele próprio também é realista.

Contudo, obter o apoio dos membros da Patrulha da Noite é mais difícil. Jon não acredita ter muito tempo para tal. E espera que a verdade da situação seja persuasão que chegue por si própria. É aqui que falham as suas competências como líder.

Bob Bontempo, que está à frente de uma sessão sobre persuasão no departamento de Formação Executiva na Columbia Business School, afirma que a persuasão é uma disciplina que leva o seu tempo. Usa a analogia de colocar um grão de areia numa ostra para criar uma pérola. O grão de areia é um convite para considerar a possibilidade de uma ideia. Os adultos inteligentes não são convencidos através de argumentos. São convencidos através de si próprios, quando demoram o seu tempo a reflectir numa questão e a chegar a uma decisão definitiva e ponderada.

Bontempo refere que muitas vezes abordamos um desafio de persuasão como se fosse uma situação em que a verdade ganha: onde temos uma resposta definitivamente correcta com base em factos. Se os factos estão totalmente do nosso lado, então não é preciso persuasão. Em vez disso, o receptor tem um momento eureka, em que o valor da nova perspectiva se torna subitamente evidente. Mas nem sempre temos momentos eureka à disposição. Dependemos da persuasão quando uma verdade objectiva e indiscutível não está disponível, quando os factos podem ser interpretados de formas diferentes e é preciso bom senso. Quando o persuasor, em vez de argumentar para demonstrar uma verdade, deve fazer com que o receptor aceite uma mera possibilidade – que aceite a ideia de que outra explicação pode ser viável e que a comece a considerar.

Para os selvagens que vivem do outro lado da muralha, os argumentos de Jon Snow criam o momento eureka. É por isso que Tormund Gianstbane está pronto a negociar: ele próprio viu o horror dos Caminhantes Brancos. É uma situação em que a verdade ganha para os selvagens porque eles não têm uma muralha que os proteja.

Ao enfrentar os irmãos da Patrulha da Noite, Jon Snow acredita que a verdade também irá ganhar. Mas está errado. Enfrenta uma situação de comunicação em que a resposta depende do bom senso dos seus subordinados. É certo que muitos concordam com ele, mas uma minoria considerável, incluindo alguns dos líderes seniores não estão convencidos. Compreendem que os Caminhantes Brancos são reais, mas não confiam nos selvagens e acreditam que a muralha aguentará qualquer ameaça. Os selvagens e os Caminhantes Brancos que se matem uns aos outros do outro lado da muralha. Porque é que a Patrulha da Noite se deveria preocupar?

Jon depara-se com este momento fundamental de liderança porque subestima as possíveis consequências de resistência na sua equipa. A verdade dele não é a deles. Eles estão presos naquilo a que Bontempo chama de “latitude de rejeição”. Lutaram em batalhas sangrentas contra os selvagens e viram os seus amigos a serem mortos. Um rapaz, Olly, viu os pais serem assassinados por selvagens saqueadores. «O Lorde Comandante terá de perdoar a minha franqueza», diz Bowen Marsh, Primeiro Intendente da Patrulha da Noite, «mas não há outra forma de dizer isto. O que você propõe é nada mais do que traição.»

Jon responde que o objectivo mútuo deve ser a defesa da humanidade. «Sou o escudo que protege os reinos dos homens. São essas as palavras [do nosso juramento]. Portanto digam-me – o que são os selvagens, se não homens?» Quando Bowen Marsh continua céptico, Jon deixa de tentar e afasta-se a cavalo; permite que Marsh continue com o seu cepticismo. Depois exige que executem a sua estratégia e deixem os selvagens entrar. Em vez disso, uns dias mais tarde, eles armam-lhe uma cilada e rodeiam-no. Jon acredita que são seus aliados, mas eles sacam das suas facas e apunhalam-no, inesperadamente. Olly esfaqueia-o no coração.

Se Jon Snow tivesse criado debates mais deliberados, poderia ter falado sobre o nível de raiva e de rebelião criada pela decisão que tomou. Poderia ter aprisionado ou limitado os seus possíveis assassinos. Ou poderia tê-los persuadido explicando as suas ideias em pormenor, apoiado por uma verdadeira discussão dos riscos. Poderia ter-lhes relembrado os terrores que tinham visto dos Caminhantes, incluindo de dois que ganharam vida dentro do castelo. “Será que um exército de caminhantes selvagens seria um problema?” Esta pergunta deveria ter sido o grão de areia e poderia ter apoiado o seu esforço de defender a humanidade contra uma terrível ameaça.

LÍDERES NA FICÇÃO E REALIDADE

Ned Stark e Jon Snow são apenas duas de muitas personagens de “A guerra dos tronos” que se debatem com as exigências da liderança. A lista inclui várias personagens antipáticas, que se concentram na acumulação de poder, como Petyr Baelish, Joffrey Baratheon, Ramsey Bolton, Theon Greyjoy e Tywin Lannister. Contudo, há também líderes heróicos em Westeros: pessoas como Samwell Tarly, Davos Seaworth, Lord Varys, Tyrion Lannister, Jaime Lannister, Brienne of Tarth, Jorah Mormont e os irmãos Stark: Sansa, Bran e Arya. Os líderes de “A guerra dos tronos” são exemplos convincentes porque são imperfeitos, estão sob enorme pressão e querem resultados que vão para lá do seu próprio aperfeiçoamento. Cada um, à sua maneira, quer tornar o mundo melhor.

A liderança – para eles e para os verdadeiros líderes do nosso mundo – não se resume a ganhar, a ter seguidores ou a satisfazer desejos. É serviço. Envolve a capacidade de desempenhar diferentes papéis, apresentando o que é necessário. Envolve também a capacidade de viver uma história que será contada por terceiros e inspirar transformação na vida das pessoas. Sentimos arrependimento e também remorso. Mas lembramo-nos do momento em que Tyrion Lannister protesta que os homicídios que cometeu – da sua amante e do seu pai – o excluiriam do título de líder misericordioso. Lord Varys responde: «Nunca disse que você era perfeito.» Não podemos atingir a perfeição, mas podemos esperar aventura… numa forma que satisfaz e se alinha com o nosso compromisso.

Este artigo foi publicado na edição de Junho de 2019 da Executive Digest.

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