Por Duarte Mesquita, Diretor Médico da Sanofi Portugal
No Dia Mundial dos Ensaios Clínicos, Portugal assinala um avanço decisivo com a entrada em vigor da nova Lei da Investigação Clínica (Lei n.º 9/2026). Ao alinhar o país com o enquadramento europeu, esta lei cria as condições para um sistema mais eficiente, atrativo e centrado no doente. O seu verdadeiro impacto dependerá, porém, da nossa capacidade de transformar ambição legislativa em mudança concreta no terreno e no que realmente impacta a vida dos portugueses.
Um retrato claro do ponto em que nos encontramos é dado pelo mais recente Barómetro de Inovação Clínica, da NTT DATA. Os dados revelam um ecossistema em clara evolução. Os Centros de Investigação Clínica (CIC) portugueses são cada vez mais reconhecidos pelas administrações hospitalares, mantêm uma relação próxima com a indústria farmacêutica e investem de forma consistente na desmaterialização de processos e em plataformas de gestão e recrutamento. Portugal dispõe de talento científico, infraestrutura clínica e integração hospitalar — ativos essenciais para competir num contexto global.
Persistem, no entanto, desafios que condicionam a aceleração e são necessárias mudanças para inverter a tendência dos últimos anos uma vez que há um declínio evidente nos ensaios clínicos na Europa: a participação europeia em ensaios clínicos comerciais diminuiu drasticamente de 22% para 12% entre 2013 e 2023, privando 60.000 doentes europeus do acesso a tratamentos experimentais. A autonomia efetiva dos CIC continua limitada em áreas críticas, como a contratação de recursos humanos e a definição de incentivos, atrasando a adaptação ao novo enquadramento legal. A transformação digital, embora relevante, tem-se traduzido sobretudo em ganhos administrativos, sem impacto proporcional na experiência do doente. E a ligação às associações de doentes permanece insuficiente, afastando a investigação de quem lhe dá verdadeiro sentido.
Estes desafios devem ser encarados como oportunidades estratégicas. O próprio setor demonstra que a inovação já oferece respostas concretas. Hoje, plataformas digitais avançadas, apoiadas em Inteligência Artificial, permitem analisar grandes volumes de dados clínicos, dados do mundo real e literatura científica para identificar populações elegíveis para ensaios clínicos em minutos, processos que anteriormente podiam demorar meses. Estas soluções aumentam a eficiência, melhoram a representatividade dos estudos e democratizam o acesso à investigação clínica — colocando o doente no centro, desde o primeiro momento.
Esta capacidade de adoção tecnológica reforça uma mensagem essencial: Portugal reúne condições únicas para se afirmar como um verdadeiro hub de inovação em ensaios clínicos. A dimensão do país, a proximidade entre decisores, centros hospitalares e investigadores, a qualidade dos profissionais de saúde e a integração crescente de ferramentas digitais tornam possível testar, escalar e validar modelos inovadores com rapidez e rigor científico. São, contudo, necessárias mais políticas públicas que permitam operacionalizar a independência dos CIC, no âmbito financeiro, de gestão e de e na criação de uma framework de referenciação.
A aceleração da investigação clínica é também um pilar de sustentabilidade. Sistemas mais ágeis reduzem custos e desperdícios, aumentam a atratividade do país para investimento em I&D e, sobretudo, permitem que os doentes tenham acesso mais cedo a terapêuticas inovadoras. A evidência é clara: quanto maior a atividade de investigação clínica numa molécula em Portugal, mais rapidamente essa inovação chega à prática clínica.
A nova lei deu-nos a linha de partida. Os dados mostram-nos onde precisamos de acelerar. O próximo passo exige ação concertada: autonomia real para os centros de investigação, digitalização orientada ao doente e formação das novas gerações de médicos e investigadores com competências alinhadas com a ciência do futuro.
O propósito da indústria é claro: perseguir os milagres da ciência para melhorar a vida das pessoas. Esse caminho não se faz sozinho. Exige colaboração entre indústria, decisores políticos, academia e sociedade civil. A nova lei é o convite para essa ambição coletiva. Cabe-nos agora aceitá‑lo com urgência — e garantir que Portugal não apenas acompanha a inovação, mas se posiciona para a liderar.



