Hollywood usada em campanha pró-Kremlin contra Zelensky

Publicações no X, TikTok e Telegram com a hashtag #HollywoodagainstZelenskyy mostram excertos adulterados de celebridades a apelar aos líderes europeus para pressionarem a Ucrânia a aceitar um acordo de paz nos termos defendidos por Moscovo

Francisco Laranjeira

Vídeos manipulados de atores de Hollywood estão a ser utilizados para promover uma narrativa pró-Kremlin dirigida aos líderes europeus, numa campanha que investigadores consideram coordenada, revelou esta terça-feira a ‘Euronews’.

Publicações no X, TikTok e Telegram com a hashtag #HollywoodagainstZelenskyy mostram excertos adulterados de celebridades a apelar aos líderes europeus para pressionarem a Ucrânia a aceitar um acordo de paz nos termos defendidos por Moscovo. A ‘Euronews’ identificou vários desses vídeos partilhados por contas sem seguidores, sem biografia e com nomes genéricos — muitos entretanto removidos das plataformas.

Celebridades usadas sem provas

Entre os rostos utilizados surgem os atores Nikki Blonsky, Jon Seda e Gabriella Pizzolo. Num dos casos analisados, o vídeo com Pizzolo recorria a um excerto originalmente publicado na plataforma Cameo — onde figuras públicas gravam mensagens personalizadas — posteriormente editado para incluir imagens da guerra na Ucrânia e uma narração manipulada.

Os vídeos acusavam líderes europeus de fraude fiscal para apoiar Kiev e incentivavam a adesão à campanha #HollywoodagainstZelenskyy, apelando a que o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, aceitasse um acordo de paz nos termos russos. Não há qualquer prova de que as celebridades envolvidas tenham feito tais declarações, e os conteúdos não constam das suas contas oficiais verificadas.

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A divulgação ocorre num momento em que a guerra entra no quinto ano e as negociações mediadas pelos EUA enfrentam impasses. Moscovo mantém exigências como a retirada total das forças ucranianas de Donetsk, Lugansk, Zaporizhia e Kherson — territórios parcialmente ocupados e cuja anexação foi considerada ilegítima por Kiev e pela maioria da comunidade internacional.

Rede “Matriosca” e táticas de influência

Segundo o coletivo de investigação Antibot4Navalny, que acompanha redes de bots associadas à Rússia, a campanha apresenta características semelhantes à operação de influência conhecida como “Matriosca”.

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Este tipo de operação recorre frequentemente a identidades falsas, simulando fontes credíveis — como órgãos de comunicação social, entidades governamentais ou figuras públicas — para disseminar narrativas anti-ucranianas. A estratégia passa por um pequeno núcleo de contas anónimas que publicam conteúdos falsos, posteriormente amplificados por uma rede mais vasta, dificultando a identificação da origem da desinformação.

A análise da ‘Euronews’ indica que pelo menos 10 contas publicaram os vídeos num intervalo de duas horas, utilizando legendas e hashtags praticamente idênticos. Muitas dessas contas tinham sido criadas recentemente e não apresentavam atividade prévia.

Os investigadores sublinham que esta é a primeira vez que a rede “Matriosca” utiliza uma hashtag para tentar transformar a campanha num “evento” digital, incentivando a participação num alegado “flash mob contra Zelensky” em Hollywood Boulevard.

A ‘Euronews’ refere ainda que já foi alvo de tentativas de instrumentalização semelhantes noutras campanhas de desinformação, incluindo na Moldova, onde contas falsas se fizeram passar por funcionários do canal para divulgar conteúdos enganosos.

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