Quem conversa com José Oliveira não consegue adivinhar qual é a sua paixão para lá da vida profissional. Pelo tom calmo e pausado, com um ritmo quase de outro tempo, não deixa minimamente vislumbrar o seu outro lado do espelho: as corridas de automóveis que o têm levado a competir, regularmente, em provas de velocidade em diferentes partes do globo.
Mas, antes das corridas, vamos conhecer o seu percurso profissional que começou no mundo da informática, há cerca de 30 anos. Depois, em 2000, foi trabalhar para uma multinacional farmacêutica. A empresa foi alvo de reestruturações e aquisições e, com todas essas mudanças, José Oliveira é nomeado responsável da equipa de tecnologias de informação para a área de business intelligence. «Foi na altura em que se começou a falar da cloud», relembra na conversa que decorreu num espaço que também é outra das suas paixões: o Raw Culture Art & Lofts, um hotel de cinco estrelas no coração do Bairro Alto, em Lisboa, adquirido por ele em 2015. O espaço encontra-se decorado com várias peças de arte – mais um dos seus grandes interesses -, que incluem várias pinturas de artistas contemporâneos portugueses, assim como uma peça do aclamado artista britânico Damien Hirst, ao lado de dez motas, muitos capacetes e livros sobre arte e motores.
«OS CARROS SÃO UM CAMPEONATO À PARTE. NEM INTERESSA FALAR DO INVESTIMENTO NOS AUTOMÓVEIS, É MESMO OUTRA REALIDADE»
José Oliveira explica que foi com a integração nessa nova estrutura empresarial que descobriu qual seria o seu futuro: a área de business intelligence. A atividade da empresa correu tão bem que, em 2004, já era responsável por 33% da faturação, «isto com uma equipa de apenas 13 elementos num universo de 170», sublinha. E foi nessa altura, com clientes e parceiros satisfeitos, que decidiu montar o seu próprio negócio, criando a Bi4All. Lançou-se a concurso num projeto «avaliado num milhão de euros», que ganhou. Depois, acabou por realizar o percurso «natural» de uma empresa bem-sucedida, indica. Ainda antes do foco da conversa regressar à sua paixão pelas corridas de automóveis, José Oliveira insiste em falar naquilo que, diz, tem marcado o seu percurso: as pessoas. «Há sempre um problema no mundo tecnológico, que são as pessoas e os clientes e tem de existir um equilíbrio entre as duas partes» e, por isso, relembra o projeto da Cidade Bi4All, um edifício de oito mil metros quadrados inaugurado em 2018, em Lisboa, com apartamentos, ginásio profissional, campo de padel, uma praça de alimentação, anfiteatros e motas elétrica. “Esse projeto fortaleceu a minha ligação aos valores humanos», reforça. E pega nesse exemplo para relembrar a fase difícil que passou durante a pandemia de COVID-19. «Nessa altura, o edifício ainda estava em obras e tínhamos 370 pessoas na empresa. No dia após o anúncio do primeiro confinamento, a empresa ficou vazia. Tinha investido oito milhões de euros num projeto assente nas pessoas e, de repente, o espaço estava deserto. Não sabia como o negócio ia continuar, nem como iria pagar o investimento. Foi um choque e deu para perceber que nunca mais iríamos voltar à realidade pré-pandémica. Mas também foi um processo de aprendizagem», explica. A partir de 2023, e com o regresso à «normalidade», os números da Bi4All começaram novamente a crescer e foi nesse momento que decidiu vender. «Foi comprada pelos espanhóis da Plexus, uma empresa interessante, composta por boas pessoas». O processo de venda acaba de ocorrer, tendo ficado concluído a 1 de outubro.
O ESCAPE DA VELOCIDADE
No meio destas mudanças e alterações de percurso, o que pouco ou nada se alterou foi a sua paixão pelas corridas de automóveis clássicos.
«Não sou hiperativo, mas quando temos muitas coisas para fazer e se vive em adrenalina constante com “to do lists” profissionais, temos de encontrar formas de não viver só para o trabalho», e foi isso que o levou às corridas mais a sério.
«Os carros são um campeonato à parte. Nem interessa falar do investimento nos automóveis, é mesmo outra realidade». As coisas mais a sério, começaram há 10 anos, quando comprou o seu primeiro automóvel, um clássico, e começou a fazer provas com regularidade. “Fiz dois anos até que comecei a querer um carro à séria”. Comprou então um Ferrari Michelotto, «na prática é um 308, o único Cavallino Rampante preparado para ralis, e comecei a divertir-me», explica entusiasmado, mas sem alterar o tom de voz.
O desafio seguinte foi participar em provas na categoria de GT3 Cup, em Portugal. «Como gosto mais dos clássicos, comecei a participar, com o meu navegador, que também era o mecânico, em algumas provas especiais, como a Tour Auto, em França, que dura uma semana e em que corremos em cinco circuitos, e fazemos três especiais, são 500 ou 600 km por dia, uma coisa a sério».
Atualmente, faz cerca de seis a sete provas por ano. Duas, que duram uma semana cada, com 500 a 600 km diários, realizam-se em França e outra em Itália, com um dia a menos, mas a mesma dinâmica. «São dias inteiros, intensos, acordamos às quatro da manhã e deitamo-nos às 23h». Outra das provas que gosta de participar também se realiza no sul de França, uma prova de resistência, a única onde os clássicos rodam 24 horas. Atualmente, faz parte de uma equipa, propriedade de um francês, com mais três pilotos.
Uma das características que transporta do mundo das corridas para o seu dia-a-dia profissional é a paciência e a gestão da ansiedade. «Nas provas fazemos 2.000 km para terminar a corrida, mas quem ganha não é quem anda mais rápido, mas sim quem é mais regular a uma certa velocidade. É como um jogo de xadrez, nas corridas temos de saber esperar pelos momentos certos”.
Nos períodos em que não corre, vai treinando num simulador que tem em casa, mas explica que duas semanas antes de cada prova anda com o sorriso na cara a pensar no que o espera. «Não conheço nenhum exercício físico no mundo que me dê uma paz tão grande como as corridas de automóveis. Mexe com o nosso ADN, com o sangue, com os nervos, é algo inexplicável». E o medo, existe? O empresário responde prontamente: «Quando estamos dentro do carro nem nos lembramos disso”.
Depois da venda da «sua» Bi4All, José Oliveira entrou agora numa nova fase da sua vida, mas admite que não vai ficar parado por muito tempo. «O meu telefone não para de tocar e já estou cheio de projetos». Entre curvas e contracurvas, médias de velocidade e indicações precisas dos percursos, o mais certo é ouvirmos falar deste gestor nos próximos meses. Quem corre por gosto…














