Por Margarida Louro, Associate Partner da CFA | ESG & Sustainability
A desinformação deixou de ser um fenómeno marginal para passar a ocupar o centro do debate sobre risco global. O The Global Risks Report 2026, publicado pelo World Economic Forum, coloca-a em segundo lugar na lista das dez ameaças mais severas no curto prazo (2 anos) e, em quarto lugar no longo prazo (10 anos). Estes impactos já são materiais e refletem-se na distorção de mercados, na erosão da confiança institucional e também na manipulação de decisões económicas.
Apesar disso, continua a ser tratada, em muitos contextos empresariais, como um problema secundário e como algo que pertence ao domínio dos media ou da política. Esta leitura é claramente curta. A desinformação é, hoje, um risco estrutural que deve ser enquadrado no âmbito das políticas de sustentabilidade e, em particular, da governação (G) no ESG.
Um exemplo recente ajuda a perceber o alcance do problema. Uma peça do Polígrafo SIC expôs um vídeo manipulado em que o jornalista Pedro Andersson surgia, falsamente, a promover investimentos de elevado risco. O mecanismo foi simples e, possivelmente eficaz: apropriação da imagem de uma figura credível, associação a promessas financeiras apelativas e disseminação em escala. O resultado pode traduzir-se em perdas reais para quem acredita, sobretudo quando se trata de uma figura com centenas de milhares de seguidores em várias redes sociais, cujo público inclui muitas pessoas com níveis de literacia financeira médios ou baixos, tornando-as particularmente vulneráveis a este tipo de manipulação.
Isto não é apenas desinformação. É um problema de governação, de proteção do consumidor e, em última análise, de integridade de mercado.
No pilar “G” do ESG, fala-se frequentemente de ética, transparência e controlo de risco. Mas quantas empresas integram, de forma sistemática, o risco de desinformação nos seus modelos de gestão? Quantas monitorizam o uso indevido da sua marca ou da imagem dos seus representantes? Quantas têm mecanismos de resposta rápida a conteúdos falsos que possam afetar clientes ou investidores?
No pilar social (S), o impacto é igualmente evidente. A desinformação fragiliza a confiança, sendo que esta é um ativo coletivo essencial ao funcionamento das economias. Sem ela, a tomada de decisão torna-se errática, os comportamentos tornam-se mais defensivos e o custo de interação entre agentes económicos aumenta.
Mesmo no pilar ambiental (E), onde o tema parece menos imediato, o efeito existe: campanhas de desinformação têm sido usadas para atrasar ou desacreditar a transição energética, com consequências diretas na ação climática.
Ainda assim, há uma tendência para reduzir o problema à responsabilidade individual. “As pessoas devem verificar as fontes”, diz-se. É verdade, mas é insuficiente.
O ecossistema atual não é neutro. As plataformas digitais amplificam conteúdos com base em engagement, não em veracidade. A tecnologia permite criar conteúdos manipulados com um nível de sofisticação crescente. E os incentivos económicos, em muitos casos, favorecem a viralidade em detrimento da fiabilidade. Colocar o ónus apenas no indivíduo é ignorar a natureza sistémica do problema.
Isso não significa retirar responsabilidade às pessoas, mas sim enquadrá-la corretamente. Num contexto onde a credibilidade pode ser artificialmente construída, o pensamento crítico deixa de ser uma competência desejável para passar a ser uma necessidade básica.
Talvez a tentação seja olhar para o passado e pensar que antes se confiava mais, mas a realidade é outra: antes, a informação era escassa e mais filtrada; hoje, é abundante e facilmente manipulável. O desafio não é regressar a um estado de confiança cega, mas desenvolver uma capacidade de análise proporcional à complexidade do ambiente atual.
Para as empresas, isto implica assumir a desinformação como um risco ESG concreto, integrando-o nos sistemas de gestão, reforçando mecanismos de controlo e repensando a responsabilidade na comunicação. Ignorar este tema não é neutralidade. É, na prática, uma falha de governação.
E num contexto em que a confiança é cada vez mais difícil de construir, e cada vez mais fácil de destruir, isso é um risco que nenhuma organização deveria aceitar. Como diria Pedro Mexia, “Roma e Pavia desfizeram-se num dia”.



