À luz da evolução do último mês da pandemia do Covid-19, o preço de mercado da eletricidade tem tido uma redução substancial. Se a 26 de fevereiro os contratos futuros para o segundo trimestre eram transacionados a 36,7 euros por megawatt hora (MWh), esta quinta-feira o preço desses contratos estava em 26,8 euros por MWh, numa queda de 27%, segundo contas feitas pelo Expresso. divulgadas esta sexta-feira.
Para as famílias a descida dos preços no mercado grossista não se traduz num alívio imediato da fatura da luz mensal, da mesma forma que as subidas de preços no Mibel (Mercado Ibérico de Eletricidade) não provocam de imediato um agravamento da conta das famílias no mês seguinte. “Mas a tendência de queda do preço de mercado pode bem vir a refletir-se em benefícios para os clientes domésticos. Em alguns casos no curto prazo, noutros mais tarde”, avança a publicação.
Entre os comercializadores que operam no mercado liberalizado há uma pequena empresa, a Luzboa, que conta com um tarifário “spot”, isto é, a cada mês cobra aos seus clientes um preço diferente pela parte de energia da fatura: quando o preço grossista sobe o custo por kilowatt hora (kWh) aumenta, quando o mercado desce, no mês seguinte o consumidor paga menos. Segundo o presidente da Luzboa, Pedro Morais Leitão, a empresa conta com um milhar de clientes servidos por esse tarifário, entre os cerca de 9500 que fornece atualmente.
“Este ano é um bom ano para estar indexado. Já começámos a propor aos nossos clientes a mudança para o indexado. E são livres de abandonar esse tarifário quando quiserem”, explica Pedro Morais Leitão ao Expresso. Em fevereiro, com o preço grossista da eletricidade nos 36 euros por MWh, a empresa cobrava aos clientes 12,5 cêntimos por kWh (o valor inclui o custo da energia no mercado grossista, o custo de uso da rede e a margem do comercializador). Agora o preço no Mibel está ainda mais baixo.
Não há muitos comercializadores de eletricidade em Portugal a oferecer aos consumidores residenciais tarifários indexados ao preço do mercado grossista. Mas a tendência de queda do preço no Mibel pode agora dar a algumas empresas margem para atacar o mercado com campanhas mais agressivas e tarifas mais baixas. “Depende da estratégia de cada comercializador. Para portefólios de clientes novos pode acontecer, mas os clientes mais antigos vão ficar chateados se continuarem a pagar um preço mais alto”, comenta Pedro Morais Leitão.
Os dados do Omip, o mercado de futuros do Mibel, apontam de facto nesse sentido. Os contratos para entrega de energia elétrica no segundo trimestre estão a ser transacionados a 26,8 euros por Mwh, os do terceiro trimestre a 34,2 euros e os do quarto trimestre a 38,5 euros.
E porque está o mercado ibérico com preços particularmente baixos? “As razões são, em primeiro, segundo e terceiro lugar, a baixa do consumo”, aponta o presidente da Endesa Portugal, Nuno Ribeiro da Silva. A pandemia vem levando ao encerramento de muitas indústrias. Esta semana o consumo de eletricidade em Portugal estava 16% abaixo do início do mês.
Menor procura, menor preço. Até porque na forma como o mercado ibérico funciona, as ofertas dos produtores de eletricidade casam com a procura de energia por parte dos comercializadores hierarquizando as fontes de energia das mais baratas para as mais caras. Assim, com um volume por satisfazer menor, muitas ofertas tendencialmente mais caras ficam “fora de jogo”, sendo o mercado preenchido pelos produtores com as ofertas mais baratas.
Nas suas tarifas para 2020, a ERSE – Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos assumiu um preço de referência para o mercado grossista de 54 euros por MWh. Ou seja, se o preço real do mercado ibérico se mantiver até ao final do ano abaixo dos 40 euros por MWh, o sistema elétrico nacional deverá acumular este ano um excedente tarifário, que será usado em favor dos consumidores na fixação das tarifas para 2021.
No primeiro trimestre, ainda é cedo para fazer mais contas mas os sinais do mercado auguram boas notícias para os consumidores de eletricidade.





