Como responder aos novos desafios da comunicação

Por: Nelson Ribeiro, Diretor da Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica Portuguesa

O debate sobre a importância da comunicação na gestão da situação pandémica tem acendido a discussão sobre os desafios que se colocam à produção de mensagens que contribuem para proteger os cidadãos e a sociedade. Mais de um ano após o início da crise pandémica, existe uma maior noção sobre o poder da comunicação pública e sobre a importância desta se alicerçar numa dimensão ética, fornecendo factos e dados que permitam a todos tomar decisões conscientes e racionais. Com isto queremos evitar cair nas armadilhas da desinformação, que hoje é omnipresente, não apenas, mas sobretudo, no ambiente digital.

Assentes num modelo de negócio baseado na comercialização dos conteúdos produzidos gratuitamente por milhões de utilizadores, e na mercantilização dos dados pessoais dos cidadãos, os media sociais introduziram uma profunda mudança no ecossistema. Entre estas alterações destaca-se a aceleração na difusão de notícias e de informações falsas. Um estudo liderado por Soroush Vosoughi do MIT, sobre os padrões de difusão de 126 mil histórias publicadas no Twitter, concluiu que a falsidade chega mais longe, de modo mais rápido e circula de modo mais profundo, ou seja, gera um maior número de interações nos media sociais.

Mas não é apenas a velocidade com que a mentira flui online que deve ser alvo da nossa atenção, mas o facto de a desinformação encontrar um terreno fértil no ambiente digital. Enquanto muitos cidadãos partilham informações sem se assegurarem da sua veracidade, outros empenham-se em disseminar conteúdos que contribuem para acicatar divisões e gerar dúvidas sobre temas tão diversos como as alterações climáticas, a pandemia ou a eficácia das vacinas.

Compreender o modo como a comunicação é utilizada para moldar as perceções sobre a realidade tem hoje uma importância acrescida, pela necessidade de compreender a proliferação de novas estratégias de desinformação capazes de colocar em causa a discussão de ideias, mas também a viabilidade de empresas e negócios. Hoje a informação falsa continua a desempenhar um papel de relevo na vida política e económica, mas com a fertilidade do digital que lhe permite aumentar a velocidade.

A pergunta que se impõe a toda a sociedade, mas sobretudo à comunidade científica, como as universidades, é a de como podemos melhor responder a este novo modelo de comunicação? Nunca foi tão urgente pensar nestes desafios, e atuar para que seja possível combatê-los de forma participativa.

Com o intuito de responder a este repto, a Faculdade de Ciências Humanas acaba de reestruturar a sua licenciatura em Comunicação Social e Cultural que, ao longo de quase 30 anos, tem formado cidadãos capazes de ajudar as empresas e a sociedade a lidar com os mais diversos desafios nos quais a comunicação desempenha um papel central. Com a criação de novas variantes de especialização, a nossa aposta será na capacitação de uma nova geração de comunicadores e de gestores de comunicação dotados de pensamento crítico e de uma profunda dimensão ética que os leve a desenvolverem estratégias de comunicação ao serviço das empresas e das organizações, mas que sejam também geradoras de valor social.

Em 1928, Edward Bernays escreveu sobre o que apelidava de “governo invisível”, composto por especialistas na gestão da opinião pública, os quais considerava serem os detentores do verdadeiro poder em democracia. Este pensamento alicerça-se na ideia de que a sociedade pode ser facilmente manipulada por quem controla as narrativas mediáticas. Embora denuncie uma visão simplista sobre o entendimento dos processos de comunicação, não deixa de nos alertar para a importância de termos cidadãos qualificados e eticamente comprometidos a gerir a comunicação pública e a garantir que aos cidadãos é dada a oportunidade de formar a sua opinião, com base em factos reais e não em dados falsos, que procuram favorecer interesses particulares e não a sociedade como um todo.

 

 

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