Por Luís Gil, Membro Conselheiro e Especialista em Energia da Ordem dos Engenheiros
Nos últimos tempos, já todos ouvimos falar de uma série de materiais/minerais críticos como por exemplo o lítio, o níquel, o cobalto, a grafite ou as terras raras, entre outros. Hoje, a mineração destes materiais/minerais críticos é altamente concentrada em localizações geográficas específicas. Austrália (lítio), China (grafite, terras raras), Chile (cobre e lítio), República Democrática do Congo (cobalto), Indonésia (níquel) e África do Sul (platina, irídio) são os “atores” dominantes. O processamento é ainda mais concentrado geograficamente, com a China a concentrar a produção de grande parte dos produtos refinados/processados necessários às novas tecnologias energéticas. Além disso, a indústria de mineração é dominada por algumas grandes empresas, com poucos controlando uma parcela significativa da produção e do comércio global. Felizmente, diria eu, notícias muito recentes dão também nota da Noruega ter anunciado a descoberta de enormes reservas de fosfato, que pode ser usado, entre outras aplicações, para o fabrico de baterias (de lítio-ferro-fosfato (LFP)) e painéis fotovoltaicos, sendo que a própria empresa de mineração responsável pela descoberta acredita que a mesma pode ser “importante para o Ocidente”.
Com interesse, refira-se que a International Energy Agency lançou, muito recentemente, uma importante ferramenta que avalia a procura global de vários materiais/minerais críticos para uma transição energética “limpa” tendo por base vários cenários energéticos e alguns casos ou tendências tecnológicos específicos, avaliando o impacto de diferentes tecnologias e os comportamentos dos consumidores. Esta ferramenta será muito interessante para o público em geral, mas sobretudo para os decisores políticos. Trata-se de uma ferramenta dinâmica que irá ser atualizada e afinada periodicamente.
Os materiais/minerais críticos são hoje objeto de muita diplomacia internacional. Infelizmente, a sua concentração geográfica a nível da sua produção e processamento, coloca desafios relacionados com a segurança dos recursos e problemas geopolíticos. Esta concentração evidencia vulnerabilidades e incertezas para os países consumidores e produtores que, por sua vez, podem afetar a implementação das tecnologias de transição energética. Por isso se impõe a concretização de estratégias para diversificar as cadeias de abastecimento e de produção desses materiais refletindo múltiplas prioridades e considerações económicas, políticas e sociais.
Assim, a cooperação internacional e escolhas políticas prudentes para garantir que a transição energética avance à velocidade necessária a nível global são da maior importância. Por isso, é urgente proporcionar o desenvolvimento de mercados transparentes com padrões e normas coerentes, fundamentados em direitos humanos, gestão ambiental e envolvimento das comunidades envolvidas. Choques externos, nacionalismo de recursos, restrições à exportação, cartéis de materiais/minerais, instabilidade e manipulação de mercado podem, deste modo, aumentar os riscos de escassez de oferta.
É preciso criar o impulso para cadeias de valor mais inclusivas, éticas e sustentáveis. Existindo reservas de materiais/minerais geograficamente distribuídas, abrem-se oportunidades para diversificar a mineração e o processamento nomeadamente nos chamados países em desenvolvimento. Atualmente, estes países respondem pela maior parte da produção global necessária para as transições energéticas, sendo que a sua participação nas reservas é ainda maior. Apenas como exemplo, refira-se que a Bolívia tem enormes reservas de lítio, mas produz menos de 1% da oferta mundial.
Assim, será necessário desenvolver e implementar políticas de apoio que permitam que estes países sintam a possibilidade de novas oportunidades de negócios mantendo a agenda global de descarbonização em curso. Nenhum país sozinho pode satisfazer a sua procura por materiais/minerais, pelo que estratégias colaborativas que beneficiem todos os envolvidos precisam de ser desenvolvidas e implementadas.
Concluindo, a transição energética tornar-se-á o principal impulsionador da procura de materiais/minerais críticos. Uma transição energética baseada em fontes renováveis, se bem planeada e executada, pode ser um fator de desenvolvimento económico sustentável, sem fazer perigar o ambiente e o bem-estar das populações.




