Barómetro: O que pensam os portugueses sobre a imigração e os imigrantes? E qual é a realidade dos números?

No âmbito do Dia Internacional das Migrações, a Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS) apresentou hoje o Barómetro da Imigração, um estudo inovador que explora as opiniões da sociedade portuguesa sobre os imigrantes, cruzando estas perceções com dados estatísticos.

Pedro Zagacho Gonçalves

No âmbito do Dia Internacional das Migrações, a Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS) apresentou hoje o Barómetro da Imigração, um estudo inovador que explora as opiniões da sociedade portuguesa sobre os imigrantes, cruzando estas perceções com dados estatísticos. A análise, realizada por Rui Costa Lopes, João António e Pedro Góis, pretende aprofundar a compreensão das atitudes em Portugal perante este fenómeno e fomentar o debate público sobre políticas migratórias.

Escolha a Executive Digest como fonte preferida no Google Escolher ›

Imigração: entre perceções e realidades
O barómetro revelou uma visão paradoxal dos residentes em Portugal Continental. Embora 68% dos inquiridos reconheçam os imigrantes como essenciais para a economia, a mesma percentagem acredita que as políticas migratórias são demasiado permissivas. Além disso, 75,8% defendem uma regulação mais rigorosa das entradas no país.

De acordo com o estudo, a imigração é vista simultaneamente como uma oportunidade económica e uma ameaça social. Mais de dois terços (67,4%) associam os imigrantes a um aumento da criminalidade, enquanto 68,9% afirmam que contribuem para a estagnação dos salários.

Os dados indicam que as perceções variam significativamente em função das origens dos imigrantes. Cerca de 60% dos inquiridos consideram que o número de imigrantes provenientes do subcontinente indiano deveria diminuir. Este valor contrasta com os 25,2% que defendem a redução de imigrantes de países ocidentais e os 51% em relação ao Brasil.

Este fenómeno reflete uma oposição crescente a imigrantes do Bangladesh, Nepal e Índia, que representam 9% do total de imigrantes em Portugal, num total de cerca de 73 mil pessoas. Apesar de o subcontinente indiano só recentemente ter tido uma presença significativa no país, os níveis de rejeição já são superiores aos registados para outros grupos.

Continue a ler após a publicidade
Continue a ler após a publicidade

Sobrestimação do número de imigrantes
O estudo identificou uma perceção inflacionada sobre o número de imigrantes em Portugal. Cerca de 42% dos inquiridos sobrestimam a quantidade de imigrantes, o que influencia negativamente as suas atitudes. Atualmente, os imigrantes com autorização de residência legal somam cerca de 1 milhão e 44 mil pessoas.

Apesar das preocupações manifestadas, a maioria dos inquiridos é favorável à atribuição de direitos aos imigrantes. Quase 59% defendem que estes devem ter direito ao voto, enquanto 51,8% apoiam a facilitação do processo de naturalização. Além disso, 77,4% concordam que os imigrantes devem poder trazer as suas famílias para Portugal.

Em relação ao acesso a serviços, a maior parte dos inquiridos considera que os imigrantes devem ter os mesmos direitos que os cidadãos nacionais, desde que residam legalmente no país. No entanto, 78% acreditam que aqueles que não têm emprego deveriam regressar ao país de origem, e 82% sustentam a deportação em casos de crime.

A análise revela uma associação clara entre posicionamentos políticos e atitudes face à imigração. Os indivíduos com orientações políticas mais à direita demonstram maior oposição, particularmente em relação a imigrantes africanos e do subcontinente indiano. Por outro lado, aqueles mais satisfeitos com o regime democrático ou com melhores condições de vida são mais favoráveis à imigração e à atribuição de direitos.

Embora os inquiridos reconheçam desigualdades no acesso à habitação (40,6%) e condições de trabalho (53,5%), a maioria acredita que há igualdade no acesso a saúde, educação e justiça. No entanto, 51% consideram os imigrantes uma ameaça aos valores e tradições portuguesas, quase o dobro da percentagem registada em 2010.

Continue a ler após a publicidade

O retrato da imigração
As perceções da população frequentemente divergem da realidade estatística, como mostram os dados mais recentes. Apesar de Portugal ter cerca de 1 milhão e 44 mil imigrantes com residência legal em 2023 (9,8% da população total), o país figura entre os dez Estados-membros da União Europeia com menor proporção de estrangeiros na população. Em comparação, Malta e Luxemburgo destacam-se com proporções muito superiores, com o último país a ter metade da sua população composta por estrangeiros.

A contribuição dos imigrantes para o saldo populacional positivo de Portugal tem sido determinante desde 2019, face ao saldo natural negativo que persiste desde 2009. Em 2023, por exemplo, 22% dos bebés nascidos eram filhos de mães estrangeiras, embora os estrangeiros representem apenas cerca de 10% da população residente.

Entre os estrangeiros em Portugal, 8 em cada 10 vêm de países fora da União Europeia, destacando-se o Brasil (30%), seguido por nacionalidades como a ucraniana, britânica, indiana e nepalesa. O número de imigrantes provenientes do subcontinente indiano, apesar de representar 9% do total de imigrantes (73 mil pessoas), mostrou um impacto desproporcional nas contribuições para a Segurança Social em 2023.

Em 2023, os trabalhadores estrangeiros contribuíram com 2.677 milhões de euros para a Segurança Social, um aumento de 44% face a 2022. Em contrapartida, beneficiaram de 483,3 milhões de euros em prestações sociais, gerando um saldo positivo de mais de 2.194 milhões de euros. Entre os principais contribuintes destacam-se trabalhadores brasileiros, nepaleses e indianos, que juntos foram responsáveis por 56% do total das contribuições.

Setores como a agricultura e pescas (30% de trabalhadores estrangeiros) e o turismo, alojamento e restauração (22%) também dependem fortemente da mão de obra imigrante. No entanto, a situação de muitos imigrantes permanece precária: 27% dos estrangeiros residentes vivem em situação de pobreza ou exclusão social, um número significativamente superior ao da população portuguesa (19,4%).

Continue a ler após a publicidade

A imigração também está a alterar o perfil da população estudantil em Portugal. No ano letivo 2023/2024, 14% dos alunos matriculados eram estrangeiros, totalizando cerca de 140 mil, um aumento de 160% em cinco anos. Destes, 39.500 ingressaram no sistema educativo em 2022/2023 e 33.500 em 2023/2024.

Partilhar

Edição Impressa

Assinar

Newsletter

Subscreva e receba todas as novidades.

A sua informação está protegida. Leia a nossa política de privacidade.