Afinal, quanto calor aguenta o corpo humano? Menos do que parece…

As vagas de calor estão a tornar-se mais longas, mais frequentes e mais intensas à medida que o clima muda. Mas a pergunta mais importante talvez não seja apenas quantos graus marca o termómetro…

Francisco Laranjeira

As vagas de calor estão a tornar-se mais longas, mais frequentes e mais intensas à medida que o clima muda. Mas a pergunta mais importante talvez não seja apenas quantos graus marca o termómetro. É saber a partir de que ponto o calor deixa de ser compatível com atividades normais do dia a dia, mesmo para adultos jovens e saudáveis.

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Num artigo publicado originalmente na ‘The Conversation’, investigadores da Penn State University explicam que a resposta depende da combinação entre temperatura e humidade. E os resultados dos testes em laboratório apontam para um limite mais baixo do que aquele que durante anos foi usado como referência teórica.

O indicador central é a chamada temperatura de bolbo húmido, uma medida que combina calor e humidade. Quando a humidade é elevada, o suor evapora com mais dificuldade e o corpo perde capacidade de se arrefecer. É por isso que 38 ºC com muita humidade podem ser mais perigosos do que uma temperatura superior em ambiente seco.

Durante anos, muitos investigadores apontaram para uma temperatura de bolbo húmido de 35 ºC como o limite máximo de adaptação humana. Acima desse patamar, o corpo deixaria de conseguir arrefecer-se através da evaporação do suor e manter uma temperatura interna estável.

Mas os ensaios realizados no Noll Laboratory, da Penn State University, indicam que o limite crítico pode estar mais perto dos 31 ºC de temperatura de bolbo húmido. Isso equivale, por exemplo, a 31 ºC com 100% de humidade ou a cerca de 38 ºC com 60% de humidade.

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Os testes foram feitos com homens e mulheres jovens e saudáveis. Cada participante ingeriu uma pequena cápsula de telemetria para medir a temperatura interna do corpo e entrou numa câmara ambiental onde a temperatura ou a humidade eram aumentadas gradualmente.

Os investigadores pediram aos participantes que se movimentassem apenas o suficiente para simular atividades muito leves do dia a dia, como cozinhar ou comer. O objetivo era perceber em que ponto a temperatura interna começava a subir de forma contínua.

Esse ponto é chamado limite ambiental crítico. Abaixo dele, o organismo consegue manter a temperatura interna relativamente estável. Acima desse limite, a temperatura do corpo começa a aumentar, elevando o risco de doenças associadas ao calor quando a exposição se prolonga.

Quando o corpo sobreaquece, o coração tem de trabalhar mais para levar sangue até à pele e libertar calor. Ao mesmo tempo, a transpiração reduz os fluidos corporais. Nos casos mais graves, a exposição prolongada pode provocar golpe de calor, uma emergência médica potencialmente fatal que exige arrefecimento rápido e assistência imediata.

O risco é ainda maior entre pessoas idosas, doentes crónicos e pessoas que tomam certos medicamentos. Os autores lembram que os maiores de 65 anos representam entre 80% e 90% das vítimas mortais em vagas de calor.

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Mesmo temperaturas abaixo destes limites podem pressionar o coração, os pulmões e outros sistemas do corpo. Por isso, a hidratação, a permanência em locais frescos e a possibilidade de fazer pausas para arrefecer são essenciais em períodos de calor extremo.

O problema é que nem todos têm acesso a ar condicionado ou a espaços de arrefecimento. Mesmo quando esse acesso existe, há quem evite ligar equipamentos devido ao custo da energia. Em situações de falhas elétricas durante vagas de calor ou incêndios, o risco torna-se ainda maior.

Os autores alertam ainda que algumas soluções de arrefecimento de baixo custo, como sistemas evaporativos, perdem eficácia quando a humidade é elevada. Estes equipamentos usam ar a passar por uma superfície húmida para baixar a temperatura, mas deixam de funcionar bem quando a temperatura de bolbo húmido sobe demasiado.

A conclusão é direta: o calor perigoso não começa apenas nos valores extremos que parecem impossíveis de suportar. Pode chegar mais cedo, sobretudo quando a humidade impede o corpo de fazer aquilo de que depende para sobreviver ao calor: suar e arrefecer.

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