Durante grande parte da guerra, a Ucrânia limitou-se a resistir. Defendia cidades, travava ofensivas russas e procurava impedir novos avanços no terreno. Nos últimos meses, porém, algo mudou. Segundo uma análise publicada pelo ‘The Conversation’, Kiev passou a conseguir atingir alvos cada vez mais profundos em território russo, transformando uma guerra que parecia confinada ao território ucraniano num conflito que hoje também se faz sentir junto de Moscovo, São Petersburgo e até na região dos Urais.
Para Cyrille Bret, geopolítico e professor da Sciences Po, um dos mais prestigiados institutos franceses de ciências políticas, com sede em Paris, a Ucrânia entrou numa nova fase da guerra. O especialista sustenta que Kiev conseguiu levar o conflito para o coração da Rússia, mas considera prematuro falar de uma derrota de Moscovo.
Esta mudança representa uma evolução significativa da estratégia militar ucraniana. Os ataques deixaram de se concentrar apenas nas zonas fronteiriças ou na defesa do Donbass e passaram a visar refinarias, armazéns, infraestruturas militares, centrais energéticas e linhas logísticas russas. A mensagem é clara: a guerra já não pode ser ignorada dentro da própria Rússia.
À primeira vista, o cenário pode sugerir que Kiev está finalmente a inverter o rumo do conflito. A precisão crescente dos drones e mísseis, aliada ao aumento da produção nacional de armamento, transmite a imagem de uma Ucrânia cada vez mais capaz de desafiar militarmente uma potência muito maior. Mas, para o geopolítico Cyrille Bret, essa leitura pode ser enganadora.
O especialista defende que os sucessos recentes resultam de vários anos de investimento em inovação tecnológica, recolha de informação, inteligência artificial aplicada ao campo de batalha e reorganização das cadeias de comando. O país passou de simples recetor de ajuda militar para um produtor de drones e sistemas de ataque capazes de atingir objetivos estratégicos a centenas de quilómetros da frente de combate.
Apesar disso, a realidade no terreno continua muito diferente daquela que os vídeos dos ataques sugerem. Cerca de um quinto do território ucraniano permanece sob ocupação russa, as forças armadas continuam a enfrentar falta de efetivos e Kiev depende largamente do apoio financeiro e militar dos aliados para manter o esforço de guerra.
É precisamente por isso que Bret recorda uma velha máxima militar: as guerras podem ganhar-se no ar, mas acabam sempre por ser decididas em terra. Os ataques aéreos conseguem perturbar a logística russa, obrigar Moscovo a reforçar a defesa antiaérea e elevar o moral ucraniano, mas não chegam, por si só, para recuperar território ou impedir novas ofensivas russas no Donbass.
Ao mesmo tempo, Volodymyr Zelensky continua a somar vitórias diplomáticas. Nos últimos meses participou em cimeiras do G7 e da NATO, reforçou contactos com vários parceiros internacionais e garantiu novo apoio financeiro de instituições como o FMI e a União Europeia. Essa presença internacional ajuda a manter a Ucrânia no centro da agenda política mundial, numa altura em que outras crises disputam a atenção dos aliados.
Contudo, o presidente ucraniano enfrenta também dificuldades internas. Casos de corrupção continuam a afetar a credibilidade das instituições, a ausência de eleições devido à lei marcial alimenta críticas externas e as mudanças recentes na chefia do Governo e das Forças Armadas mostram que a estabilidade política continua longe de estar garantida.
Há ainda um fator decisivo que escapa ao controlo de Kiev: Washington. O autor considera que uma eventual pressão da Administração Trump para alcançar rapidamente um acordo de paz poderá limitar a liberdade de ação da Ucrânia e condicionar toda a estratégia militar desenvolvida nos últimos meses.
Perante este cenário, Bret identifica três caminhos possíveis: insistir numa lenta reconquista territorial, aceitar negociações aceleradas com Moscovo ou intensificar ainda mais os ataques em território russo. Cada uma destas opções implica riscos militares e políticos diferentes, mas nenhuma garante uma solução rápida para um conflito que continua longe do fim.
No final, a conclusão é menos otimista do que a sucessão de ataques bem-sucedidos poderia fazer acreditar. A Ucrânia conseguiu provar que é capaz de levar a guerra para dentro da Rússia e alterar o equilíbrio psicológico do conflito. No entanto, transformar esse sucesso operacional numa vitória política e militar continua a ser um desafio muito maior.













