A receita para desaparecer

Opinião de Pedro Amendoeira, partner da ERA Group

Executive Digest

Por Pedro Amendoeira, partner da ERA Group

Em maio, uma histórica marca de cerveja, com mais de 170 anos de existência, encerrou a sua atividade. Durante décadas, a Schlitz foi a maior cervejeira no mercado mundial. Ainda assim, arriscaria dizer que a maioria das pessoas já não reconhece este nome. Eu próprio, até há pouco tempo, também não.

Foi líder mundial a partir de 1934 e assim se manteve até meados dos anos 50, quando foi ultrapassada pela Budweiser. Não obstante, no início dos anos 70 continuava a disputar o título de cerveja mais bebida do mundo. Foi então que o seu presidente na época, Robert Uihlein Jr., decidiu alterar os ingredientes e o processo de produção para reduzir custos. Esta decisão acabou por comprometer a qualidade e a consistência que distinguiam a marca.

Com uma única decisão, esta cerveja histórica, que durante gerações conquistou a fidelidade dos consumidores pelo seu sabor e identidade, entrou num processo de declínio do qual nunca conseguiu recuperar. E, quando tentou reagir, já era tarde. Novas formulações, campanhas publicitárias cada vez mais desesperadas e longas greves. A empresa acabou por ser desmantelada e vendida aos concorrentes. A marca Schlitz sobreviveu ainda durante algum tempo, de mão em mão, mas o declínio tornou-se irreversível.

Como se arruinar uma marca em nome de uma redução de custos não bastasse, a empresa conseguiu um duplo feito.

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Pouco antes de adulterar a Schlitz, tinha feito o mesmo com outra cerveja do seu portefólio: a havaiana Primo. Numa tentativa de reduzir custos, deixou de a produzir integralmente no Havai e passou a enviar mosto desidratado da Califórnia para fermentação nas ilhas. Os consumidores perceberam a diferença, o novo sabor não convenceu e a quota de mercado da Primo caiu de cerca de 70% para 20%. A empresa ainda retomou o processo de produção original, mas era demasiado tarde. As vendas nunca mais recuperaram.

Se há uma lição a retirar desta história, é que cortar custos sem perguntar exatamente o que se está a abdicar, pode ser o erro mais caro que uma empresa comete. Porque, muitas vezes, aquilo que se poupa no imediato corrói o que é verdadeiramente importante e, geralmente, os seus efeitos só se refletem no balanço mais tarde.

A Schlitz poupou no malte. Acabou por perder a marca, os clientes e, por fim, a própria empresa.

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No entanto, de forma menos evidente e menos fatal do que na Schlitz, o corte precipitado e reativo de custos é comum a muitas organizações. Reduzir no pessoal qualificado que depois faz falta, na inovação que permite preparar o futuro, na campanha que gera vendas, nas regalias que sustentam a motivação de uma equipa, pode ter reflexo positivo no balanço imediato. Mas o impacto dessas decisões tende a revelar-se muito mais negativo a médio e longo prazo.

Uma boa gestão de custos é essencial. O verdadeiro desafio está em saber onde e quando cortar. Não existem fórmulas universais, mas há princípios que podem orientar essa decisão.

Um deles é gastar com propósito. Idealmente, cada euro investido deve contribuir para os objetivos estratégicos da organização e gerar o maior valor possível. Tudo o que excede esse objetivo é desperdício. Mas gastar menos do que o necessário pode ser igualmente perigoso. Foi precisamente esse o erro que ditou o declínio da Schlitz.

Antes de fechar o ciclo e encerrar definitivamente a produção, foi lançado um último lote comemorativo, recuperando a receita original de 1948. Foi tarde.

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