A BYD está a intensificar contactos para uma possível entrada na Fórmula 1, depois de uma reunião entre Stella Li, vice-presidente executiva da fabricante chinesa, e Christian Horner, antigo diretor da Red Bull Racing. As conversas, reveladas pelo ‘Financial Times’, decorreram em Cannes e marcam mais um passo da marca na tentativa de reforçar a sua projeção global.
As negociações ainda estão numa fase inicial e não há garantia de que a BYD avance para a Fórmula 1. Segundo duas pessoas com conhecimento do processo, a empresa pretende agora realizar novas reuniões com responsáveis de topo ligados à F1 e à FIA, o organismo que tutela o desporto automóvel.
Ainda não é claro qual seria o caminho escolhido pela fabricante chinesa. A BYD poderia desenvolver uma unidade motriz própria, tornar-se cliente de um fornecedor de motores, comprar uma equipa já existente ou tentar entrar como uma 12ª equipa na grelha. Todas as opções implicariam investimento elevado, negociações complexas e aprovação regulatória.
Se o projeto avançar, seria um marco para a indústria automóvel chinesa. A BYD é o maior fabricante mundial de veículos elétricos e tem vindo a expandir-se rapidamente fora da China, sobretudo na Europa, onde investe em fábricas, redes de concessionários e notoriedade de marca.
A entrada na Fórmula 1 permitiria à BYD mostrar tecnologia, acelerar o reconhecimento internacional e posicionar-se ao lado de alguns dos maiores nomes da indústria automóvel. A marca já tem procurado ganhar visibilidade global através do desporto, com acordos de patrocínio no futebol, incluindo o Manchester City e o Inter Milão.
A própria Stella Li admitiu recentemente, em declarações a jornalistas em Pequim, que a empresa estava a discutir internamente oportunidades no desporto motorizado, incluindo a Fórmula 1, para demonstrar a sua tecnologia. A BYD, a F1, a FIA e Christian Horner recusaram comentar o tema ao ‘Financial Times’.
O interesse da BYD surge num momento em que a Fórmula 1 procura consolidar a sua expansão global. A China é um mercado estratégico para o campeonato, que regressou a Xangai em 2024 após cinco anos de ausência devido à pandemia. O Grande Prémio da China foi prolongado até 2030 e a F1 estima ter mais de 150 milhões de fãs no país.
Este ano, o fim de semana de corrida em Xangai atraiu 230 mil espectadores, mais 10 mil do que em 2025, reforçando o potencial comercial do mercado chinês para a modalidade.
Ainda assim, entrar na Fórmula 1 está longe de ser simples. A grelha já conta com 11 equipas desde a chegada da Cadillac, apoiada pela General Motors e pela TWG Motorsports, de Mark Walter. Embora haja espaço para uma 12ª equipa, qualquer novo participante teria de pagar uma taxa de várias centenas de milhões de dólares para compensar as equipas existentes.
O exemplo da Cadillac mostra a dificuldade do desafio. Apesar do apoio da General Motors e da contratação de nomes experientes da Fórmula 1, como Graeme Lowdon e Pat Symonds, a nova equipa ocupa o 10º lugar no campeonato de construtores após quatro corridas.
É neste contexto que a aproximação da BYD a Christian Horner ganha relevância. O antigo responsável da Red Bull conhece o funcionamento interno da Fórmula 1 ao mais alto nível e está a explorar formas de regressar ao desporto motorizado depois da saída da equipa no ano passado.
Horner está entre os interessados numa participação de 24% na Alpine, equipa detida pela empresa de investimento americana Otro Capital. Está também a colaborar com a Oakley Capital como consultor em investimentos ligados ao desporto premium.
Para a Fórmula 1, uma eventual entrada da BYD seria também uma oportunidade estratégica. A chegada de uma grande fabricante chinesa de elétricos reforçaria a presença do campeonato num mercado essencial e mostraria a capacidade da F1 para atrair novos protagonistas industriais numa fase de transição tecnológica do setor automóvel.
Para a BYD, porém, o desafio seria duplo: transformar notoriedade global em prestígio desportivo e provar que uma marca associada à eletrificação pode encontrar espaço num campeonato que continua profundamente ligado à performance, aos motores híbridos de alta complexidade e à tradição das grandes marcas europeias.














