Ao longo da minha vida profissional tive a oportunidade de trabalhar com diferentes líderes. Alguns marcaram-me pela visão, outros pela capacidade de execução e outros ainda pela forma como geriam pessoas e organizações. Poucos, porém, me ensinaram uma lição tão relevante como aquela que João Bento deixou nos últimos meses da sua liderança nos CTT: a arte de saber sair.
Parece um tema simples. Não é.
Nas escolas de gestão ensina-se a liderar equipas, a definir estratégias, a gerir recursos e a apresentar resultados. Fala-se muito de como chegar ao topo. Fala-se muito menos de como abandonar esse mesmo topo quando chega o momento.
É por isso que acredito que os meses que antecederam a saída de João Bento da liderança dos CTT deveriam ser estudados como um caso de comunicação e liderança empresarial.
Quem acompanhou o seu percurso sabe que nunca foi um gestor particularmente dado aos holofotes. Engenheiro e cientista de formação, construiu uma reputação baseada na competência, no rigor e nos resultados. Durante anos, preferiu deixar que o trabalho falasse por si.
No entanto, nos momentos que antecederam a sua saída, observou-se algo diferente. Houve uma presença pública mais visível. Foram comunicados resultados, reforçadas mensagens estratégicas, anunciadas parcerias internacionais e transmitida uma visão clara sobre o futuro da empresa.
Não vi nisso uma mudança de personalidade. Vi um líder a preparar a organização para o dia seguinte.
Nas empresas cotadas, as transições de liderança são frequentemente momentos de incerteza. Os mercados observam. Os investidores questionam. Os colaboradores procuram sinais. Os parceiros avaliam a estabilidade do futuro.
João Bento percebeu isso e preparou a sua saída com a mesma seriedade com que liderou a empresa.
Fê-lo, além disso, abrindo caminho para uma nova liderança que considero extremamente qualificada. Faço aqui uma declaração transparente: nutro uma profunda admiração profissional por Guy Pacheco. Sempre reconheci nele uma enorme competência, uma capacidade de trabalho invulgar e um conhecimento profundo do negócio. Estou convicto de que reúne todas as condições para liderar os CTT numa nova etapa de crescimento e transformação.
Talvez por isso esta sucessão me pareça particularmente bem conseguida. Porque não foi construída sobre ruturas, mas sobre continuidade, confiança e preparação.
Há líderes que deixam um vazio quando partem. Há outros que deixam uma organização preparada para continuar a crescer. A diferença entre uns e outros mede-se muitas vezes pela forma como encaram a sucessão.
Na minha perspetiva, João Bento pertence claramente ao segundo grupo.
E há ainda um aspeto que merece referência. Nos momentos públicos mais recentes foi possível observar um lado mais pessoal, marcado pelo orgulho na família, pelo reconhecimento dos que o acompanharam e pela gratidão demonstrada a quem contribuiu para o seu percurso.
Num tempo em que tantas vezes se celebra o sucesso individual, essa capacidade de agradecer talvez diga tanto sobre uma pessoa quanto os resultados que alcançou.
Os números ficam nos relatórios. Os cargos passam. As empresas seguem o seu caminho.
Mas a forma como um líder encerra um ciclo permanece como parte do seu legado.
E, por isso, continuo a acreditar que saber sair é uma das mais raras e valiosas competências de liderança. João Bento deu-nos, nos últimos meses, uma demonstração particularmente interessante dessa arte.



