Apesar das metas ambiciosas, somos campeões mundiais na produção de resíduos eletrónicos, com 17,6 kg per capita. Uma dissonância que expõe uma falha estrutural na abordagem europeia: o problema não reside na falta de contentores de reciclagem, mas sim na arquitetura de um mercado que continua a recompensar o descartável.
O debate público aborda a crise do lixo eletrónico de forma redutora: foca-se na gestão de produtos em fim de vida como se a única solução fosse reciclar mais. E, neste ponto, a Europa tem uma taxa de reciclagem bastante positiva (42,8%) e superior à média global (22,3%). Acredito que esta análise limita os princípios hierárquicos da economia circular: em primeiro lugar, devemos prevenir e reduzir; depois, reutilizar e recondicionar; e só em último recurso, quando todas as outras opções se esgotam, reciclar. Ao concentrar-se na gestão de resíduos, a atual política europeia inverte esta lógica e continua a privilegiar, em muitos casos, a substituição em detrimento do recondicionamento e reutilização. A raiz do problema assenta num sistema com incentivos desalinhados, onde comprar um dispositivo novo é mais fácil, barato e conveniente do que optar pela reparação ou por um recondicionado. Em média, um agregado familiar europeu compra um smartphone novo a cada 2,5 anos. Um produto novo, muitas vezes produzido com custos ambientais e sociais externalizados, chega ao mercado sem grandes barreiras. Em contrapartida, a reparação de um ecrã partido pode custar uma fração significativa do preço de um modelo novo, não por necessidade técnica, mas porque o acesso a peças é deliberadamente dificultado. Em muitos casos, o consumidor depara-se com custos de reparação que tornam a substituição a opção aparentemente mais racional do ponto de vista económico. Não podemos, de forma realista, pedir aos consumidores que suportem o fardo da sustentabilidade, pagando mais quando todo o sistema económico os empurra na direção oposta.
Se o problema assenta em incentivos desalinhados, importa olhar para os modelos de negócio que já provaram que uma alternativa é possível. A responsabilidade pela longevidade de um produto recai, em grande medida, sobre os fabricantes, e existem modelos de negócio que mostram um novo caminho. As empresas focadas na circularidade demonstram que é possível aliar crescimento económico e impacto ambiental positivo. Como aponta o Fórum Económico Mundial (2024), 97% das empresas adotam modelos circulares por razões económicas e mais de 70% esperam um aumento de receitas com estas práticas até 2027. O recondicionamento, em particular, surge como uma das ferramentas mais relevantes. Ao prolongar a vida útil dos produtos, ataca a raiz do problema, cria empregos locais e oferece aos consumidores acesso a tecnologia de qualidade a preços mais acessíveis. Além dos benefícios ambientais, contribui para reduzir a dependência europeia de matérias-primas críticas e reforça a competitividade da economia europeia num contexto global cada vez mais desafiante. O setor prova que é possível ser lucrativo e sustentável, mas ainda compete em desvantagem, pois luta contra as barreiras de um sistema desenhado para beneficiar o ‘novo’.
Se a Europa quer, de facto, liderar a economia circular, deve ser mais ambiciosa. Iniciativas como a diretiva Right to Repair e o Regulamento de Ecodesign são passos meritórios. Representam uma mudança positiva de paradigma e demonstram que a União Europeia reconhece a importância da circularidade. No entanto, deixaram de fora muitas categorias de produtos e a sua aplicação continua aquém do necessário. Por exemplo, no caso dos ecrãs, embora se tenha reforçado a disponibilidade de peças, recuou-se na obrigação de estes serem facilmente substituíveis pelo consumidor.
O atual sistema torna a opção mais sustentável na mais complexa, e é precisa coragem para corrigir este desiquilíbrio estrutural. Isto significa criar vantagens fiscais para produtos recondicionados e sustentáveis, impor requisitos de durabilidade e reparabilidade, definir regras claras que distingam bens de segunda mão de lixo para exportação, e garantir um mercado único europeu que facilite a reutilização transfronteiriça.
A questão central não é se uma economia circular é tecnicamente possível ou rentável, mas se os legisladores e as empresas estão dispostos a reformular as condições para que os dispositivos sejam efetivamente usados por mais tempo, reutilizados e recondicionados, em vez de simplesmente descartados de forma mais eficiente. A transição para um modelo verdadeiramente circular não é apenas um desafio tecnológico, é também um desafio de vontade política e empresarial.
Além de uma ambição ambiental, trata-se de uma oportunidade económica para a Europa: criar emprego qualificado, reforçar a sua autonomia estratégica e desenvolver um modelo de crescimento mais resiliente e eficiente na utilização de recursos.
Ambicionará a Europa construir um verdadeiro sistema circular ou limitar-se-á a tornar-se mais eficiente na gestão do lixo que continua a produzir?





