O Presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, atribuiu esta quarta-feira, a Elon Musk a Ordem da Liberdade, uma das mais importantes distinções estatais ucranianas. A decisão foi formalizada através de um decreto presidencial, no qual o chefe de Estado justifica a condecoração com o contributo do empresário norte-americano para a proteção da vida e da liberdade e para o desenvolvimento das relações entre os povos da Ucrânia e dos Estados Unidos.
A distinção surge num momento particularmente relevante na relação entre Kyiv e Musk, cuja empresa SpaceX, através do serviço de internet por satélite Starlink, desempenhou um papel importante nas comunicações ucranianas desde o início da invasão russa em larga escala, em fevereiro de 2022. Ao mesmo tempo, a utilização da rede por parte das forças ucranianas tem sido alvo de divergências entre Kyiv e o empresário, sobretudo relativamente às operações militares realizadas em território russo.
A condecoração foi anunciada no Decreto Presidencial n.º 835/2026, datado de 26 de agosto. No documento, Musk é identificado como empresário, engenheiro e responsável pela SpaceX e pela Tesla, sendo distinguido pelo seu contributo para a proteção da vida humana e da liberdade e para o fortalecimento das relações entre os povos ucraniano e norte-americano.
A Ordem da Liberdade é uma distinção estatal ucraniana destinada a reconhecer contributos considerados excecionais para a afirmação da soberania e independência da Ucrânia, o desenvolvimento da democracia e a defesa dos direitos e liberdades constitucionais.
A distinção pode ser atribuída tanto a cidadãos ucranianos como a cidadãos estrangeiros, tendo sido utilizada para reconhecer personalidades internacionais pelo apoio prestado à Ucrânia.
Starlink tornou-se essencial para as comunicações ucranianas
A ligação de Elon Musk à Ucrânia ganhou particular importância através da Starlink, a rede de internet por satélite operada pela SpaceX. O sistema passou a ter um papel relevante nas comunicações ucranianas depois do início da invasão russa em grande escala, permitindo manter ligações em zonas onde as infraestruturas convencionais foram destruídas ou ficaram comprometidas.
A tecnologia também foi utilizada pelas forças ucranianas para manter comunicações e coordenar operações militares. A dependência desta infraestrutura tornou, por isso, a relação entre Kyiv e Musk particularmente sensível, uma vez que decisões sobre o acesso à rede podem ter consequências diretas para as capacidades de comunicação da Ucrânia.
Apesar da importância atribuída à Starlink, a relação entre o Governo ucraniano e Musk não tem sido isenta de conflitos. Uma das questões mais controversas prende-se com a utilização do sistema em operações militares contra alvos localizados em território russo.
Segundo informação citada pelo Kyiv Post, a Ucrânia tem procurado convencer Musk a permitir uma utilização mais abrangente da rede dentro da Rússia. O objetivo seria melhorar a precisão de ataques realizados com mísseis e drones contra alvos situados no interior do território russo.
Kyiv procura maior acesso à rede dentro da Rússia
A questão ganhou nova importância perante as limitações ucranianas na defesa contra os ataques russos. Sem uma quantidade suficiente de mísseis Patriot para proteger a população civil dos ataques com mísseis balísticos, a Ucrânia tem procurado atingir centros económicos e industriais associados à capacidade de guerra russa.
Neste contexto, o acesso à Starlink em território russo poderia, segundo a informação divulgada, melhorar a capacidade ucraniana para executar operações de maior profundidade.
Zelensky afirmou no sábado anterior, perante jornalistas, que Musk considera atualmente que uma autorização desse tipo representaria uma escalada do conflito, mas admitiu que o empresário poderá alterar a sua posição perante novos argumentos. “Por agora, Musk disse que isto seria uma escalada. Mas poderá mudar de opinião quando vir mais argumentos”, afirmou o Presidente ucraniano, citado pelo Kyiv Post.
A relação entre ambos permanece, assim, marcada por uma combinação de cooperação e divergências. Se, por um lado, a Starlink se tornou uma ferramenta relevante para as comunicações ucranianas, por outro, Kyiv continua a procurar obter maior margem de utilização da rede para fins militares.
Musk mantém uma relação complexa com Kyiv
O papel de Musk na guerra da Ucrânia tem sido acompanhado por sucessivas discussões sobre os limites da utilização da Starlink. O empresário tem defendido restrições à utilização do sistema em determinadas operações militares, enquanto as autoridades ucranianas procuram garantir o máximo acesso possível às ferramentas de comunicação de que dependem.
A atribuição da Ordem da Liberdade acontece, por isso, num contexto em que Kyiv continua a tentar aprofundar a cooperação com Musk e com a SpaceX, apesar das divergências relativas à utilização militar da rede.
A decisão de Zelensky reconhece formalmente o contributo atribuído ao empresário para a proteção da vida e da liberdade e para a aproximação entre os dois países, sem apagar as questões que continuam a separar as posições de Musk e das autoridades ucranianas.
A Ordem da Liberdade tem sido também atribuída a dirigentes estrangeiros que manifestaram apoio à Ucrânia. Entre os mais recentes distinguidos estão o Presidente francês, Emmanuel Macron, o primeiro-ministro britânico, Andy Burnham, e o Presidente da Lituânia, Gitanas Nausėda.
A condecoração de Elon Musk acrescenta, assim, o nome de um dos mais influentes empresários tecnológicos norte-americanos à lista de personalidades estrangeiras distinguidas pela Ucrânia, numa altura em que a Starlink continua a desempenhar um papel relevante nas comunicações do país e em que Kyiv procura convencer Musk a alargar o acesso à rede.














