Cripto, IA e apostas despejam milhões nas eleições dos EUA e batem recordes de financiamento

Fundadores e empresas estão a utilizar parte da riqueza acumulada para apoiar candidatos, influenciar as regras que irão reger os respetivos setores e contrariar propostas de maior controlo.

Executive Digest

Empresas e multimilionários ligados às criptomoedas, inteligência artificial e apostas online estão a assumir um peso sem precedentes no financiamento das eleições intercalares dos Estados Unidos de 2026, substituindo em parte setores que durante décadas dominaram a influência empresarial em Washington, como Wall Street, a indústria farmacêutica, o petróleo e os media.

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Segundo a Reuters, as empresas americanas gastaram 517 milhões de dólares nas eleições para a Câmara dos Representantes e o Senado nos 15 meses terminados no final do primeiro trimestre deste ano. O valor já supera os 461 milhões gastos por empresas durante todo o ciclo eleitoral de 2024.

E ainda falta a fase final da campanha para as eleições de 3 de novembro, numa altura em que os democratas procuram conquistar o controlo das duas câmaras do Congresso.

Cripto, tecnologia e apostas já representam 294 milhões

Dados da organização Public Citizen mostram que as empresas dos setores das criptomoedas, tecnologia e apostas online foram responsáveis por pelo menos 294 milhões de dólares do financiamento empresarial das eleições intercalares entre 1 de janeiro de 2025 e o final do primeiro trimestre deste ano.

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O crescimento deste poder financeiro coincide com uma maior pressão política para regulamentar algumas destas indústrias.

Fundadores e empresas estão a utilizar parte da riqueza acumulada para apoiar candidatos, influenciar as regras que irão reger os respetivos setores e contrariar propostas de maior controlo.

Rick Claypool, diretor de investigação da Public Citizen, considera que a dimensão do financiamento empresarial neste ciclo eleitoral não tem precedentes.

Os críticos receiam que o dinheiro permita a um pequeno grupo de interesses económicos aumentar desproporcionalmente a sua influência, levando temas como a regulamentação das criptomoedas e da inteligência artificial, as necessidades energéticas dos centros de dados ou as apostas online a ocupar espaço que poderia ser dedicado a questões como preços dos combustíveis ou saúde.

Os defensores argumentam que estes novos setores estão apenas a conquistar a influência política de que outras grandes indústrias dispõem há muito tempo.

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Super PACs permitem canalizar milhões sem limites

Grande parte deste dinheiro circula através de redes de super PACs, organizações afiliadas e entidades sem fins lucrativos em que a identidade dos financiadores nem sempre tem de ser divulgada.

A estratégia foi utilizada em larga escala pela indústria das criptomoedas nas eleições anteriores e está agora a ser reproduzida por empresas tecnológicas e plataformas de apostas.

Estes grupos podem receber quantias ilimitadas, embora não possam financiar diretamente candidatos nem coordenar a sua atuação com as campanhas. Podem, contudo, pagar publicidade, organizar ações para mobilizar eleitores e financiar eventos eleitorais.

Além das contribuições empresariais, vários executivos têm colocado milhões de dólares das próprias fortunas nas eleições.

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Elon Musk, fundador da SpaceX, já destinou mais de 90 milhões de dólares às eleições federais de 2026 e prevê aumentar significativamente esse investimento até novembro.

Sergey Brin, cofundador da Google, gastou mais de 106 milhões de dólares na Califórnia, incluindo numa campanha contra uma proposta de imposto sobre grandes fortunas.

A Meta, proprietária do Facebook e Instagram, contribuiu com 65 milhões de dólares para quatro super PACs destinados a apoiar candidatos de ambos os partidos em eleições estaduais na Califórnia, Texas, Illinois e outras regiões.

Campanhas podem movimentar 11,6 mil milhões em publicidade política

Contabilizando financiamento empresarial, multimilionários, sindicatos e organizações ligadas a diferentes causas, prevê-se um recorde de 11,6 mil milhões de dólares em publicidade política durante estas eleições intercalares.

A estimativa, da empresa AdImpact, supera os 11,2 mil milhões registados no ciclo eleitoral de 2023-2024.

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De acordo com a Reuters, alguns candidatos democratas progressistas, como James Talarico, no Texas, e Abdul El-Sayed, no Michigan, têm procurado explorar precisamente a preocupação dos eleitores com a influência do dinheiro na política.

As sondagens indicam que a maioria dos americanos considera existir demasiado dinheiro envolvido na política.

Criptomoedas criaram modelo que outros setores estão a copiar

A indústria das criptomoedas foi uma das primeiras destes novos setores a demonstrar a eficácia de uma estratégia de financiamento eleitoral sem fidelidade exclusiva a um partido.

Coinbase, Ripple e a empresa de investimento Andreessen Horowitz canalizaram grandes quantias através do super PAC Fairshake nas eleições de 2024.

Um dos objetivos foi derrotar Sherrod Brown, então senador democrata pelo Ohio e um dos mais destacados críticos do setor das criptomoedas no Congresso.

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A estratégia consistia em apoiar candidatos favoráveis às posições da indústria, independentemente de serem democratas ou republicanos, e investir contra políticos que defendessem orientações contrárias.

A Public Citizen chegou a descrever o Fairshake como uma espécie de “Estrela da Morte” empresarial devido à sua capacidade para destruir eleitoralmente candidatos individuais.

Fairshake começou 2026 com 193 milhões de dólares disponíveis e conserva aproximadamente 130 milhões para gastar até às eleições.

O financiamento provém quase totalmente da Coinbase, Ripple e Andreessen Horowitz.

Inteligência artificial entra em força nas eleições

Se em 2024 a inteligência artificial tinha uma presença reduzida no financiamento político, em 2026 a situação mudou significativamente.

Grupos apoiados por empresas de IA como OpenAI e Anthropic, ou por responsáveis destas companhias, gastaram mais de 23 milhões de dólares apenas em junho numa disputa entre dois candidatos democratas num distrito de Nova Iorque.

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Brendan Glavin, diretor da organização não partidária OpenSecrets, descreveu o episódio à Reuters como uma disputa essencialmente protagonizada por dois grupos ligados à IA, em que os próprios candidatos assumiram um papel secundário.

O super PAC Leading the Future, ligado ao debate político sobre inteligência artificial, já conseguiu angariar 140 milhões de dólares para estas eleições.

Entre os seus financiadores estão Greg Brockman, cofundador e presidente da OpenAI, e a mulher, Anna, além da Andreessen Horowitz.

A OpenAI afirmou anteriormente que não financia nem dirige as atividades do Leading the Future e que Brockman, a mulher e outros trabalhadores têm liberdade para realizar contribuições a título pessoal.

Greg e Anna Brockman contribuíram também separadamente com 25 milhões de dólares para o super PAC MAGA Inc., segundo os registos citados pela Reuters.

Anthropic também mobiliza dezenas de milhões

A Anthropic contribuiu com pelo menos 40 milhões de dólares durante este ciclo eleitoral através da organização sem fins lucrativos Public First Action, que já angariou 100 milhões.

Cerca de metade desse dinheiro destina-se às eleições através de dois PACs alinhados com a organização.

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A empresa está igualmente associada ao super PAC Public First, que angariou mais 3,9 milhões de dólares, incluindo um milhão proveniente do cofundador e presidente executivo da Anthropic, Dario Amodei.

A Anthropic mantém ainda um PAC tradicional financiado por trabalhadores, que pode fazer contribuições diretamente para campanhas.

A empresa sustenta que os fundos enviados para a organização sem fins lucrativos são usados para informar o público sobre políticas e não para apoiar ou combater candidatos específicos.

Apostas online tornam-se terceiro maior financiador empresarial

As empresas de apostas desportivas estão a seguir uma estratégia semelhante à das criptomoedas numa altura em que também enfrentam crescente escrutínio regulatório.

DraftKings, FanDuel, Fanatics e a britânica bet365 já contribuíram com mais de 72 milhões de dólares para as eleições intercalares, tornando o setor o terceiro maior financiador empresarial deste ciclo eleitoral, segundo estimativas da Public Citizen.

Grande parte destes fundos está a ser canalizada através de dois PACs afiliados, American Conservative Fund e American Future, principalmente para eleições estaduais em locais onde o setor enfrenta maior pressão regulatória.

A plataforma de mercados de previsão Polymarket contribuiu separadamente com um milhão de dólares, através da sua empresa-mãe Blockratize, para o Congressional Leadership Fund, um super PAC republicano apoiado pelo presidente da Câmara dos Representantes, Mike Johnson.

A dimensão global deste financiamento está a alterar o equilíbrio tradicional de forças económicas na política americana. Segundo a Public Citizen, um terço de todo o dinheiro empresarial gasto em eleições desde 2010 foi aplicado apenas no atual ciclo eleitoral — que ainda não chegou ao fim.

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