Por Pedro Antão Alves, CEO da Cleanwatts
Desde 2019, o setor energético criou mais de cinco milhões de novos postos de trabalho, ou seja, 2,4 por cento do total de empregos adicionados na economia mundial no mesmo período. A crescente eletrificação das nossas vidas tem contribuído para este desempenho.
A transição energética deixou de ser apenas uma promessa ambiental para se afirmar como uma das políticas económicas mais consequentes do nosso tempo e com um impacto significativo na criação de emprego. De acordo com o relatório World Energy Employment 2025, publicado pela Agência Internacional de Energia (AIE), o emprego no setor da energia cresceu 2,2% e atingiu 76 milhões de trabalhadores, em 2024. Contas feitas, é quase o dobro do ritmo de criação de emprego da economia global no seu conjunto (1,3 por cento). Se quisermos simplificar ainda mais estes números, podemos dizer que um em cada cinquenta empregos está ligado ao setor da energia, tendo como principal motor a eletrificação das nossas vidas.
Depois de anos de aceleração moderada entre 2015 e 2019, o emprego ligado ao setor elétrico disparou para um ritmo anual de quatro por cento, impulsionado pela expansão da tecnologia solar fotovoltaica. É aqui que se percebe a natureza do novo emprego: menos dependente de ciclos de preços e ancorado em investimento e execução de infraestrutura.
Não é por acaso que a maioria das novas vagas se concentrou em construção, fabrico e funções associadas ao desenvolvimento de projetos. Em 2024, por exemplo, a força de trabalho ligada ao investimento em nova infraestrutura energética cresceu 2,5 por cento.
Quanto ao futuro, a AIE lembra que a maior incerteza sobre regimes tarifários, tensões geopolíticas e fragilidades nas cadeias de abastecimento podem ter um impacto nesta onda positiva. A estimativa é que, no ano passado e em termos globais, o crescimento do emprego no setor da energia desacelere para 1,3 por cento, isto é, o valor mais baixo desde 2020 – prova de que o “ruído” tem sempre consequências. No entanto, o emprego ligado à eletricidade deve manter um crescimento de 3,4 por cento, sustentado por uma procura persistente por técnicos, engenheiros e operadores de rede.
Em Portugal, a expetativa é semelhante. O emprego neste setor deverá registar um crescimento significativo na próxima década, impulsionado pela transição energética e pela expansão das renováveis. Por outro lado, os dados mais recentes da Pordata indicam que o rendimento médio dos trabalhadores do setor da energia — onde se inclui a eletricidade — é o segundo mais elevados do país.
Por isso, a questão não é se a energia cria emprego, pois os dados mostram que sim e bem acima da média; a questão é como podemos responder, não esquecendo o contexto. No nosso país, é inquestionável a expetativa em torno dos objetivos do Plano Nacional de Energia e Clima (PNEC), que prevê um crescimento da geração descentralizada superior a outros países europeus devido ao elevado número de horas solares e à regulamentação, ambos favoráveis ao ecossistema das Comunidades de Energia.
Se encarada como uma política pública e estratégia empresarial, a eletrificação das nossas vidas é uma oportunidade e uma coisa é certa: há previsibilidade de procura e escassez de perfis profissionais. Os países que investirem em formação e requalificação ganham uma vantagem competitiva, mas também mais resiliência e soberania energética.




