Por Filipa Pinto de Carvalho, Vice-presidente da ANJE, cofundadora da AGPC, da Here Partners e da RedBridge Lisbon
A hiperconectividade prometeu aproximar-nos. O paradoxo é que, ao mesmo tempo que multiplicou as nossas ligações, tornou mais evidente a nossa necessidade de pertença. Nunca tivemos tantas formas de comunicar, tantas plataformas para interagir e tantas oportunidades para nos ligarmos a outras pessoas em qualquer parte do mundo. E, no entanto, nunca se falou tanto de solidão e falta de pertença. A explicação para este fenómeno ajuda a compreender uma das tendências mais relevantes da atualidade: a ascensão das comunidades.
Durante décadas, grande parte da nossa identidade social era construída através de estruturas relativamente estáveis. A comunidade local, a carreira para a vida, as associações profissionais, os clubes, as instituições religiosas ou mesmo as relações de vizinhança desempenhavam um papel importante na criação de laços e sentido de pertença. Muitas dessas estruturas perderam relevância ou transformaram-se profundamente. Hoje, a pertença deixou de ser automática e passou a ser uma escolha.
As pessoas procuram cada vez mais grupos onde encontram interesses comuns, desafios semelhantes ou ambições partilhadas. As comunidades deixaram de estar limitadas pela geografia e passaram a ser construídas em torno de afinidades. O que une os seus membros já não é necessariamente o local onde vivem, mas aquilo que procuram aprender ou alcançar em conjunto.
Esta transformação tornou-se ainda mais evidente com a digitalização da economia, o trabalho remoto e a crescente mobilidade internacional. Estas mudanças abriram portas a novas oportunidades profissionais e pessoais, mas também contribuíram para uma maior fragmentação das relações sociais tradicionais.
Neste contexto, as comunidades assumem uma função que vai muito além do networking ou da aprendizagem. São espaços onde se criam relações de confiança, onde existe apoio mútuo e onde as pessoas encontram validação, identidade e sentido de pertença. Ao mesmo tempo, estamos a assistir à transição da economia da atenção para a economia da confiança.
Vivemos rodeados por uma quantidade sem precedentes de informação e conteúdo. A proliferação de ferramentas de inteligência artificial e a crescente dificuldade em distinguir fontes credíveis nas redes sociais estão a gerar uma procura crescente por ambientes mais autênticos e confiáveis.
As pessoas valorizam cada vez mais grupos fechados, espaços mais curados, interações mais profundas, recomendações de pares e experiências partilhadas. A reputação construída dentro de uma comunidade passou a ter um peso significativo na forma como tomamos decisões ou escolhemos parceiros. E é precisamente por isso que as comunidades se estão a tornar motores de confiança.
As empresas também compreenderam esta mudança. A crescente aposta em programas de membros, ecossistemas colaborativos e eventos presenciais demonstra que as organizações reconhecem o valor de construir relações duradouras em vez de depender exclusivamente de campanhas de comunicação ou ações pontuais.
Os eventos, em particular, estão a assumir um papel diferente. Deixam de ser apenas momentos de promoção para se tornarem pontos de encontro que fortalecem ligações, geram colaboração e consolidam comunidades.
Mas o impacto das comunidades vai além da dimensão social ou relacional. Em muitos casos, tornam-se verdadeiras plataformas de criação de valor económico. É precisamente esta visão que está na origem da RedBridge Lisbon. O objetivo é criar uma ponte entre quem chega ao ecossistema português e a comunidade local, promovendo ligações que geram benefícios para todos. Para investidores e empreendedores internacionais, uma comunidade facilita a integração através do acesso a relações de confiança, conhecimento local e compreensão do mercado. Para fundadores e empresários portugueses, representa uma oportunidade de acesso a redes internacionais, investidores, parceiros estratégicos, conhecimento especializado e novas oportunidades de expansão. O verdadeiro valor de uma comunidade não reside apenas nas pessoas que reúne, mas sobretudo nas oportunidades que cria através das ligações entre elas.
Numa economia baseada no conhecimento, onde a inovação depende cada vez mais da circulação de ideias e da colaboração, as comunidades assumem o papel de uma infraestrutura crítica para o desenvolvimento económico. Por isso, não surpreende que estejamos também a assistir ao crescimento das microcomunidades. Em vez de pertencer a redes vastas e pouco relevantes, as pessoas procuram grupos mais pequenos e alinhados com os seus interesses e objetivos. A pertença torna-se menos quantitativa e mais qualitativa. Afinal, já não se trata apenas de estar numa rede, mas de fazer parte de uma comunidade.
No fundo, as comunidades estão a responder simultaneamente a necessidades profissionais e emocionais. São espaços onde se aprende, se colabora, se encontra apoio e se criam oportunidades. Talvez por isso estejam a emergir como uma das instituições mais importantes da economia do conhecimento.
Existe, por vezes, a ideia de que a tecnologia acabará por substituir as relações humanas. No entanto, a realidade parece apontar na direção oposta. Quanto mais digital se torna o mundo, maior é o valor das relações de confiança e mais forte se torna a necessidade de pertença. É precisamente por isso que as comunidades deixaram de ser apenas espaços de encontro. Hoje, são uma das infraestruturas mais importantes para a inovação, para o crescimento económico e para a construção de sociedades mais conectadas e colaborativas.



