Viver junto a estradas com muito trânsito pode aumentar o risco de Parkinson, alerta estudo

A exposição prolongada ao ruído do trânsito rodoviário poderá aumentar o risco de desenvolver a doença de Parkinson, segundo um novo estudo conduzido por investigadores dinamarqueses.

Pedro Zagacho Gonçalves

A exposição prolongada ao ruído do trânsito rodoviário poderá aumentar o risco de desenvolver a doença de Parkinson, segundo um novo estudo conduzido por investigadores dinamarqueses. A investigação conclui que viver durante vários anos em zonas com níveis elevados de poluição sonora está associado a uma maior probabilidade de desenvolver esta doença neurodegenerativa, ao mesmo tempo que sugere que a existência de um lado mais silencioso da habitação pode ajudar a atenuar parte desse risco.

O estudo, publicado na revista científica JAMA Neurology, analisou dados de mais de três milhões de residentes na Dinamarca entre 2000 e 2017. Os participantes tinham pelo menos 40 anos de idade e não apresentavam diagnóstico de doença de Parkinson no início da investigação. O objetivo dos investigadores foi perceber de que forma a exposição persistente ao ruído rodoviário em diferentes zonas da residência influencia o risco de desenvolver esta patologia.

Os resultados mostram que, por cada aumento de cerca de 11 decibéis (dB) no lado da habitação mais exposto ao trânsito, o risco de desenvolver a doença de Parkinson aumenta aproximadamente 3%. Já no lado mais protegido do edifício, aquele que recebe menos ruído proveniente das vias rodoviárias, o risco cresce cerca de 4% por cada aumento adicional de nove decibéis.

Contudo, a investigação identificou também um fator que parece oferecer alguma proteção. Sempre que uma habitação dispõe de um lado significativamente mais silencioso — definido pelos investigadores como uma diferença de pelo menos 10 decibéis entre as duas fachadas — esse espaço funciona como um “amortecedor” dos efeitos nocivos do ruído, sobretudo para quem vive em locais com níveis elevados de poluição sonora.

Segundo os autores, as pessoas que não dispõem de uma zona mais silenciosa ficam sujeitas a uma exposição praticamente contínua ao ruído, especialmente durante a noite, período em que os efeitos negativos podem ser mais acentuados. Os investigadores acrescentam ainda que estudos anteriores poderão ter subestimado os riscos para a saúde por se terem concentrado apenas no lado mais ruidoso das habitações, ignorando se existia um espaço onde os residentes conseguissem reduzir a exposição ao barulho.

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A análise concluiu igualmente que esta associação entre o ruído do trânsito e o risco de Parkinson se manteve consistente independentemente do sexo, do nível de escolaridade, do rendimento, da situação de coabitação ou da densidade populacional da área de residência.

Porque pode o ruído aumentar o risco?
Os investigadores consideram que existe uma explicação biologicamente plausível para esta relação. A exposição crónica ao ruído pode perturbar o sono, um processo essencial para a saúde cerebral, além de desencadear uma resposta persistente de stress em todo o organismo.

De acordo com os autores, essa exposição continuada pode ainda favorecer processos de neuroinflamação e aumentar o stress oxidativo no cérebro, particularmente nas regiões responsáveis pela produção de dopamina, um neurotransmissor cuja perda está diretamente associada ao desenvolvimento da doença de Parkinson.

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Uma doença sem cura e com impacto crescente
A doença de Parkinson é atualmente a segunda doença neurodegenerativa mais frequente em todo o mundo. Estima-se que afete mais de 11 milhões de pessoas e que esse número possa mais do que duplicar nas próximas décadas, à medida que a população envelhece e aumenta em vários países.

A doença caracteriza-se pela degeneração progressiva dos neurónios responsáveis pela produção de dopamina, provocando alterações na atividade cerebral e originando muitos dos sintomas associados à patologia. Apesar dos avanços científicos, a causa exata da doença continua por esclarecer e ainda não existe uma cura.

Fernando Alonso Frech, neurologista e investigador do HM CINAC Comprehensive Neuroscience Center, que não participou no estudo, considera que estes resultados reforçam a necessidade de identificar fatores ambientais que possam ser modificados. “Identificar fatores ambientais potencialmente modificáveis é uma prioridade em termos de saúde pública”, afirmou o especialista.

O neurologista salientou ainda que, tendo em conta o elevado número de pessoas expostas diariamente ao ruído do trânsito, o impacto deste fator poderá ser significativo para a saúde pública. Nesse contexto, defendeu que os resultados reforçam a importância de políticas destinadas a reduzir a poluição sonora nas cidades, através de medidas como um melhor planeamento urbano, instalação de barreiras acústicas, redução do tráfego em zonas residenciais e conceção de edifícios com fachadas e áreas de descanso menos expostas ao ruído.

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