“Ser polícia é um bocadinho doentio”: agentes da PSP esperam até 20 anos para voltar para casa

Lisboa continua a ser o destino de muitos agentes quando terminam a Escola Prática de Polícia, funcionando como um posto de passagem para quem pretende regressar mais tarde à sua região de origem

Francisco Laranjeira

Há agentes da PSP destacados para Lisboa que esperam até duas décadas por uma transferência que lhes permita regressar à região onde vivem as suas famílias. Pelo caminho, muitos dizem sentir-se mal pagos, desvalorizados e obrigados a manter uma vida dividida entre a capital e a terra natal, um desgaste que leva alguns a ponderar abandonar a profissão.

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A realidade é retratada por mais de uma dezena de polícias ouvidos, sob anonimato, na investigação Fronteira do Medo, do podcast Fumaça e da revista digital Divergente, citado pelo ‘Jornal de Notícias‘, que revela o impacto pessoal, familiar e financeiro de anos de serviço longe de casa.

Carlos, nome fictício, foi colocado nos arredores de Lisboa em meados dos anos 2000, a cerca de 200 quilómetros da família. Na altura acreditava que demoraria uma década a conseguir aproximar-se da região Centro. Afinal, continua à espera passados 20 anos.

“Estás 20 anos longe da família. Perdes o crescimento dos filhos, fins de ano, Natais, aniversários.”

Sem capacidade financeira para suportar o custo de um quarto em Lisboa, viveu durante anos numa camarata da PSP em Chelas, onde partilhava o quarto com sete a dez colegas, em beliches, conciliando horários e turnos rotativos.

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Um em cada cinco polícias espera por transferência

Lisboa continua a ser o destino de muitos agentes quando terminam a Escola Prática de Polícia, funcionando como um posto de passagem para quem pretende regressar mais tarde à sua região de origem.

Contudo, as vagas disponíveis são escassas e as transferências dependem sobretudo da antiguidade e das necessidades do serviço.

Dados da PSP mostram que, no final de maio, 5.139 dos 23.091 elementos da corporação aguardavam transferência, o equivalente a cerca de um quinto do efetivo.

Pela primeira vez, a polícia revelou também quanto tempo demoraram as últimas transferências autorizadas para cada comando.

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Os números mostram diferenças significativas. Em alguns destinos, como o Porto, a espera rondava os sete anos. Para Coimbra chegava aos 19 anos e, para Viseu, aos 24 anos. Em metade dos comandos, o tempo de espera ultrapassava uma década.

Marisa Dolores, agente, psicóloga e dirigente da Associação Sindical dos Profissionais da Polícia, diz que muitos colegas vivem uma verdadeira “família em part-time”.

“Temos colegas a 300 e 400 quilómetros de casa que só veem os filhos e a mulher quatro dias em cada seis.”

Salários que já não chegam

Além da distância, os polícias apontam a perda de poder de compra como outro dos grandes problemas da profissão.

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Com 15 anos de serviço, João, também nome fictício, recebia pouco mais de 1.300 euros líquidos por mês. Carlos, com mais de duas décadas de carreira, ganhava cerca de 1.440 euros.

Embora o salário médio na PSP ultrapasse atualmente os 1.600 euros mensais, a realidade é diferente para a maioria dos agentes, que representam cerca de 85% da corporação.

Segundo a investigação, um em cada cinco agentes permanece no primeiro escalão remuneratório, recebendo pouco mais de 1.100 euros.

Os entrevistados sublinham que, enquanto as rendas dispararam nos grandes centros urbanos, os salários deixaram de acompanhar esse aumento e aproximaram-se do salário mínimo nacional.

Para equilibrar as contas, muitos recorrem regularmente a serviços remunerados fora do horário normal.

Em 2024, cerca de dois terços dos polícias realizaram horas extraordinárias em eventos, superfícies comerciais ou outros serviços contratados à PSP.

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“Ser polícia é um bocadinho doentio”

A investigação dedica também especial atenção ao impacto psicológico da profissão.

Marisa Dolores considera que o desgaste vai muito além das questões financeiras. “Ser polícia é um bocadinho doentio em termos familiares, económicos e sociais.”

Os turnos rotativos, o afastamento da família, o stress permanente e a sensação de desvalorização são apontados como fatores que contribuem para níveis elevados de desgaste emocional.

Vários agentes relatam episódios de burnout e dizem que pedir ajuda continua a ser visto como um sinal de fraqueza dentro da corporação.

Um dos entrevistados admite fazer psicoterapia semanalmente, mas apenas um colega conhece essa realidade.

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“Diriam: ‘O gajo é maluquinho, é fraco da cabeça’.”

Outro descreve a ausência de acompanhamento depois de situações particularmente traumáticas.

“Vi colegas atravessarem situações muito complicadas e serem completamente negligenciados.”

Mais suicídios do que mortes em serviço

Os números revelados pela investigação ajudam a perceber a dimensão do problema. Nos últimos 25 anos, 193 elementos da PSP e da GNR morreram por suicídio, enquanto 33 perderam a vida em serviço.

Apesar destes dados, o grupo de trabalho anunciado pelo Governo em 2025 para estudar o fenómeno nunca chegou a avançar devido à queda do Executivo.

A Direção Nacional da PSP garante que o apoio à saúde mental é uma prioridade e destaca o trabalho desenvolvido pelo Departamento de Psicologia, que contava, em 2025, com 47 psicólogos e realizou mais de 22 mil reavaliações nos últimos sete anos.

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A instituição assegura ainda que está a reforçar as respostas na área do apoio psicológico, gestão do stress e prevenção do suicídio, objetivos que integram a estratégia definida até 2027.

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