Está mais irritado com o calor? A ciência explica…

À medida que as temperaturas extremas se tornam mais frequentes na Europa, os especialistas alertam que nem todas as pessoas reagem da mesma forma ao calor

Francisco Laranjeira

As vagas de calor têm efeitos conhecidos no corpo, da desidratação às queimaduras solares, mas o impacto das temperaturas extremas não fica apenas pela saúde física. O calor intenso pode também afetar a saúde mental, aumentando a irritabilidade, a ansiedade, a agressividade e até a procura de cuidados de urgência por problemas psicológicos.

À medida que as temperaturas extremas se tornam mais frequentes na Europa, os especialistas alertam que nem todas as pessoas reagem da mesma forma ao calor. Em declarações à ‘Euronews Health’, Susan Albers, psicóloga clínica na Cleveland Clinic, explicou que a investigação mostra um aumento dos níveis de agressividade, violência e agressividade ao volante nos dias mais quentes.

O desconforto físico é uma das explicações. Quando o corpo está demasiado quente, a capacidade de tolerância diminui e as reações emocionais tornam-se mais rápidas. “Quando estamos fisicamente desconfortáveis, temos menos paciência, ficamos mais irritáveis e reagimos mais depressa do ponto de vista emocional”, explicou Albers.

A psicóloga acrescenta que o cérebro também fica sob pressão. Em situações de stress térmico, parte dos recursos do organismo é desviada para tentar manter o corpo fresco, o que deixa menos margem para a concentração, o autocontrolo e a regulação emocional.

A hidratação é, por isso, uma das principais medidas de proteção. Segundo a Organização Mundial da Saúde, em períodos de calor intenso é recomendável beber líquidos regularmente, cerca de um copo de água por hora e pelo menos dois a três litros por dia.

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Quando o corpo está desidratado, perde capacidade de regular a temperatura e podem surgir sonolência, tonturas e dores de cabeça. Mas a desidratação também interfere com o funcionamento do cérebro. “Mesmo uma desidratação ligeira pode afetar as partes do cérebro responsáveis pela atenção, pela tomada de decisões e pela gestão das emoções. Pode sentir-se mais ansioso, confuso ou irritável antes mesmo de perceber que tem sede”, referiu Albers.

Entre as medidas simples para aliviar o desconforto estão beber algo fresco, procurar ambientes mais frescos e aplicar um pano frio ou uma bolsa de gelo em zonas onde os vasos sanguíneos estão mais próximos da pele, como o pescoço, os pulsos e os tornozelos. “O excesso de calor pode deixar o cérebro demasiado estimulado. Se der por si mais irritável, ansioso ou com uma sensação de sobrecarga, mude de ambiente”, recomendou a especialista.

O sono é outro fator decisivo. Durante as ondas de calor, as chamadas noites tropicais, em que a temperatura não desce abaixo dos 20 ºC, impedem muitas vezes o corpo de recuperar. Embora sejam mais comuns em climas quentes, este fenómeno tem-se tornado mais frequente também em países europeus tradicionalmente mais frios.

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É durante a noite que o organismo deveria baixar a temperatura interna, descansar o sistema cardiovascular e reduzir o stress acumulado ao longo do dia. Quando a temperatura permanece elevada, essa recuperação fica comprometida.

“Quando dormimos, a temperatura central do corpo desce, o sistema cardiovascular repousa e o stress acumulado ao longo de um dia quente começa a diminuir”, explicou Armel Castellan, conselheiro técnico para serviços em situações de calor extremo na Organização Meteorológica Mundial e na OMS.

Uma má noite de sono pode, por si só, desencadear alterações de humor e dificultar a regulação emocional. A falta de descanso aumenta a reatividade, reduz a paciência e diminui a capacidade de lidar com frustrações quotidianas.

As pessoas com perturbações de saúde mental estão entre os grupos mais vulneráveis ao calor extremo. Estudos anteriores associaram as temperaturas elevadas a efeitos imediatos e diferidos, incluindo maior risco de suicídio e agravamento de sintomas de esquizofrenia, ansiedade, depressão e perturbações relacionadas com o consumo de substâncias.

No caso da ansiedade, o calor pode criar um ciclo difícil de controlar. Sensações físicas comuns em situações de sobreaquecimento, como batimentos cardíacos acelerados, transpiração ou falta de ar, são semelhantes às manifestações da própria ansiedade. Isso pode levar algumas pessoas a interpretar o desconforto térmico como sinal de crise, intensificando ainda mais os sintomas.

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Há ainda cuidados acrescidos para quem toma medicação. Alguns antidepressivos, estimulantes, anti-histamínicos e medicamentos para a tensão arterial podem dificultar a capacidade do corpo para se arrefecer ou aumentar o risco de desidratação. Em certos casos, o calor e a desidratação podem também alterar a eficácia dos tratamentos ou aumentar a probabilidade de efeitos secundários.

Os especialistas recomendam, por isso, atenção redobrada aos sinais físicos e emocionais durante períodos de calor extremo. Irritabilidade fora do habitual, ansiedade, confusão, fadiga, dificuldade de concentração ou sensação de sobrecarga podem ser sinais de que o corpo e o cérebro estão sob pressão térmica.

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