A maioria dos cidadãos da Europa Ocidental acredita que a criminalidade está a aumentar nos seus países, mesmo quando as estatísticas apontam para uma redução significativa dos crimes ao longo das últimas décadas. A conclusão resulta de uma sondagem realizada pela YouGov em seis países europeus (Reino Unido, Dinamarca, França, Alemanha, Itália e Espanha) que revela uma diferença clara entre a perceção pública da segurança e a evolução real dos indicadores criminais.
O estudo mostra que, apesar de a confiança nas forças policiais continuar relativamente elevada na maioria dos países analisados, grande parte da população considera que a criminalidade tem vindo a crescer. A Dinamarca surge como o país onde a confiança na polícia é mais forte, com 74% dos inquiridos a afirmarem ter muita ou alguma confiança nas autoridades policiais. Em Espanha, França, Alemanha e Itália, os níveis de confiança situam-se entre os 57% e os 64%.
O Reino Unido destaca-se pela negativa. Apenas 43% dos britânicos afirmam confiar na polícia nacional, enquanto 53% dizem ter pouca confiança nas autoridades. Trata-se do valor mais baixo entre os países abrangidos pela sondagem.
Apesar desta confiança relativamente elevada nas forças de segurança, a perceção dominante é a de que o crime está a aumentar. Entre 53% dos dinamarqueses e 80% dos italianos acreditam que a criminalidade subiu nos respetivos países. No Reino Unido, 66% dos inquiridos partilham essa opinião, enquanto em França a percentagem atinge os 78%.
A mesma tendência verifica-se quando a questão incide especificamente sobre crimes violentos. Mais de metade dos participantes na Dinamarca e no Reino Unido consideram que a violência aumentou, enquanto em Itália e França essa perceção ultrapassa os três quartos dos inquiridos, atingindo respetivamente 76% e 77%.
No entanto, os dados estatísticos contam uma história bastante diferente. Embora alguns países tenham registado aumentos pontuais em determinados tipos de criminalidade violenta — muitas vezes associados ao tráfico de droga — e quase toda a Europa enfrente um crescimento das fraudes online, os níveis globais de criminalidade têm vindo a cair desde o início do século XXI.
Segundo os dados do Eurostat citados na análise, a Europa Ocidental é hoje significativamente mais segura do que era no final dos anos 80 e durante os anos 90. Os homicídios, considerados por especialistas como o indicador criminal mais fiável devido ao elevado nível de reporte, registaram uma queda acentuada nas últimas duas décadas.
Em países como França, Alemanha, Itália e Espanha, o número de homicídios diminuiu entre 30% e mais de 50% desde o final da década de 1990. Itália constitui um dos exemplos mais expressivos desta evolução. O país passou de 1.917 homicídios em 1991 para apenas 327 em 2024, apresentando atualmente uma das taxas mais baixas da União Europeia.
Também França registou uma descida substancial. Em 1995, a taxa de homicídios rondava os 2,3 por cada 100 mil habitantes. Apesar de alguns aumentos recentes terem elevado o número anual de vítimas para mais de mil pela primeira vez em duas décadas, a taxa mantém-se atualmente em cerca de 1,4 homicídios por cada 100 mil habitantes.
Especialistas explicam que a discrepância entre os dados e a perceção pública resulta, em parte, da atenção mediática dedicada a determinados fenómenos criminais. Em França, por exemplo, o aumento da violência associada ao tráfico de droga, bem como o maior número de denúncias de violência sexual e doméstica, tem dominado o espaço mediático e contribuído para a ideia de um agravamento generalizado da criminalidade, apesar da tendência global de descida.
A sondagem revela igualmente diferenças na forma como os cidadãos avaliam os problemas específicos dos respetivos países. Em França, 44% dos inquiridos consideram que a criminalidade é mais grave do que noutras nações. Na Alemanha essa perceção é partilhada por apenas 27% dos participantes e na Dinamarca por apenas 11%. Pelo contrário, 37% dos dinamarqueses acreditam que o seu país tem menos criminalidade do que os restantes.
No Reino Unido, a criminalidade com recurso a armas brancas continua a marcar fortemente a perceção pública. Cerca de 60% dos britânicos consideram que o país enfrenta um problema particularmente grave relacionado com crimes à faca, uma percentagem bastante superior à observada nos restantes países analisados. Na Alemanha, essa opinião é partilhada por 40% dos inquiridos, enquanto em França, Itália, Espanha e Dinamarca os valores oscilam entre 24% e 30%.
Já em França, o tráfico e distribuição de droga surgem como a principal preocupação. Cerca de 61% dos participantes consideram que este fenómeno é mais problemático no seu país do que no resto da Europa. Os franceses são também os que mais associam o seu país a motins e desordem pública, com 42% a identificarem esse problema como particularmente relevante, muito acima dos valores registados nos restantes países, que variam entre 7% e 21%.
A corrupção destaca-se sobretudo em Espanha e Itália. Mais de metade dos espanhóis e quase metade dos italianos acreditam que a corrupção é um problema mais grave nos respetivos países do que no resto da Europa. Na Dinamarca, apenas 7% dos inquiridos partilham essa perceção, sendo os crimes financeiros e económicos vistos como a principal ameaça.
A Itália surge ainda como o país onde a criminalidade organizada continua mais presente no imaginário coletivo. Cerca de 41% dos italianos acreditam que o país enfrenta um problema específico relacionado com organizações criminosas, como a Camorra napolitana ou a ’Ndrangheta calabresa. Nos restantes países, essa perceção varia entre 16% e 32%.
Na Alemanha, por outro lado, os cidadãos tendem a considerar que fenómenos como o tráfico de droga, a violência de gangues e o crime organizado são menos problemáticos do que noutras nações europeias.
Os resultados da sondagem evidenciam, assim, um contraste significativo entre os indicadores estatísticos e a perceção pública da segurança. Embora os dados apontem para uma Europa Ocidental substancialmente mais segura do que há três décadas, a maioria dos cidadãos continua convencida de que a criminalidade está a aumentar, alimentando um debate crescente sobre o papel da informação, da cobertura mediática e da visibilidade de determinados crimes na formação da opinião pública.













