Os aliados de Kiev estão a tentar evitar um confronto com Donald Trump na cimeira do G7, numa altura em que o presidente americano sai da crise do Irão e volta a concentrar a atenção na guerra entre a Rússia e a Ucrânia, relata o ‘POLITICO’.
Trump chegou a França sorridente, um dia depois do seu aniversário, e disse aos jornalistas que estava tudo “bem” antes de uma reunião cordial com o presidente francês, Emmanuel Macron. Mas, pouco depois, deixou claro que pretende usar a nova margem política para tentar resolver a guerra na Ucrânia, uma promessa que já tinha feito durante a campanha eleitoral de 2024, quando garantiu que acabaria com o conflito em 24 horas.
“Agora que isto terminou, vamos concentrar-nos nisso e ver se conseguimos resolver”, afirmou Trump, sentado ao lado de Macron. “Morrem 25 mil pessoas por mês, sobretudo soldados. Isso não devia acontecer.”
As palavras não tranquilizaram os principais apoiantes europeus da Ucrânia. Nos bastidores, responsáveis europeus receiam que Trump, agora menos ocupado com a gestão diária da crise do Irão, tente recuperar o controlo das negociações de paz, deixe a Europa à margem e comprometa a estratégia de pressão máxima sobre a Rússia e apoio total a Kiev.
“Ter Trump distraído não era necessariamente mau”, afirmou ao ‘POLITICO’ um diplomata da União Europeia, sob anonimato.
G7 volta a pôr a Ucrânia no centro da mesa
A forma de pôr fim à guerra na Ucrânia regressa ao centro da agenda esta terça-feira, quando Trump e os outros líderes do G7 se reunirem com Volodymyr Zelenskyy numa sessão de trabalho de duas horas.
O presidente ucraniano tem insistido publicamente que o envolvimento dos Estados Unidos continua a ser essencial para terminar a guerra. Depois de falar com Trump no domingo, Zelenskyy afirmou que os dois discutiram “boas ideias que podem ajudar a aproximar a paz”.
A Administração Trump tenta apresentar o presidente americano como a figura indispensável para chegar a um acordo. “O presidente tem um coração humanitário e quer resolver esta guerra para que as mortes sem sentido acabem”, afirmou um responsável da Administração. “O presidente e a sua equipa trabalharam muito para acabar com a guerra entre a Rússia e a Ucrânia, e continua otimista de que acabaremos por conseguir um acordo de paz.”
Mas, para os europeus, a afirmação de Trump de que talvez seja possível “fazer alguma coisa”, depois de telefonemas separados com Vladimir Putin e Zelensky, reacende o receio de voltarem a ser excluídos do processo.
Macron fez questão de marcar posição. “O tipo certo de negociação é aquele em que a Ucrânia e a Rússia estão sentadas à mesa, com os europeus e os americanos ao lado”, afirmou o presidente francês numa entrevista à TF1.
Europa quer estar à mesa, não apenas pagar a conta
A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, defendeu esta segunda-feira que o reforço do apoio financeiro à Ucrânia deve estar no topo da agenda do G7. “A Europa mantém o seu apoio inabalável à Ucrânia”, afirmou, sublinhando que os 90 mil milhões de euros disponibilizados pela União Europeia cobrem dois terços das necessidades financeiras de Kiev para este ano e o próximo.
“Para o terço restante, precisamos que os parceiros da Ucrânia avancem”, acrescentou von der Leyen. “Este será um tema nesta cimeira.”
A responsável europeia destacou também a decisão dos ministros de avançarem para a abertura de negociações formais de adesão à União Europeia com a Ucrânia e a Moldávia. “A Ucrânia cumpriu, por isso também temos de cumprir”, afirmou.
Von der Leyen anunciou ainda mais 75 milhões de euros em subvenções europeias para a Ucrânia e um empréstimo de 15 mil milhões de euros a França para reforçar a indústria de defesa no âmbito do programa SAFE da União Europeia.
Ao lado da presidente da Comissão, o presidente do Conselho Europeu, António Costa, sublinhou que a “unidade e determinação do G7 são essenciais” para terminar um conflito que já dura há mais tempo do que a Primeira Guerra Mundial.
A preocupação com Putin
Depois de ter assumido grande parte do peso do apoio à Ucrânia, a União Europeia quer agora garantir que os Estados Unidos ficam alinhados com uma posição comum em eventuais negociações futuras com a Rússia.
“O importante é que os outros países do G7, em particular os Estados Unidos, não degradem a sua posição em relação à Ucrânia”, afirmou um responsável do gabinete de Macron, citado pelo ‘POLITICO’.
Mas Trump deu motivos de preocupação antes mesmo de as conversações começarem em profundidade. No domingo, dia do seu aniversário, manteve uma longa chamada telefónica com Vladimir Putin. Depois, afirmou ter tido “uma conversa muito boa” com Zelensky e com o presidente russo.
“Acho que ambos estão muito abertos a isso”, disse Trump.
A inquietação europeia aumentou depois de Yury Ushakov, assessor presidencial de Putin, afirmar que os negociadores nomeados por Trump para a Ucrânia, Steve Witkoff e Jared Kushner, vão viajar para Moscovo em breve.
Duas perguntas deverão dominar as discussões desta terça-feira: como convencer Putin a negociar seriamente a paz e quem deve negociar em nome dos aliados da Ucrânia.
Sanções, garantias e linhas vermelhas
Do lado europeu, a União Europeia prepara-se para concluir, nas próximas semanas, o 21º pacote de sanções contra a Rússia, com medidas dirigidas à frota-sombra de petroleiros usada por Moscovo e à manutenção de um teto ao preço do petróleo russo.
Ainda assim, há poucos sinais de que os Estados Unidos estejam dispostos a seguir a mesma linha. Washington aliviou sanções energéticas contra a Rússia perante a subida dos preços globais e não há indicação clara de que queira aumentar o apoio financeiro ao esforço de guerra ucraniano.
O outro ponto sensível é quem liderará futuras negociações e qual será a abordagem. Zelensky tem insistido, em encontros recentes com líderes europeus, que a Europa deve estar à mesa não como mediadora, mas como aliada com interesses comuns.
Responsáveis europeus e ucranianos querem que o G7 ajude a alinhar os Estados Unidos com uma posição negocial forte, afastando qualquer sugestão de que Kiev deva ceder território à Rússia.
Alemanha, França e Reino Unido, o trio conhecido como E3, deram na semana passada os primeiros passos cautelosos para um contacto direto com Moscovo, enviando representantes à capital russa para conversações com o vice-ministro dos Negócios Estrangeiros, Mikhail Galuzin.
A abordagem foi prudente. Os três países reiteraram as exigências europeias de um cessar-fogo completo e imediato, garantias de segurança robustas para a Ucrânia e o uso da atual linha de contacto como ponto de partida para qualquer negociação.
O problema, para os europeus, é que Trump pode não partilhar a mesma visão sobre como as conversações devem decorrer. E pode nem sequer querer a Europa na sala.
“Parece que a única pessoa no planeta — e isso diz muito sobre o papel do presidente no palco mundial — que pode juntar os dois lados e tentar negociar o fim desta guerra é o presidente Trump”, afirmou um alto responsável da Administração americana.













