Novos testemunhos sobre o passado de Marc Ballabriga, o padrasto das duas crianças encontradas sozinhas numa zona florestal de Alcácer do Sal, revelam um historial de comportamentos considerados preocupantes pela própria família desde a juventude. As declarações foram feitas pelo tio do suspeito ao jornal francês L’Indépendant, numa altura em que o caso continua a gerar forte indignação pública.
Marc Ballabriga e a companheira, Marine, mãe dos dois menores de três e cinco anos, ficaram sujeitos à medida de coação mais gravosa, prisão preventiva, depois de terem sido constituídos arguidos por alegadamente terem abandonado as crianças numa floresta, com os olhos vendados, sob o pretexto de participarem num jogo.
Além da suspeita de abandono e colocação em perigo dos menores, Marc Ballabriga enfrenta ainda uma acusação de ofensas à integridade física agravadas contra uma das crianças.
Comportamento insólito perante a justiça
O comportamento do casal durante a chegada ao Tribunal de Setúbal chamou particularmente a atenção. Enquanto Marine saiu da carrinha a cantar, Marc dirigiu-se aos jornalistas e gritou “amo-vos”, numa atitude considerada por muitos observadores desligada da gravidade dos factos que lhes são imputados.
À medida que prosseguem as investigações, surgem agora relatos sobre o percurso pessoal de Marc Ballabriga e sobre episódios que, segundo familiares, levantaram preocupações ao longo de vários anos.
“Foi aí que os problemas começaram”
Ao jornal francês, o tio Gilles recordou que os problemas remontam à infância do sobrinho.
Segundo explicou, o pai de Marc era professor de educação física e a mãe, irmã de Gilles, tinha apenas 18 anos quando o filho nasceu. Após a separação dos pais, Marc mudou-se com a mãe para a região de Aude, no sul de França, onde cresceu junto da restante família.
“Foi aí que os problemas começaram”, relatou Gilles.
O familiar descreve uma infância marcada por dificuldades comportamentais e uma adolescência particularmente complicada.
“Na escola era impossível de controlar. E, na adolescência, por volta dos 15 anos, criou-nos problemas enormes. Tornou-se insuportável. Na família, toda a gente tinha medo dele”, afirmou.
Perante os problemas vividos em casa, a entrada de Marc na Gendarmaria francesa foi inicialmente vista como uma oportunidade para alterar o rumo da sua vida.
“Pensámos: é o exército, vai ganhar disciplina, podemos respirar de alívio”, recordou o tio.
Contudo, os laços familiares acabaram por se deteriorar progressivamente.
Durante esse período, Marc integrou uma unidade de intervenção da Gendarmaria, iniciou uma relação amorosa e teve uma filha. Porém, segundo o relato do tio, essa relação terminou de forma conturbada.
Marc Ballabriga acabaria por ser condenado por violência doméstica e por ameaças de morte repetidas dirigidas à ex-companheira.
Publicações nas redes sociais revelavam conflitos com a justiça
Nas redes sociais, Marc alegava ter sido alvo de perseguição e assédio por parte das autoridades judiciais.
De acordo com essas publicações, afirmava ter estado preso “duas vezes em 2017 e 2020” e ter sido internado “três vezes em hospitais psiquiátricos em 2020, 2021 e 2022”.
Essas referências surgem agora sob renovado escrutínio, numa altura em que também têm sido divulgadas informações sobre alegadas perturbações psiquiátricas do suspeito.
Relatos de delírios e comportamentos estranhos
O último reencontro entre Gilles e o sobrinho ocorreu em 2021, quando Marc procurou restabelecer contacto com a família.
Segundo o tio, a tentativa rapidamente se transformou numa experiência perturbadora.
“[Marc] queria reaproximar-se da família e pensámos que podíamos tentar, mas ele dizia coisas completamente delirantes”, recordou.
Entre os episódios descritos, Gilles contou que o sobrinho falava frequentemente sobre o fim do mundo e protagonizou situações consideradas desconcertantes.
“Colocou as mãos sobre a cabeça do avô e disse-lhe: ‘estou a dar-te uma aura espiritual, vais viver até aos 200 anos’. Também dizia que conseguia olhar diretamente para o sol porque este não lhe queimava os olhos”, relatou.
“Era o diabo em pessoa”
O encontro terminou de forma tensa, levando a família a procurar formas de afastar Marc da habitação.
Segundo Gilles, foi necessário recorrer à força para o fazer sair.
“Tínhamos dificuldade em fechar a porta. Era forte, violento, completamente louco. Era o diabo em pessoa. Foi a última vez que o vimos”, declarou.
O tio revelou ainda que, nesse mesmo dia, Marc terá tentado agredir fisicamente a própria irmã.
Após esse episódio, a família decidiu apresentar uma participação às autoridades.
“Apresentámos queixa na Gendarmaria. Dissemos: ‘atenção, ele é perigoso!’. Mas a queixa foi arquivada”, afirmou Gilles.
O familiar admite que durante algum tempo acreditou que parte da agressividade do sobrinho pudesse resultar de um sentimento de exclusão dentro do núcleo familiar.
Contudo, com o passar dos anos, mudou de opinião.
“Pensei que se sentia excluído da família e que havia uma enorme raiva dentro dele”, explicou.
Ainda assim, concluiu que o problema era mais profundo.
“Estava zangado com toda a gente, não apenas com os familiares”, afirmou.




