A Comissão Europeia advertiu esta terça-feira que os projetos turísticos de luxo associados a Ivanka Trump e ao marido, Jared Kushner, poderão colocar em causa o processo de adesão da Albânia à União Europeia caso as autoridades albanesas não garantam o cumprimento das normas ambientais europeias.
O aviso de Bruxelas surge numa altura em que aumenta a controvérsia em torno de dois grandes empreendimentos turísticos previstos para áreas ambientalmente sensíveis do país balcânico, que têm desencadeado protestos populares e motivado uma investigação das autoridades anticorrupção albanesas.
Segundo o porta-voz da Comissão Europeia, Guillaume Mercier, o executivo comunitário está a acompanhar de perto a evolução da situação na paisagem protegida de Vjosa-Narta. Bruxelas já transmitiu ao ministro do Ambiente da Albânia as suas preocupações relativamente a possíveis falhas associadas ao projeto.
De acordo com Mercier, o responsável governamental albanês comprometeu-se perante a Comissão Europeia a suspender os trabalhos e a realizar uma avaliação de impacto ambiental, processo que deverá decorrer em consulta com organizações da sociedade civil.
Apesar dessas garantias, o primeiro-ministro albanês, Edi Rama, tem defendido publicamente a continuação do projeto, reiterando em várias ocasiões a sua intenção de avançar com os investimentos previstos.
Exigências de Bruxelas para a adesão à UE
A Comissão Europeia recordou que a Albânia terá de cumprir integralmente a legislação comunitária em matéria ambiental para concluir o capítulo 27 das negociações de adesão à União Europeia, dedicado às áreas do ambiente e das alterações climáticas.
Bruxelas sublinhou que Tirana deverá alinhar-se plenamente com as diretivas europeias relativas à proteção das aves e dos habitats naturais, além de pôr termo ao regime de investimentos estratégicos criado em 2015.
Nesse contexto, a Comissão foi clara ao afirmar que a Albânia deve evitar qualquer decisão que possa comprometer o cumprimento dos critérios necessários para encerrar este capítulo das negociações.
Dois projetos multimilionários no centro da polémica
A controvérsia envolve dois empreendimentos distintos.
O primeiro prevê a construção de um resort de luxo na ilha de Sazan, uma antiga base militar da era comunista localizada ao largo da costa albanesa. O investimento está avaliado em cerca de 1,4 mil milhões de euros. Para viabilizar o projeto, o Governo albanês atribuiu em 2024 o estatuto de investidor estratégico à Affinity Partners, empresa de investimento fundada por Jared Kushner.
O segundo empreendimento, ainda mais ambicioso, está projetado para os sapais protegidos de Vjosa-Narta, perto de Zvernec. O valor estimado ultrapassa os quatro mil milhões de euros. Segundo as informações divulgadas, os promotores seriam os irmãos Al-Khayyat, parceiros cataris de Kushner.
Investigação anticorrupção e contestação popular
A dimensão e localização dos projetos levaram a Procuradoria Especial Anticorrupção da Albânia a abrir uma investigação relacionada com a transferência de títulos de propriedade que permitiram o avanço do desenvolvimento turístico previsto para a zona de Vjosa-Narta.
Paralelamente, os empreendimentos desencadearam várias semanas de manifestações em Tirana e noutras cidades albanesas. Sob o lema “A Albânia não está à venda”, milhares de pessoas têm contestado os projetos, considerando que representam uma ameaça para o património ambiental do país.
Os protestos intensificaram-se após confrontos registados a 31 de maio em Zvernec entre manifestantes e elementos de empresas privadas de segurança.
Caso recorda polémica semelhante na Sérvia
Esta não é a primeira vez que um projeto imobiliário ligado a Jared Kushner provoca controvérsia nos Balcãs. Na Sérvia, um plano de desenvolvimento semelhante em Belgrado gerou forte contestação pública e acabou por conduzir à apresentação de acusações criminais contra um ministro do Governo sérvio por alegado abuso de funções.
Esse processo acabaria por culminar no afastamento de Kushner do projeto, num episódio que continua a ser frequentemente citado pelos críticos dos atuais investimentos previstos para a Albânia.
Agora, com a adesão albanesa à União Europeia em jogo, Bruxelas coloca a proteção ambiental no centro do debate e deixa claro que o futuro destes empreendimentos poderá ter implicações que vão muito além do setor turístico.













