Já alguém pensou nisso?

Opinião de Luís Gil, membro conselheiro e especialista em Energia da Ordem dos Engenheiros

Executive Digest

Todos os dias ouvimos falar agora em gigafábricas, gigadata centers, gigainstalações… giga isto… giga aquilo! E também, infelizmente, todos os dias vamos ouvindo falar em guerras, desde as que têm sobretudo implicações regionais até às que têm repercussões a nível global. E onde cruzam estas duas realidades, dirão os leitores? Na vulnerabilidade destas giga qualquer coisas!

Chegam-nos notícias sobre a destruição de infraestruturas, nomeadamente energéticas, no Irão, nos países do Golfo Pérsico, na Ucrânia e, recentemente cada vez com maior impacto, na Rússia. E nem os mais sofisticados sistemas de proteção conseguem impedir uma destruição assinalável.

Para alcançar a transição energética, têm os vários países, de uma forma mais ou menos generalizada, apostado na produção renovável de energia. Para isso se têm massificado instalações, cada vez maiores, devido aos ganhos de escala, nomeadamente a nível do solar fotovoltaico e do eólico. O mesmo se tem passado em Portugal.

Mas, a promoção e instalação destes investimentos, que contam, naturalmente, com muitos fatores para o seu desenvolvimento, quer a nível dos investidores, quer a nível dos avaliadores e decisores políticos, entrarão em linha de conta com a possibilidade de eclosão de uma guerra?

A produção renovável exposta seria facilmente destruída e, provavelmente, sem serem necessários meios bélicos muito sofisticados. Pensemos, apenas a título de exemplo, no parque solar Solara4 em Alcoutim com mais de 660 mil painéis ou na central fotovoltaica Fernando Pessoa em Santiago do Cacém que cobrirá cerca de 1000 hectares. O que fariam meia dúzia de bombas de fragmentação lançadas sobre esse mar de painéis? Ou drones baratos com explosivos contra as naceles das torres eólicas dos mais de 200 parques eólicos nacionais? Ou até as barragens expostas à mercê de um bombardeamento?

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Dada a instabilidade geopolítica mundial e a possibilidade de uma guerra alargada na Europa, parece que será sensato colocar na equação da instalação de futuras infraestruturas energéticas e até pensar na adaptação das atuais, o fator da segurança não apenas operacional mas também relacionada com a possibilidade de ataque externo. E, nesse caso, porque não ter o apoio de militares especialistas, no projeto das instalações e na definição dos cadernos de encargo e na avaliação dos projetos?

Tendo tudo isto em mente, as ações relacionadas a desenvolver deveriam passar também a ter que considerar aspetos que tivessem em consideração esta parcela da segurança energética. Apenas como exemplo, abordo em seguida, muito sucintamente, alguns dos assuntos que seria de interesse considerar:
– enterramento das linhas de transporte (ou de transmissão) de eletricidade à semelhança do que foi proposto para as zonas de maior risco de incêndio ou de acidentes naturais;
– enterramento dos pipelines de transporte e depósitos de armazenamento de combustíveis líquidos e gasosos;
– aposta na produção de energia renovável através de sistemas que sejam mais difíceis de ficar expostos em caso de guerra;
– descentralização da produção e utilização de unidades de produção de menor dimensão a funcionar em rede (regressando ao conceito small is beautiful);
– estudar e projetar sistemas de proteção das instalações energéticas críticas;
– fazer uma maior aposta na produção de combustíveis renováveis evitando dependência externa;
– data centers submersos, que são instalações de servidores alojadas em cilindros vedados e submersas no fundo do oceano/lago em locais dificilmente acessíveis, que são, ao mesmo tempo, energeticamente mais eficientes;
– etc. etc.

A resiliência energética é da maior importância. Senão vejamos quais os alvos preferenciais nas atuais guerras a decorrer. Temos que aprender com isso. E é em tempo de paz que se prepara a guerra. Preparando-nos para o pior mas esperando o melhor!

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Serão necessários investimentos que é necessário precaver. Que podem até ser gastos em soluções que poderão nunca a vir ser necessárias. Mas, neste caso, isso será algo que desejamos! Vale mais prevenir do que remediar…

Já alguém pensou nisso?

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