Guerra no Médio Oriente está a dividir os mercados e investidores já temem novo choque energético. Especialista diz que mercados vivem “duas realidades”

O prolongamento da guerra no Irão e o fecho contínuo do Estreito de Ormuz estão a aprofundar a divergência entre os mercados acionistas e obrigacionistas, numa altura em que os investidores tentam avaliar o impacto da crise energética na inflação e nas decisões dos bancos centrais.

André Manuel Mendes

O prolongamento da guerra no Irão e o fecho contínuo do Estreito de Ormuz estão a aprofundar a divergência entre os mercados acionistas e obrigacionistas, numa altura em que os investidores tentam avaliar o impacto da crise energética na inflação e nas decisões dos bancos centrais.

O alerta é deixado por Thomas Hempell, responsável de análise macro e de mercados da Generali Investments. Na análise, o especialista sublinha que, apesar de a guerra no Irão já ter entrado no terceiro mês, os mercados acionistas globais continuam a recuperar em “V”, impulsionados sobretudo pelas tecnológicas norte-americanas e pelo setor dos semicondutores. Em sentido contrário, as obrigações permanecem pressionadas devido ao receio de inflação persistente e à expectativa de taxas de juro mais elevadas.

Segundo Thomas Hempell, o principal fator de risco continua a ser o Estreito de Ormuz, que permanece encerrado apesar do cessar-fogo em vigor. Ainda assim, a Generali AM acredita que existe uma “boa probabilidade” de reabertura negociada nas próximas semanas, o que poderá aliviar a pressão sobre os preços da energia e favorecer uma recuperação adicional das bolsas, em especial na Europa.

A gestora considera, no entanto, que os mercados estão a exagerar nas expectativas sobre a reação dos bancos centrais. Enquanto os investidores antecipam três subidas de juros pelo Banco Central Europeu, a Generali AM prevê apenas uma subida “preventiva”, defendendo que o atual choque energético dificilmente desencadeará uma espiral salários-preços semelhante à de 2022.

“A inflação impulsionada pela energia e pelos alimentos deverá ser temporária”, refere o analista, acrescentando que os mercados laborais estão hoje menos pressionados e que os bancos centrais partem de uma posição monetária mais neutra do que há quatro anos.

Continue a ler após a publicidade

Do ponto de vista económico, a gestora alerta que os efeitos do bloqueio começam a acumular-se, sobretudo na Europa e em algumas economias emergentes asiáticas. A previsão de crescimento da Zona Euro para 2026 foi revista em baixa em 0,6 pontos percentuais, para 0,8%, enquanto a projeção de crescimento global caiu para 2,8%.

Apesar dos riscos, a Generali AM mantém um viés pró-risco nas carteiras, embora recomende coberturas de curto prazo. As ações europeias são vistas como uma oportunidade caso haja uma rápida desescalada do conflito e reabertura do Estreito de Ormuz, enquanto o crédito continua atrativo devido ao retorno proporcionado pelas yields.

Por outro lado, um colapso das negociações ou um prolongamento do fecho do estreito poderá provocar um choque energético mais severo, cenário em que a gestora aconselha uma maior exposição a liquidez e obrigações indexadas à inflação.

Continue a ler após a publicidade
Partilhar

Edição Impressa

Assinar

Newsletter

Subscreva e receba todas as novidades.

A sua informação está protegida. Leia a nossa política de privacidade.