Cerca de 150 passageiros do navio de cruzeiro MV Hondius continuam isolados ao largo da Praia, capital de Cabo Verde, depois de um surto de hantavírus a bordo ter provocado três mortes e várias infeções. O que começou como uma expedição de aventura rumo a algumas das ilhas mais remotas do planeta — com promessas de encontros com baleias, golfinhos e pinguins, além de paisagens de gelo, falésias abruptas e colinas verdejantes — transformou-se numa espera incerta em pleno Atlântico, com os passageiros confinados às cabines e sujeitos a medidas rigorosas de prevenção sanitária.
Segundo a CNN Internacional, o navio permanece ancorado ao largo da costa enquanto as autoridades de saúde acompanham a situação, mantendo os passageiros a bordo até nova decisão. O surto de hantavírus — infeção que pode causar fadiga, febre e, em casos graves, falência de órgãos e morte — já vitimou três pessoas. Outros três passageiros serão transferidos para os Países Baixos, enquanto os restantes aguardam instruções, num cenário marcado por prudência e contenção.
Entre os relatos partilhados nas redes sociais, multiplicam-se imagens do horizonte de Cabo Verde vistas do convés, sem possibilidade de desembarque.
O vlogger de viagens Kasem Hato publicou vídeos em que aponta para terra e explica, em árabe: “O que conseguem ver à nossa frente ali é o país de Cabo Verde, mas não nos é permitido desembarcar lá”. Apesar do contexto, garante que “a maioria das pessoas no navio está a lidar com a situação de forma muito calma” e desvaloriza receios de propagação mais ampla: “Este vírus não é novo no mundo. Se fosse para se tornar uma epidemia, já teria acontecido há muito tempo”. Hato acrescentou ainda: “Sentimo-nos todos muito tristes por aqueles que morreram, pois partilhámos com eles uma viagem maravilhosa, e enviamos as nossas condolências às suas famílias”.
Também Jake Rosmarin relatou que, à exceção dos doentes, “todos os outros a bordo estão bem e mantêm o bom humor”, destacando o esforço da tripulação para assegurar segurança e conforto. “Estou a sentir-me bem, a apanhar algum ar fresco e a continuar a ser bem alimentado e cuidado pela tripulação a bordo”, escreveu no Instagram. “A tentar apenas focar-me no lado positivo, pensar nas coisas boas e manter um sorriso no rosto.”
A bordo, a rotina foi profundamente alterada. Os passageiros usam máscaras, cumprem distanciamento social e podem optar por receber as refeições nas cabines. São permitidas caminhadas solitárias no convés para respirar ar fresco, mas as áreas comuns permanecem interditas a ajuntamentos. Recursos médicos e suprimentos adicionais foram levados para o navio, enquanto a tripulação procede à desinfeção regular dos espaços.
A Organização Mundial da Saúde, através de Maria Van Kerkhove, diretora interina de gestão de epidemias e pandemias, indicou que, embora se suspeite de transmissão entre humanos, esta terá ocorrido apenas entre contactos muito próximos, como casais ou pessoas envolvidas em cuidados médicos, sendo o risco para o público em geral considerado muito baixo.
Dois dos passageiros falecidos eram um casal; entre os doentes a transferir encontra-se uma pessoa “associada” ao terceiro morto e também um médico. Até que seja autorizado o desembarque, a vida no MV Hondius continuará a desenrolar-se entre máscaras, filmes, leitura e a tentativa de manter a serenidade em pleno isolamento no Atlântico.














