Isolamento, máscaras, caminhadas e filmes… e calma: Assim são os dias de quem está a bordo do cruzeiro com surto de hantavírus

Cerca de 150 passageiros do navio de cruzeiro MV Hondius continuam isolados ao largo da Praia, capital de Cabo Verde, depois de um surto de hantavírus a bordo ter provocado três mortes e várias infeções.

Pedro Zagacho Gonçalves

Cerca de 150 passageiros do navio de cruzeiro MV Hondius continuam isolados ao largo da Praia, capital de Cabo Verde, depois de um surto de hantavírus a bordo ter provocado três mortes e várias infeções. O que começou como uma expedição de aventura rumo a algumas das ilhas mais remotas do planeta — com promessas de encontros com baleias, golfinhos e pinguins, além de paisagens de gelo, falésias abruptas e colinas verdejantes — transformou-se numa espera incerta em pleno Atlântico, com os passageiros confinados às cabines e sujeitos a medidas rigorosas de prevenção sanitária.

Segundo a CNN Internacional, o navio permanece ancorado ao largo da costa enquanto as autoridades de saúde acompanham a situação, mantendo os passageiros a bordo até nova decisão. O surto de hantavírus — infeção que pode causar fadiga, febre e, em casos graves, falência de órgãos e morte — já vitimou três pessoas. Outros três passageiros serão transferidos para os Países Baixos, enquanto os restantes aguardam instruções, num cenário marcado por prudência e contenção.

Entre os relatos partilhados nas redes sociais, multiplicam-se imagens do horizonte de Cabo Verde vistas do convés, sem possibilidade de desembarque.

O vlogger de viagens Kasem Hato publicou vídeos em que aponta para terra e explica, em árabe: “O que conseguem ver à nossa frente ali é o país de Cabo Verde, mas não nos é permitido desembarcar lá”. Apesar do contexto, garante que “a maioria das pessoas no navio está a lidar com a situação de forma muito calma” e desvaloriza receios de propagação mais ampla: “Este vírus não é novo no mundo. Se fosse para se tornar uma epidemia, já teria acontecido há muito tempo”. Hato acrescentou ainda: “Sentimo-nos todos muito tristes por aqueles que morreram, pois partilhámos com eles uma viagem maravilhosa, e enviamos as nossas condolências às suas famílias”.

Também Jake Rosmarin relatou que, à exceção dos doentes, “todos os outros a bordo estão bem e mantêm o bom humor”, destacando o esforço da tripulação para assegurar segurança e conforto. “Estou a sentir-me bem, a apanhar algum ar fresco e a continuar a ser bem alimentado e cuidado pela tripulação a bordo”, escreveu no Instagram. “A tentar apenas focar-me no lado positivo, pensar nas coisas boas e manter um sorriso no rosto.”

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A bordo, a rotina foi profundamente alterada. Os passageiros usam máscaras, cumprem distanciamento social e podem optar por receber as refeições nas cabines. São permitidas caminhadas solitárias no convés para respirar ar fresco, mas as áreas comuns permanecem interditas a ajuntamentos. Recursos médicos e suprimentos adicionais foram levados para o navio, enquanto a tripulação procede à desinfeção regular dos espaços.

A Organização Mundial da Saúde, através de Maria Van Kerkhove, diretora interina de gestão de epidemias e pandemias, indicou que, embora se suspeite de transmissão entre humanos, esta terá ocorrido apenas entre contactos muito próximos, como casais ou pessoas envolvidas em cuidados médicos, sendo o risco para o público em geral considerado muito baixo.

Dois dos passageiros falecidos eram um casal; entre os doentes a transferir encontra-se uma pessoa “associada” ao terceiro morto e também um médico. Até que seja autorizado o desembarque, a vida no MV Hondius continuará a desenrolar-se entre máscaras, filmes, leitura e a tentativa de manter a serenidade em pleno isolamento no Atlântico.

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