Hantavírus obriga OMS a preparar plano inédito para desembarque de 150 passageiros do ‘MV Hondius’

Navio deverá chegar a terra este domingo, numa operação que está a obrigar as autoridades de saúde a desenhar protocolos para uma situação sem precedentes

Francisco Laranjeira

A Organização Mundial de Saúde está a preparar orientações específicas para o desembarque dos quase 150 passageiros de um navio de cruzeiro atingido por um surto de hantavírus e que segue agora em direção a Tenerife, escreve a ‘Reuters’.

O navio deverá chegar a terra este domingo, numa operação que está a obrigar as autoridades de saúde a desenhar protocolos para uma situação sem precedentes.

Segundo a agência, este é o primeiro surto de hantavírus alguma vez registado num navio de cruzeiro.

Até agora, há três mortes entre pelo menos oito casos suspeitos ou confirmados de infeção.

A operadora do navio garante que nenhum dos passageiros atualmente a bordo apresenta sintomas.

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Passageiros divididos por níveis de risco

A OMS está a trabalhar em orientações passo a passo para definir o que deverá acontecer aos passageiros quando desembarcarem.

A prioridade passa por adaptar medidas clássicas de saúde pública, como isolamento de pessoas doentes, quarentena de contactos próximos e rastreio de todos os que possam ter sido expostos ao vírus.

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De acordo com a Organização Mundial de Saúde, os passageiros estão a ser divididos em grupos de alto e baixo risco, consoante as interações que tiveram com viajantes infetados.

O rastreio de contactos será também essencial para localizar pessoas que já deixaram o navio.

Lições da Argentina

As autoridades estão a procurar orientação na experiência da Argentina, onde um surto anterior do vírus dos Andes, a mesma estirpe identificada no navio, foi controlado em 2019.

“Se seguirmos as medidas de saúde pública e as lições que aprendemos com a Argentina, podemos quebrar esta cadeia de transmissão. Isto não tem de se tornar uma grande epidemia”, afirmou Abdi Rahman Mahamud, diretor do departamento de coordenação de alerta e resposta da OMS.

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O responsável explicou que o foco está no isolamento das pessoas doentes e na monitorização e eventual quarentena de outros passageiros, sempre dependente das decisões das autoridades nacionais.

O vírus andino é uma forma de hantavírus conhecida por poder transmitir-se entre pessoas através de contacto próximo e prolongado, sobretudo quando o doente já apresenta sintomas.

Essa informação resulta sobretudo do surto registado na Argentina em 2018 e 2019, no qual foram identificadas 34 infeções e 11 mortes.

“Medidas simples” ajudaram a travar surto anterior

Gustavo Palacios, professor da Escola de Medicina Icahn do Monte Sinai, nos Estados Unidos, e coautor de um estudo importante sobre o surto argentino, explicou que medidas básicas de saúde pública foram decisivas para travar a transmissão.

“Aprendemos que, ao implementar medidas básicas de distanciamento social, muito simples, como ficar em casa quando não se está a sentir bem, a circulação diminuiu e o surto extinguiu-se”, afirmou.

Palacios tem estado a aconselhar a OMS sobre este surto desde 2 de maio.

O especialista espera que o caso aumente a atenção internacional para os riscos dos hantavírus, que podem ter taxas de mortalidade elevadas, chegando em alguns casos aos 50%.

Reino Unido prepara repatriamento

Alguns Governos já começaram a preparar medidas para os seus cidadãos.

O Reino Unido anunciou esta sexta-feira que pretende repatriar os seus nacionais num voo sujeito a regras rigorosas de controlo de infeção.

Depois da chegada, os passageiros deverão cumprir isolamento durante 45 dias, com testes sempre que necessário.

Krutika Kuppalli, professora associada de Medicina no Centro Médico da Universidade do Texas Southwestern e antiga responsável por protocolos de mpox na OMS, defende que o princípio de atuação é semelhante ao usado noutros surtos.

“É o mesmo princípio do sarampo ou do Ébola. O rastreio de contactos não muda”, explicou.

A OMS indicou na noite desta quinta-feira que as orientações ainda estavam a ser finalizadas.

A chegada do navio a Tenerife será agora o primeiro grande teste à capacidade das autoridades para conter um surto raro, num contexto particularmente sensível: um cruzeiro, passageiros de várias nacionalidades e uma doença para a qual nunca tinham sido desenhados protocolos específicos em alto-mar.

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