Desde pequeno – e tenho 59 anos – que o nome Datsun e depois Nissan tem para mim um valor enquanto marca bastante grande. O meupai escolheu o primeiro Datsun 1200 branco e o seu amigo um igual e no mesmo dia, verde. Quando chegaram calhou ao meu pai … o verde.
Fez uns ‘modestos’ 300.000 km, na altura não havia cintos de segurança traseiros e creio que os bancos da frente nem apoio de cabeça tinham. Foi vendido para um emigrante que o usava para ir e vir para a Suíça. Fazia as revisões e levava gasolina. Sempre sem problemas. Da ultima vez tinha no seu pequeno motor a gasolina cerca de 570.000 kms.
A Nissan tem para mim esse mesmo posicionamento – fiabilidade e rigor japonês.
O Nissan Micra alvo deste ensaio teve várias gerações mas sem grande sucesso comercial, mesmo tendo um bom produto. Mas desta vez a situação muda radicalmente fruto também da aliança onde está inserido com a Renault e Mitsubishi. Este ADN franco-japonês e muita ambição tecnológica faz deste citadino elétrico, com uma identidade própria muito grande, atuar num segmento B cada vez mais exigente e, agora com uma versão elétrica.
Não é um sedan, nem um SUV, mas um hatchback urbano com uma proposta clara de mobilidade elétrica acessível mas sobretudo sofisticada. É um facto, e não é um defeito, mas uma constatação; partilha a base técnica com o Renault. Mas a missão do Micra passa por se afirmar com um produto distinto pensado para um público que valoriza um design menos retro, uma condução intuitiva e uma tecnologia fácil de utilizar, sem contudo abdicar da autonomia realista e uma eficiência urbana.
O desenho foi efetuado no Nissan Design Europe em Londres para ser não um automóvel global mas assumidamente desenhado para o gosto europeu.
É difícil não gostar do Nissan Micra pelas suas linhas arredondadas, pelas óticas circulares à frente e atrás e por uma postura visual muito musculada; diria quase um mini-crossover.
As JLL de 18 polegadas passaram a ser um standard o que não é muito normal no segmento. No fundo, ele quer trazer menos nostalgia, mas mais contemporaneidade ao veículo. Assenta como disse na plataforma AmpR Small desenvolvida pela aliança e é produzido em França com tração dianteira mas apresenta algo de interessante que é a suspensão traseira multibraços – raro no segmento e que traz um comportamento bastante preciso e confortável.
Existem duas baterias de 40kwh (122 cv) e outra de 52 kWh (com 150cv – a testada). E permite fazer 300 km em circuito misto, sem qualquer preocupação. Em autoestrada, sem qualquer carregamento devo conseguir fazer cerca de 240 km.
A arquitetura dela é de 400 volts e o que podemos dizer em termos de condução não difere muito do Renault com uma resposta imediata, boa aderência, tração dianteira, direção leve, precisa e fundamentalmente urbana mas sem perder precisão e peso em autoestrada.
O centro de gravidade baixo ajuda-o a ter um comportamento muito estável com um comportamento previsível e sólido, mesmo em piso irregular.
Possui vários modos de condução – eu usei o Eco (até aos 115 km/h) e o Confort e, mesmo assim, podemos fazer ajustamentos em termos de regeneração nas patilhas atrás do volante, mas a experiência de condução acaba por ser muito fluida.
Certamente não é um automóvel desportivo, mas é coeso e silencioso, bem afinado para o condutor europeu.
Em termos do interior a marca colocou um pouco da sua filosofia com acabamentos específicos, ecrãs que vão até às 10.1 polegadas, o sistema de infotainment Nissan, com o Google integrado, e depois algumas referências subtis à cultura japonesa.
Em termos da qualidade dos materiais é consistente, não tem ambições premium, mas de facto está acima da média do segmento com algumas zonas do tablier forradas a pele sintética. Os bancos são confortáveis e ergonómicos. A posição de condução é boa. O espaço traseiro é justo para adultos, mas isso faz parte da vida, ou seja, não podemos exigir num automóvel pequeno ter espaço interior bastante grande.
Em termos de tecnologia, apresenta o Google Maps nativo, o assistente Google por voz e faz uma gestão inteligente das rotas; possui as atualizações OTA e usa o sistema ProPILOT com processamento preditivo, sem inteligência artificial generativa mas inteligência artificial funcional aplicada à eficiência, à segurança e usabilidade, que é exatamente aquilo que o consumidor mais valoriza.
Em termos de público alvo trata-se de um público urbano bastante informado, profissionais que variam entre os 30 e os 55 anos, casais ou pequenos agregados e muitas vezes aquele comprador que não quer ter um automóvel elétrico da moda.
O Nissan distingue-se muito pela boa relação preço/equipamento, simplicidade de utilização e pela imagem muito agradável. Em termos de preços, começa nos €26.000 e vai até aos €34.000 na versão topo de gama.
Em resumo trata-se de um elétrico urbano, honesto, tecnologicamente maduro, muito europeu não quer ser revolucionário com o mérito em fazer tudo bem, sem ruído sem exageros e com uma clareza rara no mercado elétrico.

















