Herdeira ou escudo humano contra ataques de Trump? A estratégia que Kim Jong-un tem para a filha

A mais recente edição do Congresso do Partido dos Trabalhadores da Coreia, evento quinquenal que decorreu este mês em Pyongyang, ficou marcada não apenas pela habitual exibição de poderio militar, mas também por sinais políticos que voltaram a lançar dúvidas sobre a sucessão no regime norte-coreano.

Pedro Zagacho Gonçalves

A mais recente edição do Congresso do Partido dos Trabalhadores da Coreia, evento quinquenal que decorreu este mês em Pyongyang, ficou marcada não apenas pela habitual exibição de poderio militar, mas também por sinais políticos que voltaram a lançar dúvidas sobre a sucessão no regime norte-coreano.

O líder do país, Kim Jong-un, aproveitou a ocasião para sugerir uma eventual aproximação diplomática aos Estados Unidos, afirmando que poderia “dar-se bem” com Donald Trump caso Washington reconhecesse oficialmente a Coreia do Norte como potência nuclear. A declaração foi interpretada por vários analistas como uma tentativa de aliviar o isolamento internacional sem abdicar do programa de armamento estratégico.

Contudo, para além da retórica nuclear, o congresso trouxe novamente para o centro da discussão o futuro da liderança do regime — e, em particular, o papel da filha de Kim, Kim Ju-ae.

Sucessão sob suspeita num regime profundamente patriarcal
A presença cada vez mais frequente de Kim Ju-ae em eventos oficiais tem alimentado especulações de que poderá estar a ser preparada como sucessora. A jovem, que terá cerca de 13 anos, acompanha o pai desde 2022 em testes de mísseis, desfiles militares e cerimónias de grande simbolismo político.

No entanto, a hipótese de uma mulher assumir o topo do regime enfrenta obstáculos estruturais. Num artigo citado pelo The Guardian, o analista Mitch Shin descreve a Coreia do Norte como funcionando “mais como uma monarquia neoconfuciana do que como um Estado socialista”, sublinhando que o caráter profundamente patriarcal do sistema pode dificultar a aceitação de uma líder feminina.

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Shin argumenta que “a barreira mais imediata e intransponível é a natureza patriarcal profundamente enraizada da Coreia do Norte” e acrescenta que, para a elite militar envelhecida, a ideia de jurar lealdade absoluta “de vida ou de morte” a uma jovem mulher constitui “uma anomalia estrutural que ameaça a lógica interna do regime”.

Essa resistência potencial poderá emergir sobretudo entre a alta hierarquia militar, tradicionalmente central na sustentação do poder da dinastia Kim.

Filha como possível “escudo humano”
Alguns analistas admitem uma leitura alternativa: a crescente exposição pública de Kim Ju-ae poderia servir para proteger a identidade de um eventual herdeiro masculino. Segundo esta perspetiva, Kim Jong-un estaria a utilizar a filha como uma espécie de “escudo humano”, desviando atenções do que seria o verdadeiro sucessor — um alegado filho mais velho cuja existência circula há anos em meios diplomáticos.

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A inteligência sul-coreana indicou, em 2023, que o líder norte-coreano poderá ter um filho varão e um terceiro descendente cujo género não é conhecido publicamente. Ainda assim, especialistas como Lee Sung-Yoon, investigador do Instituto Sejong, em Seul, recordam que Kim nunca confirmou perante interlocutores estrangeiros a existência de um filho homem.

Por outro lado, há quem sustente que o fator determinante poderá não ser o género, mas sim a chamada “linha de sangue do Monte Paektu”, símbolo máximo de legitimidade da dinastia Kim. Nesse contexto, a descendência direta poderia prevalecer sobre barreiras culturais.

Construção de imagem e simbolismo político
Para Shreyas Reddy, correspondente da NK News, o protagonismo de Kim Ju-ae poderá ter uma dimensão “mais reformativa do que política”. O analista destaca a forma como os meios de comunicação estatais retratam a relação afetuosa entre pai e filha, sugerindo que a estratégia poderá visar a construção de uma imagem de Kim Jong-un como “figura paterna amorosa para toda a nação”.

Também os símbolos visuais parecem cuidadosamente calculados. O analista Lim Eul-chul sublinha que até as escolhas de vestuário — como as jaquetas de couro usadas por ambos durante o congresso — transportam significado político. Na iconografia norte-coreana, esse estilo está associado ao líder enquanto garante da segurança nacional, pelo que replicá-lo na filha dificilmente será acidental.

O congresso, que oficialmente serve para celebrar conquistas e definir objetivos estratégicos, funcionou novamente como palco de exibição do arsenal nuclear norte-coreano. Apesar do gesto de abertura diplomática em relação a Trump, não há sinais de que Pyongyang esteja disposta a abdicar do estatuto nuclear que considera central para a sua sobrevivência.

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Entre sinais de possível aproximação internacional e um enigma sucessório cuidadosamente encenado, a Coreia do Norte mantém-se fiel à sua tradição de opacidade. Se Kim Ju-ae é herdeira designada ou peça de uma estratégia mais complexa, permanece uma questão em aberto — num regime onde a dinastia, o simbolismo e o controlo político continuam indissociáveis.

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