“Dilúvio” no sul da Europa ameaça abastecimento e eleva risco de subida dos preços dos alimentos

A vaga de chuvas intensas e inundações que atinge o sul da Europa e o norte de África está a comprometer as principais regiões agrícolas que abastecem o continente durante o inverno, colocando em risco o fornecimento de frutas e legumes.

Pedro Gonçalves

A vaga de chuvas intensas e inundações que atinge o sul da Europa e o norte de África está a comprometer as principais regiões agrícolas que abastecem o continente durante o inverno, colocando em risco o fornecimento de frutas e legumes e reacendendo preocupações quanto a uma nova escalada dos preços alimentares.

Espanha, Portugal, Marrocos e partes de Itália e Grécia funcionam tradicionalmente como a “despensa” de inverno da Europa. Quando a produção interna dos países do norte diminui, estas regiões exportam tomates, pepinos, abacates, pimentos, frutos vermelhos e citrinos para os principais mercados europeus.



No entanto, os danos extensos nas culturas e nas infraestruturas agrícolas nas últimas semanas poderão rapidamente repercutir-se nos mercados grossistas e nas cadeias de abastecimento dos supermercados, alertam economistas.

“Quando temos o tipo de inundações que estamos a ver na Europa e no norte de África, combinadas com um inverno muito húmido no Reino Unido… não há forma de evitar: veremos pressão sobre os preços das frutas e legumes”, afirmou David Barmes, investigador de políticas no Centro de Experiência em Transição Económica da London School of Economics.

Espanha, que registou o janeiro mais chuvoso dos últimos 25 anos, já contabiliza danos em 22 mil hectares de terras agrícolas, segundo a associação seguradora Agroseguro. O ministro da Agricultura espanhol, Luis Planas, indicou que a área afetada poderá praticamente duplicar quando as avaliações estiverem concluídas.

Os estragos não se limitam às plantações. Sistemas de rega, maquinaria agrícola e caminhos rurais foram também severamente afetados, dificultando a colheita e a distribuição mesmo nas explorações onde parte da produção sobreviveu.

No oeste de França, algumas zonas agrícolas enfrentaram mais de 36 dias consecutivos de chuva. As sucessivas tempestades provocaram o transbordo dos rios Garona e partes do Loire, inundando pomares e vinhas.

Concentração da oferta aumenta vulnerabilidade
A forte concentração da oferta europeia de frutas e legumes de inverno em poucas regiões torna os mercados particularmente sensíveis a choques climáticos.

Em janeiro do ano passado, Espanha representou mais de 70% das importações de pimentos doces do Reino Unido e 65% das importações de pepinos. Marrocos forneceu mais de um terço das importações britânicas de morangos e framboesas, segundo dados comerciais do Reino Unido.

“O maior impacto, e provavelmente o mais imediato, [das recentes condições meteorológicas] é nos produtos frescos de Espanha e Marrocos”, declarou Tom Lancaster, da Unidade de Inteligência Energética e Climática, um centro de estudos sediado no Reino Unido. “Se a oferta diminuir, os compradores poderão ser obrigados a competir por volumes mais reduzidos”, acrescentou. “Também poderá haver impacto na qualidade: fruta danificada por chuvas intensas não é transportada nem armazenada tão bem.”

Nos Países Baixos, entre 35% e 40% dos legumes frescos importados provêm de Espanha, Marrocos e Portugal. Em janeiro e fevereiro, estes três países asseguram igualmente entre 15% e 20% das importações de fruta fresca neerlandesas, segundo o banco ING.

Na Andaluzia, uma das principais regiões agrícolas espanholas, a associação Asaja estima que 20% da produção total se perdeu. Apenas na província de Córdoba, as perdas ascendem a 700 milhões de euros, dos quais 550 milhões correspondem a olivais, além dos prejuízos registados em cereais e citrinos.

Na semana passada, o presidente do Governo espanhol, Pedro Sánchez, visitou Huétor Tájar, no oeste de Granada, uma das localidades mais afetadas. O presidente da câmara, Fernando Delgado, explicou que 80% da população depende direta ou indiretamente da produção de espargos. Com a colheita prevista para começar dentro de semanas, até um terço da produção permanece submersa.

Thijs Geijer, economista sénior de alimentação e agricultura do ING, indicou que o mau tempo na Andaluzia e noutras regiões produtoras do sul da Europa já provocou aumentos homólogos nos preços. Segundo o economista, os consumidores deverão encontrar menos descontos nos supermercados. Ainda assim, considera que o impacto na inflação neerlandesa poderá ser limitado, dado que os produtos afetados têm um peso reduzido no índice de preços ao consumidor.

Perturbações climáticas e inflação estrutural
Para David Barmes, os acontecimentos recentes inserem-se num padrão mais amplo de perturbações climáticas que alimentam a inflação alimentar.

A sua investigação indica que a diferença recente entre a inflação alimentar no Reino Unido e na zona euro foi impulsionada por um pequeno número de produtos sensíveis ao clima, como o chocolate e o azeite. Alguns destes produtos têm um peso significativamente maior no cabaz de consumo britânico, tornando os consumidores do Reino Unido mais vulneráveis a fenómenos meteorológicos extremos.

“Na minha opinião, não há dúvida de que veremos pressão sobre os preços dos alimentos mais para o final do ano, embora parte dela seja de curto prazo”, afirmou Barmes. “É muito difícil substituir certos produtos do cabaz de legumes de inverno, especialmente os provenientes de Espanha e Marrocos, pelo que veremos esse impacto muito em breve e, mais tarde, provavelmente também efeitos na fruta, carne, lacticínios e azeite.”

Bancos centrais atentos ao clima
Os bancos centrais começaram já a reconhecer o impacto dos fenómenos meteorológicos extremos na dinâmica da inflação. No relatório de política monetária de agosto de 2025, o Banco de Inglaterra referiu que as perturbações climáticas estavam a contribuir para o aumento dos preços alimentares no Reino Unido, dificultando o regresso da inflação ao objetivo de 2%.

Os governos prometeram apoiar os agricultores afetados através do acionamento de seguros e de fundos de reserva da União Europeia associados à Política Agrícola Comum.

Espanha comprometeu-se a conceder 2,2 mil milhões de euros em ajudas diretas aos agricultores e a investir 600 milhões de euros na reconstrução de infraestruturas.

Ainda assim, os economistas alertam que o problema é estrutural. “Creio que estamos a ver que isto não é um acontecimento isolado”, afirmou Barmes. “Este tipo de interrupções no abastecimento relacionadas com o clima está a tornar-se mais frequente, mais grave e mais geograficamente disseminado.”

A conjugação de choques climáticos sucessivos, forte dependência regional e mercados altamente integrados poderá, assim, transformar o atual “dilúvio” num novo fator de pressão persistente sobre os preços dos alimentos na Europa ao longo de 2026.

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