Os diferentes níveis de contacto entre membros de várias famílias reais europeias e o bilionário pedófilo Jeffrey Epstein voltaram a colocar diversas monarquias sob forte pressão pública e institucional, escreve o ‘El País’.
A detenção, esta quinta-feira, do ex-príncipe André, terceiro filho da rainha Isabel II e irmão do rei Carlos III, abalou o tradicional princípio britânico de “nunca reclamar, nunca explicar”, obrigando a Casa Real a enfrentar diretamente o escrutínio judicial e mediático.
No Reino Unido, André já tinha sido afastado da vida pública e despojado de títulos, mas a nova fase do processo implica explicações formais perante as autoridades. A crise atinge o núcleo da instituição num momento sensível para Carlos III, que procura consolidar a sua imagem enquanto monarca.
Também na Noruega a situação é delicada. A princesa Mette-Marit, esposa do príncipe herdeiro Haakon, surge milhares de vezes nos arquivos associados a Epstein e já pediu desculpa publicamente em duas ocasiões. Admitiu ter mantido contacto com o financeiro entre 2011 e 2013, alegando desconhecer os crimes pelos quais este fora condenado em 2008. Mais recentemente, dirigiu uma nota formal de desculpas aos reis Harald e Sonja.
O historiador neerlandês Gerard Aalders defende, em declarações ao ‘El País’, que “a única forma de conter esta situação é retirar os membros envolvidos do núcleo da instituição”. O especialista recorda a saída do rei emérito Juan Carlos I para Abu Dhabi como exemplo de controlo de danos em Espanha, sublinhando que o distanciamento promovido por Felipe VI foi determinante para preservar a estabilidade da monarquia espanhola.
No caso britânico, Aalders considera que pouco mais poderá ser feito além do afastamento institucional de André, a menos que haja uma alteração constitucional que coloque em causa a própria monarquia — cenário que classifica como improvável devido à dificuldade de alcançar consenso alargado.
Uma sondagem da Ipsos realizada no Reino Unido entre 31 de outubro e 3 de novembro de 2025, período em que Carlos III iniciou formalmente o processo de destituição do irmão, indica que 90% dos britânicos consideraram a decisão correta. Cerca de 77% tinham uma opinião negativa sobre André, mas 47% entendiam que abolir a monarquia não seria benéfico para o país.
Na Noruega, a situação torna-se ainda mais complexa devido à posição institucional de Mette-Marit enquanto futura rainha consorte. Paralelamente, o julgamento de Marius Borg Høiby, filho da princesa antes do casamento com Haakon, acusado de dezenas de crimes, incluindo violação e abuso, também afetou a imagem da instituição. Ainda assim, dados recentes indicam que o apoio à monarquia permanece sólido: 141 dos 169 deputados do Parlamento norueguês votaram este ano a favor da sua manutenção.
Na Bélgica, o príncipe Laurent, irmão do rei Filipe, também surge em documentos ligados a Epstein. O próprio afirmou que o financeiro pretendia aproximar-se da família real para apresentar os seus pais a círculos de bilionários, garantindo que recusou qualquer iniciativa nesse sentido.
Para Aalders, o maior desafio das monarquias é manter uma conduta exemplar que sustente a confiança pública, preservando a dignidade institucional e mantendo-se acima das disputas partidárias. Contudo, os escândalos reacendem debates sensíveis, como o financiamento público e o regime fiscal aplicado às casas reais. Nos Países Baixos, por exemplo, o rei paga impostos sobre bens privados, mas não sobre rendimentos atribuídos pelo Estado, tema que continua a gerar controvérsia parlamentar.
Segundo o ‘El País’, a estratégia de contenção passa, numa primeira fase, por pedidos públicos de desculpa e, numa segunda, por um distanciamento claro por parte dos monarcas reinantes e herdeiros. No Reino Unido, Carlos III declarou que “a justiça deve seguir o seu curso”, enquanto os príncipes William e Catherine manifestaram preocupação com as vítimas e reforçaram a equipa de comunicação com especialistas em gestão de crise.
Num momento de forte escrutínio mediático e político, as monarquias europeias enfrentam assim um teste decisivo à sua capacidade de preservar legitimidade, transparência e apoio popular.




