O ministro da Defesa da Bélgica, Theo Francken, criticou publicamente vários líderes europeus por, no seu entender, falarem em excesso sobre dissuasão nuclear, num momento em que o debate sobre a segurança europeia se intensifica.
De acordo com o jornal ‘POLITICO’, numa publicação na rede social X, Francken reagiu a declarações do chanceler alemão, Friedrich Merz, feitas num podcast. “Em relação à dissuasão nuclear, realmente não entendo por que os líderes europeus são tão desinformados. Não é sensato. Por favor, mantenham a boca fechada”, escreveu o governante belga.
O que está em causa?
Na entrevista, Merz afastou a hipótese de a Alemanha desenvolver um programa nacional de dissuasão nuclear. No entanto, admitiu que os caças alemães poderiam, em teoria, transportar armas nucleares francesas ou britânicas.
Alemanha e Bélgica integram atualmente o acordo de partilha nuclear da NATO com os Estados Unidos, que permite que forças aéreas europeias transportem bombas nucleares norte-americanas sob determinadas condições. Este modelo assenta na dissuasão alargada garantida por Washington.
As declarações surgem num contexto de crescente incerteza estratégica, com vários responsáveis europeus a discutirem a necessidade de reforçar a autonomia defensiva do continente, incluindo no domínio nuclear.
Macron prepara discurso sobre papel nuclear francês
O debate ganhou nova dimensão antes de um discurso do presidente francês, Emmanuel Macron, previsto para 2 de março, no qual deverá abordar o papel das armas nucleares francesas na segurança europeia.
A França é o único Estado-membro da União Europeia com arsenal nuclear próprio, o que tem alimentado discussões sobre uma eventual “dissuasão nuclear europeia” mais estruturada, especialmente num cenário de dúvidas sobre o compromisso futuro dos EUA com a segurança do continente.
Impacto no programa FCAS
Theo Francken aproveitou ainda para comentar declarações de Merz sobre o Future Combat Air System (FCAS), projeto conjunto de caça de sexta geração desenvolvido por Alemanha, França e Espanha.
Segundo o ministro belga, as palavras do chanceler alemão equivaleriam a uma “sentença de morte” para o programa. “O FCAS está morto, segundo a chanceler alemã neste podcast. Não haverá um caça de sexta geração franco-alemão. A Bélgica era observadora no programa. Vamos reavaliar a nossa posição”, afirmou.
O FCAS é visto como um dos pilares da cooperação industrial e estratégica europeia no setor da defesa. Uma eventual fragilização do projeto poderá ter impacto na ambição europeia de maior autonomia militar.
As declarações cruzadas refletem a tensão crescente em torno da política de defesa europeia, num momento em que o continente enfrenta um ambiente de segurança mais instável. A questão nuclear, tradicionalmente tratada com prudência diplomática, está agora no centro do debate público — algo que, para o ministro belga, deve ser evitado.













