O primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, voltou a defender o que chama de “migração voluntária” dos palestinianos da Faixa de Gaza, uma proposta que, segundo várias fontes ouvidas pela agência Associated Press, passa agora por transferir até dois milhões de pessoas para o Sudão do Sul.
A iniciativa, que Netanyahu considera essencial para a segurança de Israel, surge em paralelo com negociações indiretas sobre uma trégua temporária entre Israel e o Hamas.
De acordo com informações citadas pela Associated Press, altos funcionários israelitas e representantes do governo sul-sudanês têm mantido contactos exploratórios. Ambos os lados negam publicamente a existência dessas conversações e não há, até ao momento, qualquer acordo formalizado.
Ainda assim, Joe Szlavik, fundador de uma firma de lobby norte-americana que colabora com o Sudão do Sul, confirmou que uma delegação israelita planeia deslocar-se em breve ao país africano para avaliar a viabilidade e os custos de eventuais campos de reassentamento. A mesma informação foi corroborada por Edmund Yakani, diretor de uma organização da sociedade civil local, que admitiu ter discutido o assunto com autoridades nacionais. Outros quatro responsáveis sul-sudaneses confirmaram igualmente a existência de conversas preliminares.
Segundo as primeiras informações, o plano de Telavive seria financiar a criação de campos destinados a albergar palestinianos deslocados.
Reações internacionais
A proposta foi rejeitada de imediato por líderes palestinianos e por várias organizações internacionais, que classificaram a ideia como uma “expulsão forçada”, comparando-a à Nakba de 1948, quando centenas de milhares de palestinianos foram expulsos das suas terras.
“Não há nada de voluntário quando se torna Gaza invivível”, denunciou Omar Shakir, diretor da Human Rights Watch para Israel e Palestina. Também Francesca Albanese, relatora especial das Nações Unidas, foi categórica: qualquer deslocamento populacional desta natureza seria “ilegal, imoral e irresponsável”.
O Sudão do Sul, que conquistou a independência em 2011, continua mergulhado numa das piores crises humanitárias do continente africano. Entre 2013 e 2020 viveu uma guerra civil que matou cerca de 400 mil pessoas e obrigou milhões a fugir. Atualmente, enfrenta instabilidade política, insegurança alimentar, um surto de cólera e mais de 2,3 milhões de refugiados dentro do seu território.
“Sem dinheiro, o país precisa de aliados, apoio financeiro e segurança diplomática”, explicou à Al Jazeera o jornalista especializado Peter Martell.
Segundo várias fontes, por detrás da eventual abertura às conversações está também o interesse de Juba em garantir o apoio de Israel para que os Estados Unidos, sob a administração de Donald Trump, levantem restrições de vistos e sanções aplicadas a figuras políticas locais, entre as quais o atual vice-presidente Benjamin Bol Me.
“Sudão do Sul não deve tornar-se num depósito de pessoas nem aceitar gente como moeda de troca”, alertou Edmund Yakani, da organização Community Empowerment for Progress.
Oposição egípcia
Do lado do Egito, dois responsáveis confirmaram ter conhecimento das diligências israelitas para encontrar países disponíveis a receber palestinianos, incluindo o Sudão do Sul. O Cairo, porém, tem pressionado Juba a rejeitar a proposta e continua a opor-se a qualquer plano de transferência populacional.
O receio egípcio prende-se com a possibilidade de um fluxo massivo de refugiados para o seu território, caso se abra a porta a deslocações forçadas. Atualmente, o controlo da passagem de Rafah, principal ponto de saída de Gaza, está nas mãos do exército israelita, que decide quem pode ou não atravessar.
Netanyahu insiste em “migração voluntária”
Netanyahu tem defendido desde antes do ataque do Hamas, em 7 de outubro de 2023, que a solução para Gaza passa por transferir “tantos palestinianos quanto possível” para outros países. Vários ministros do seu governo, como Bezalel Smotrich, têm assumido publicamente a defesa dessa posição.
Numa entrevista recente, Netanyahu chegou mesmo a admitir o conceito de “Grande Israel”, que pressupõe o controlo de extensas áreas dos países vizinhos.
Enquanto isso, Israel mantém a exigência de libertação total e incondicional de todos os reféns israelitas antes de considerar qualquer cessar-fogo permanente, apesar de o Hamas já ter aceitado uma proposta de trégua de 60 dias mediada por Egito e Catar.













