Sentidos aumentados, visão noturna e IA integrada: Cientistas antecipam que os humanos terão “superpoderes” até 2030

Até 2030, avanços tecnológicos acelerados poderão transformar radicalmente a vida humana, oferecendo capacidades outrora reservadas à ficção científica, como força sobre-humana, sentidos melhorados e até uma nova relação entre o corpo e a máquina.

Pedro Gonçalves

Até 2030, avanços tecnológicos acelerados poderão transformar radicalmente a vida humana, oferecendo capacidades outrora reservadas à ficção científica, como força sobre-humana, sentidos melhorados e até uma nova relação entre o corpo e a máquina.

De acordo com investigadores e futuristas como Ray Kurzweil, antigo engenheiro da Google, esta será uma década marcada por tecnologias capazes de fundir homem e máquina, trazendo consigo uma nova era de capacidades físicas e cognitivas.



Robôs vestíveis — conhecidos como exoesqueletos — estão entre os primeiros exemplos destas tecnologias emergentes. Estas estruturas mecânicas poderão, em breve, permitir que qualquer pessoa levante objectos pesados com facilidade.

Nos Estados Unidos, a empresa Sarcos Robotics já demonstrou um exoesqueleto com uma proporção de “ganho de força” de 20 para um, permitindo a um utilizador normal carregar pesos até 200 libras (cerca de 90 kg) durante longos períodos. Este fato robótico levou 17 anos e 175 milhões de dólares a ser desenvolvido.

Também a empresa alemã German Bionic está a desenvolver exoesqueletos como o modelo ‘Exia’, que incorpora inteligência artificial (IA) para aprender os movimentos do utilizador, ajudando-o a levantar grandes pesos sem fadiga. Estes exoesqueletos já estão a ser utilizados em hospitais na Alemanha.

Tais dispositivos poderão, nos próximos anos, ser adoptados em sectores como a indústria e o exército, oferecendo força e resistência sobre-humanas a trabalhadores e soldados.

Outro avanço promissor refere-se à utilização de nanorrobôs — minúsculos dispositivos capazes de circular no sistema sanguíneo para reparar tecidos danificados e combater doenças como o cancro.

Kurzweil prevê que até 2029 a inteligência artificial atingirá um nível “super-humano”, permitindo avanços tecnológicos ainda mais rápidos. No seu mais recente livro, The Singularity is Nearer, o futurista antecipa que, logo após 2029, a vida humana sofrerá uma transformação radical, com bens essenciais a tornarem-se mais acessíveis e os humanos a começarem a fundir-se com a tecnologia através de interfaces cérebro-computador, como o projecto Neuralink de Elon Musk.

Entre essas inovações estarão precisamente os nanorrobôs, que, segundo Kurzweil, poderão manter os corpos humanos saudáveis de forma constante, sem necessidade de vigilância médica regular.

Visão de Super Homem
A visão também poderá ser melhorada por novas tecnologias. Cientistas chineses da Universidade de Ciência e Tecnologia da China desenvolveram recentemente lentes de contacto capazes de ver no escuro, através da deteção de luz infravermelha — algo que até agora exigia o uso de volumosos óculos de visão noturna.

O professor Tian Xue, responsável pelo projecto, afirmou esperar que este trabalho inspire futuros desenvolvimentos em lentes de contacto com “super visão”, capazes de projectar informações digitais directamente no campo de visão do utilizador e aumentar distâncias visuais.

Segundo os especialistas, estes dispositivos poderão chegar ao mercado ainda nesta década.

Sentidos aumentados e “tocar” o digital
Para além da visão, os sentidos humanos poderão ser aumentados com novas tecnologias sensoriais. Investigadores da empresa sueca Ericsson preveem que, até 2030, pulseiras digitais permitirão aos utilizadores “sentir” objectos digitais, criando novas formas de interacção com o mundo virtual.

Alguns criadores e auto-denominados “ciborgues” já testaram protótipos de dispositivos semelhantes. O transhumanista Liviu Babitz, por exemplo, desenvolveu o ‘Northsense’, um sensor corporal que lhe permite detectar o norte magnético.

Outro caso é o de Manel Munoz, fundador da Trans Species Society, que implantou duas “barbatanas” na cabeça, capazes de captar dados meteorológicos e transmiti-los como som através da condução óssea — permitindo-lhe, nas suas palavras, “ouvir o tempo” como o som de bolhas.

Inteligência artificial vestível e “supercognição”
A fusão entre IA, realidade aumentada e ‘wearables’ (acessórios e tecnologia vestível) poderá ainda conferir às pessoas capacidades cognitivas ampliadas. Dispositivos como auscultadores e óculos inteligentes com IA integrada poderão, em breve, fornecer informações instantâneas e respostas em tempo real.

Empresas como a Meta já estão a integrar IA em óculos Ray-Ban, enquanto a Google desenvolve um sistema operativo para experiências de realidade aumentada e virtual (XR).

O cientista informático Louis Rosenberg defende que estas capacidades resultarão da convergência entre IA, realidade aumentada e tecnologias de computação conversacional.

“Estas capacidades serão libertadas por agentes de IA sensíveis ao contexto, integrados em dispositivos vestíveis que vêem o que vemos, ouvem o que ouvimos e vivem o que vivemos, proporcionando-nos uma maior capacidade de perceber e interpretar o mundo”, explicou Rosenberg.

“No futuro próximo, chamarei a esta tendência mentalidade aumentada, e prevejo que até 2030 a maioria de nós viverá com agentes de IA contextuais que nos oferecerão verdadeiros ‘superpoderes’ digitais no dia a dia”, acrescentou.

Ética e privacidade: desafios em aberto
Embora muitos destes projectos estejam em desenvolvimento ou já em fase experimental, ainda enfrentam significativos desafios técnicos e éticos. Questões relacionadas com segurança, privacidade, desigualdade de acesso e os limites entre homem e máquina continuam em debate.

Apesar disso, futuristas como Kurzweil acreditam que o caminho está traçado. “A trajectória é clara”, declarou o autor, sublinhando que inovações como os nanorrobôs e as interfaces cérebro-computador tornarão obsoletos muitos limites biológicos.

Se as previsões se confirmarem, nos próximos cinco anos poderemos assistir ao nascimento de um novo ser humano — um híbrido tecnológico, dotado de uma força, inteligência e percepção até hoje inatingíveis.

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