Os trabalhadores da agência noticiosa Lusa realizam esta quinta-feira uma greve parcial entre as 10 e as 14 horas, em protesto contra o processo de reestruturação da empresa e o novo modelo de governação aprovado pelo Governo. A paralisação foi convocada por várias estruturas sindicais e surge num momento de forte contestação interna às mudanças introduzidas nos estatutos da agência.
Num comunicado divulgado pelo Sindicato dos Jornalistas, citado pela Lusa, o presidente da direção da estrutura sindical, Luís Filipe Simões, afirma que a greve representa um gesto de repúdio pela forma como o processo foi conduzido e pelo que considera ser um modelo de governação “pouco transparente e sem ter em conta a opinião de quem todos os dias garante o funcionamento da agência”.
Os trabalhadores contestam os novos estatutos da empresa, publicados a 28 de janeiro, defendendo que as alterações podem colidir com os princípios de proteção da independência jornalística consagrados na Constituição portuguesa e com normas previstas no Regulamento Europeu da Liberdade dos Meios de Comunicação Social.
Entre as principais preocupações está também a possibilidade de um plano de rescisões sem que tenha sido apresentada uma estratégia clara de reforço de equipas no território nacional e nas delegações internacionais. A nota sindical refere ainda que a eventual transferência da sede da Lusa para o edifício da RTP poderá levantar dúvidas sobre a independência funcional da agência.
A greve foi convocada conjuntamente pelo Sindicato dos Jornalistas, pelo Sindicato dos Trabalhadores das Indústrias Transformadoras, Energia e Atividades do Ambiente do Centro-Sul e Regiões Autónomas (SITE-CSRA) e pelo Sindicato dos Trabalhadores do Setor de Serviços (SITESE), abrangendo todos os trabalhadores da Lusa, independentemente do vínculo contratual ou local de trabalho.
Protestos já vinham de semanas anteriores
A contestação interna na agência intensificou-se nas últimas semanas. Os trabalhadores tinham aprovado, a 19 de fevereiro, uma resolução em plenário em defesa da independência editorial da Lusa e contra eventuais ingerências externas na atividade jornalística.
Dias depois, a 26 de fevereiro, realizaram também concentrações junto às instalações da empresa em Lisboa e no Porto, na sequência de novas reuniões plenárias dedicadas ao tema.
Governo defende estatutos da agência
Do lado do Governo, o ministro da Presidência tem defendido as alterações introduzidas nos estatutos da agência. O jornal Público noticiou que António Leitão Amaro justificou a nova arquitetura institucional afirmando que o objetivo é evitar que a agência noticiosa possa ficar “nas mãos de um novo Sócrates”.
O ministro garantiu ainda não ter qualquer intenção de alterar a estrutura regulatória dos media nem de interferir nos cargos editoriais, defendendo que o Estado deve apenas assegurar os meios necessários para o funcionamento do sistema de comunicação social.
O debate sobre o futuro da Lusa, considerada uma infraestrutura essencial do sistema mediático português, continua assim a dividir trabalhadores e Governo, num momento em que a agência atravessa um processo de reorganização interna que tem levantado preocupações sobre a preservação da sua independência editorial.




