Em Portugal, podem faltar camas, ventiladores e até médicos para todos os doentes e dois milhões de alunos podem ser mandados para casa.
O presidente da Associação Nacional de Infeção Hospitalar, Lúcio Meneses de Almeida, admitiu à “Sábado” que «ou há um investimento muito forte em termos de recursos e meios, sem constrangimentos orçamentais, ou a propagação não será travada».
No Hospital de Santa Maria, por exemplo, não foram só as máscaras que começaram a faltar. Os dispensadores para desinfectar as mãos, que existiam por todo o hospital, desapareceram. No início do mês, quando o vírus ainda não tinha chegado a Portugal, doentes, visitas e até funcionários esgotaram o stock não só nos hospitais, mas também em vários centros de saúde. «Antigamente, à porta dos blocos havia aqueles dispensadores com máscaras, agora temos de as pedir à enfermeira», conta à “Sábado”o obstreta Alexandre Valentim Lourenço. Mais: as encomendas que estão a ser feitas não chegam sequer para uma semana.
«Nem Portugal, nem a Europa estavam preparados para isto», entende o antigo ministro da Saúde, Fernando Leal da Costa. Para o ex-governante, a falta de recursos é um dos principais problemas que existe no SNS, pois não fomos capazes de «formar médicos a contar com aposentações e também não temos médicos internistas e intensivistas suficientes».
«O desinvestimento no SNS tem vindo a acontecer nos últimos anos e continuam a fechar serviços por todo o país por falta de pessoal. Além das grávidas, que continuam a circular pelas maternidades de Lisboa», alerta Jorge Roque da Cunha, do Sindicato Independente dos Médicos.
Para o médico de Saúde Pública Lúcio Meneses de Almeida, o Plano de Contingência nacional (de 80 páginas), que foi conhecido na segunda-feira, ao fim do dia, chegou tarde. «Começou-se a construir a casa pelo telhado», considera, sustentando que a estratégia devia ter começado a ser delineada em Dezembro, quando o vírus apareceu na China.
Já o presidente da Secção Regional Sul da Ordem dos Médicos alerta que, se os casos dispararem e muitos doentes precisarem de receber cuidados intensivos, provavelmente algo vai falhar: «Se cada um destes casos confirmados infectar três pessoas, daqui a uma semana teremos 300 a 400. Entre 40 a 50 graves, o nosso sistema responde bem, agora quatro mil não consigo responder».
Ao que a “Sábado” apurou, está previsto, num despacho do Diário da República, que está só à espera de ser publicado, um reforço dos medicamentos, dispositivos médicos e equipamento de protecção individual de 20%. Da lista constam, sobretudo, antibióticos de largo espectro e outros medicamentos usados no tratamento, por exemplo, da gripe, assim como máscaras e kits para os testes rápidos de despiste do coronavírus. Também está a ser estudada a desmarcação de consultas e exames não urgentes.
Jorge Roque da Cunha diz que ninguém está preparado para uma pandemia. «É um cenário de guerra e de exaustão», diz, alertando que, no pior dos cenários pode haver uma ruptura total dos serviços, bens essenciais em falta e insegurança na população. «Se os profissionais de saúde e as forças de segurança forem afectados há uma disrupção de serviços. (…) É um cenário limite para o qual nenhum país está preparado.»
Por sua vez, o antigo ministro da Saúde, Fernando Leal da Costa, considera que «ainda estamos a tempo de controlar o pico e impedir que a epidemia seja catastrófica».
Fonte oficial do Ministério das Finanças garantiu à “Sábado”: «O Ministério das Finanças tem mantido contactos regulares com o Ministério da Saúde e com os restantes ministérios e assegurado os procedimentos necessários no sentido de garantir uma resposta coordenada no cumprimento de todas as medidas que têm vindo a ser adoptadas pelo Governo no âmbito da prevenção e respostas ao Covid-19».













