Um dos maiores insetos do mundo, o escaravelho Goliathus cacicus, está à beira da extinção, alertam investigadores. Um novo estudo conduzido pelo ecólogo Luca Luiselli revela que esta espécie emblemática tem sido severamente afetada pela destruição do seu habitat natural, em grande parte devido à expansão da indústria do cacau na África Ocidental. Além disso, o comércio internacional de insetos secos contribuiu para a drástica redução da população destes besouros gigantes.
Os besouros Goliathus, pertencentes ao género Goliathus, estão entre os maiores insetos do planeta, podendo atingir os 110 mm de comprimento. Existem cinco espécies diferentes, distribuídas pelas florestas tropicais da Serra Leoa, Libéria, Guiné, Costa do Marfim, Gana, Burkina Faso, Benim, Nigéria, Camarões, República Democrática do Congo, Uganda e Sudão do Sul.
Os Goliathus desempenham um papel essencial no ecossistema das florestas tropicais. Enquanto larvas, são omnívoros, alimentando-se de matéria vegetal em decomposição e, possivelmente, de carne, ajudando a reciclar nutrientes. Já os adultos alimentam-se exclusivamente da seiva de algumas árvores específicas em florestas maduras.
“Os Goliathus são excelentes indicadores da saúde da floresta. Se existem em abundância, significa que o ecossistema ainda está equilibrado. Se as suas populações diminuem, é um sinal de alerta para a degradação ambiental”, explica Luca Luiselli, professor de Ecologia na Rivers State University of Science and Technology ao The Conversation.
O impacto da destruição da floresta tropical
Luiselli e a sua equipa começaram por estudar répteis ameaçados nas florestas da África Ocidental, mas rapidamente perceberam que os besouros Goliathus partilhavam o mesmo habitat e estavam também em risco. Para compreender melhor a situação, os investigadores realizaram entrevistas com habitantes locais, incluindo caçadores, agricultores e coletores de madeira e cogumelos. Os relatos confirmaram que o número destes insetos estava a diminuir drasticamente.
O estudo revelou que duas espécies em particular estão à beira da extinção: Goliathus cacicus e Goliathus regius. O primeiro, menor, pode atingir até 95 mm e habita exclusivamente florestas tropicais maduras. O segundo, ligeiramente maior, pode chegar aos 105 mm e prefere florestas mais secas.
A pesquisa estima que 80% da população de Goliathus cacicus tenha sido dizimada na Costa do Marfim devido à destruição da floresta para plantações de cacau. O Goliathus regius também perdeu cerca de 40% do seu habitat natural.
Além disso, o Goliathus cacicus parece ter desaparecido de várias áreas da África Ocidental, incluindo o Parque Nacional Banco, em Abidjan, onde a espécie não é mais encontrada. Uma das razões para este desaparecimento é a captura em massa destes insetos para venda no mercado internacional de insetos secos.
O comércio de insetos e a ameaça global
O comércio de besouros secos para colecionadores e comerciantes é outro fator que tem impulsionado o declínio da espécie. “Calculamos, com base em décadas de monitorização do comércio de insetos, que milhares destes escaravelhos foram capturados e vendidos, principalmente através de plataformas online como eBay e Facebook”, afirma Luiselli.
Outras espécies próximas, como Goliathus goliatus, ainda são vendidas em grande quantidade, especialmente nos Camarões, no Quénia e no Uganda. Apesar de esta espécie ainda não estar em perigo crítico, os investigadores alertam para a possibilidade de futuras ameaças.
Ainda existem vastas áreas florestais protegidas, como na Nigéria, Camarões, Uganda, Sudão do Sul, Ruanda e Quénia, onde algumas populações de Goliathus goliatus permanecem estáveis. No entanto, o avanço da desflorestação, da conversão de terras para a agricultura e das mudanças climáticas representam uma ameaça crescente.
Como salvar os Goliathus?
Para evitar a extinção destes insetos gigantes, Luiselli defende que é essencial proteger os últimos remanescentes das florestas na Costa do Marfim e na Libéria, onde os besouros ainda sobrevivem. O foco deve estar na preservação das árvores onde estas espécies se concentram.
Os investigadores recomendam envolver as comunidades locais na identificação e proteção das árvores críticas para os Goliathus. Além disso, sugerem a criação de “florestas certificadas”, onde os habitantes possam colher e vender um número limitado de besouros, garantindo um equilíbrio entre conservação e subsistência económica.
Outra sugestão é promover o ecoturismo, aproveitando o interesse dos entusiastas da natureza para gerar receitas sustentáveis e incentivar a proteção do habitat natural dos besouros.
No entanto, os cientistas alertam contra programas de criação em cativeiro. “Não há evidências científicas de que a reprodução ex situ possa ser útil para a sobrevivência dos Goliathus”, sublinha Luiselli.
O estudo reforça a necessidade de uma ação coordenada entre cientistas, governos e organizações ambientais da África Ocidental para criar um plano eficaz de conservação destes besouros. Caso contrário, uma das maiores espécies de insetos do planeta poderá desaparecer em poucas décadas.














