Milhões de venezuelanos ficaram acordados até tarde no passado domingo, à espera de um anúncio de uma mudança de cenário político que enfrentam desde que Hugo Chávez chegou ao poder em 1998 – esse otimismo desapareceu no momento que Nicolás Maduro foi abruptamente declarado vencedor de um ato eleitoral que está a ser visto internacionalmente como amplamente viciado.
O Conselho Eleitoral Nacional (CNE), leal ao partido governante de Maduro, anunciou a sua vitória sobre Edmundo González, o principal candidato da oposição, o que garantiu ao presidente em exercício um terceiro mandato de seis anos.
A legitimidade de Maduro tem sido questionada desde a sua primeira vitória eleitoral em 2013, após ser designado por Chávez como seu sucessor. De acordo com a contagem oficial no domingo, Maduro reivindicou 51% dos votos, apesar de sondagens anteriores e pesquisas à boca das urnas terem indicado que González liderava por uma grande margem.
“Os venezuelanos e o mundo inteiro sabem o que aconteceu”, disse González, ao mesmo tempo que apelou aos seus apoiantes que permanecessem calmos – de acordo com Maria Corina Machado, a carismática líder da oposição que apoiou González depois de ter sido impedida de concorrer contra Maduro, o candidato de oposição obteve cerca de 70% dos votos.
Apesar dos relatos de prisões e intimidação entre os seus apoiantes, González não pediu que os seus seguidores fossem às ruas e alertou contra a violência. Em resposta, o som de panelas e frigideiras a baterem ecoou por vários bairros de Caracas esta segunda-feira, enquanto os venezuelanos participavam de um “cacerolazo”, um protesto tradicional latino-americano.
Para muitos venezuelanos, o cenário parece muito familiar. Enquanto Machado e González permanecem otimistas sobre comparar os seus próprios dados com os do CNE, especialistas e políticos acreditam que esta foi a última oportunidade após inúmeras tentativas fracassadas de derrubar o regime socialista que governou o país por 26 anos – sanções económicas, ameaças de força militar, a possibilidade de uma invasão dos EUA lançada pelo então presidente Donald Trump e isolamento internacional falharam em destituir Maduro.
“As opções da comunidade internacional são limitadas, e a conversa sugere uma perspetiva sombria para alcançar mudanças políticas significativas na Venezuela num futuro próximo”, explicou Sandra Borda, professora de ciência política na Universidade dos Andes em Bogotá, Colômbia, à revista ‘Newsweek’.
O futuro imediato da Venezuela continua incerto: a oposição prometeu continuar a sua luta por uma contagem de votos transparente e pela restauração da democracia. Espera-se que a pressão internacional aumente, com potenciais repercussões diplomáticas e económicas para o Governo já isolado de Maduro.
“Aliados como a Rússia e alguns na América Latina, entre outros, ajudaram o Governo Maduro a sobreviver apesar de um período de forte isolamento internacional e rejeição por parte de atores importantes”, salientou Carolina Jiménez Sandoval, presidente do Escritório de Washington para a América Latina (WOLA).
Enquanto os resultados da eleição estejam a ser contestados, está a ‘ferver’ um confronto burocrático: González pediu às autoridades eleitorais que apresentem todas as contagens de votos impressas pelas máquinas de votação nas 30 mil secções eleitorais em todo o país.
Alguns líderes da oposição, como Júlio Borges, ex-presidente da Assembleia Nacional, pediram aos militares que “defendam a vontade do povo”, um sentimento ecoado por Machado durante o seu discurso depois de o CNE ter divulgado os resultados das eleições esta segunda-feira. “Ninguém acredita nessa farsa anunciada pelo corrupto Conselho Nacional Eleitoral de Maduro; é uma grande mentira que o país não tolerará”, salientou Borges.
Segundo Jiménez Sandoval, a oposição deve continuar a pressionar o Governo e a comunidade internacional para garantir que as autoridades eleitorais atuem com transparência e responsabilização. “É essencial que eles exerçam o seu direito de obter todas as informações eleitorais relevantes. Sem auditar e desagregar adequadamente cada folha de contagem, é impossível garantir a legitimidade dos resultados eleitorais”, frisou.
Sandra Borda acredita que a situação pode piorar ainda mais, salientando que duvida que Maduro e o CNE divulguem dados de votação, mesmo sob pressão internacional, dizendo que o presidente venezuelano tirará vantagem de uma situação global caótica, com conflitos em Gaza e Ucrânia e a eleição dos EUA a desviar a atenção de Caracas. “O que continuará a acontecer, como aconteceu nos últimos anos na América Latina, é que os EUA tentarão convencer a região a conter a questão da migração, mas não resolverá o problema subjacente. A questão central continua sem solução.”
Outro cenário é que Maduro poderia aumentar a pressão sobre a oposição, especificamente contra a própria Machado, que foi impedida de se registar como candidata presidencial: membros da sua equipa foram presos devido a suspeitas de serem agentes de Washington – Tarek William Saab, procurador-geral da Venezuela, a acusou de hackear o sistema de contagem junto com “forças nos EUA”.
Outro resultado possível é ainda mais isolamento político, algo que Maduro navegou bem nos últimos oito anos. O presidente venezuelano sobreviveu não apenas a pressões económicas, mas também a uma campanha política de alto perfil, com os EUA apoiar o deputado venezuelano Juan Guaidó como “presidente interino” em 2019 – a tentativa de mudança de regime de Guaidó falhou, e agora vive exilado na Flórida.
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