Mais casas, menos burocracia: Parlamento Europeu aprova primeiras propostas para enfrentar a crise da habitação na Europa

Relatório aprovado em Estrasburgo não cria novas leis europeias, mas apresenta um conjunto de recomendações à Comissão Europeia

Francisco Laranjeira

A crise da habitação tornou-se um dos maiores desafios económicos e sociais da União Europeia. Com preços de compra e arrendamento a subir em muitas cidades e cada vez mais jovens e famílias sem acesso a casa, o Parlamento Europeu aprovou um primeiro documento de posição que servirá de base para o futuro Plano Europeu para a Habitação Acessível.

De acordo com o jornal espanhol ’20 Minutos’, o relatório aprovado em Estrasburgo não cria novas leis europeias, mas apresenta um conjunto de recomendações à Comissão Europeia. O objetivo é definir um roteiro comum para enfrentar um problema que se tornou transversal em grande parte do continente.

O que está em causa

Segundo o ’20 Minutos’, a principal conclusão do Parlamento Europeu é clara: não existe habitação suficiente para responder à procura. Esta escassez está a pressionar os preços e a tornar cada vez mais difícil o acesso à casa própria ou ao arrendamento.

O eurodeputado Borja Giménez, responsável pelo relatório, resumiu o diagnóstico de forma direta: a Europa precisa de construir mais habitação e fazê-lo mais rapidamente. Na sua perspetiva, a crise não é apenas social, mas também económica.

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Uma Europa onde as pessoas não conseguem viver, alertou, acaba por perder competitividade e capacidade de crescimento.

O que propõe o Parlamento Europeu

As propostas aprovadas concentram-se em quatro grandes áreas de intervenção.

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A primeira passa por estimular a construção de habitação. O Parlamento sugere que os Estados-membros possam aplicar uma taxa de IVA super-reduzida à construção, renovação ou arrendamento de habitação acessível.

Outra proposta é a redução da burocracia associada aos projetos de construção. O relatório defende processos administrativos digitais e prazos máximos de 60 dias para licenças urbanísticas, incluindo um sistema de aprovação automática caso a administração não responda dentro do prazo.

O documento propõe também mobilizar mais fundos europeus para habitação, incluindo a possibilidade de redirecionar verbas não utilizadas do Mecanismo de Recuperação e Resiliência.

Por fim, o Parlamento recomenda apoios diretos ao acesso à habitação, com incentivos fiscais para compradores da primeira casa, subsídios para jovens e apoio a pessoas em situação de vulnerabilidade.

Combater especulação e regular alojamento turístico

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Além do aumento da oferta, o relatório também sugere medidas para travar fenómenos que contribuem para a subida dos preços.

Entre elas está o combate à especulação imobiliária e uma maior regulamentação do alojamento turístico de curta duração. Segundo o ’20 Minutos’, o Parlamento Europeu considera que a proliferação deste tipo de alojamento tem contribuído para reduzir o número de casas disponíveis para residentes em várias cidades europeias.

O comissário europeu para Energia e Habitação, Dan Jørgensen, afirmou que o acesso a uma habitação digna deve ser visto como uma necessidade básica e não apenas como um bem de mercado. Na sua visão, quando a habitação se transforma apenas num ativo de especulação financeira, a própria coesão social da União Europeia fica em risco.

Um debate político longe de estar resolvido

Apesar do apoio de vários grupos políticos, o relatório está longe de gerar consenso total.

Os socialistas destacam as medidas de proteção dos inquilinos e o combate à concentração de imóveis nas mãos de fundos de investimento. Já alguns partidos à esquerda consideram que o documento favorece demasiado o setor imobiliário e não trata a habitação como um verdadeiro direito social.

Também surgiram críticas à direita do espectro político. Alguns eurodeputados defendem que a crise da habitação está ligada a fatores como a imigração ou a falta de disponibilidade de terrenos para construção.

O que acontece agora

O documento aprovado pelo Parlamento Europeu segue agora para a Comissão Europeia, que deverá utilizar estas recomendações para preparar o Plano Europeu para a Habitação Acessível.

Embora a União Europeia não tenha competência direta para construir habitação — uma responsabilidade que continua a pertencer aos Estados-membros — as instituições europeias podem influenciar políticas através de financiamento, coordenação e regras do mercado interno.

A expectativa é que as propostas agora aprovadas sirvam como ponto de partida para uma estratégia europeia mais ampla destinada a enfrentar uma das crises sociais mais persistentes do continente.

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