Milhares de passageiros foram ‘espiados’ sem autorização no metro de Londres para efeitos publicitários

Pelo menos desde abril de 2023, houve um estudo sem consentimento em oito estações da rede suburbana de Londres – Euston, Waterloo ou Manchester Picadilly, entre outras – sob alegada supervisão da Network Rail, empresa pública que gere e possui a maior parte da rede ferroviária do Reino Unido

Francisco Laranjeira
Junho 21, 2024
11:17

Milhares de pessoas foram observadas e estudadas sem o seu consentimento no metro de Londres, denuncia a revista ‘Wired’, com base em documentos obtidos pela organização de defesa dos direitos e liberdades civis britânica ‘Big Brother Watch’.

Em causa está um sistema de inteligência artificial (IA) que analisa as imagens das câmaras de vigilância. Pelo menos desde abril de 2023, houve um estudo sem consentimento em oito estações da rede suburbana de Londres – Euston, Waterloo ou Manchester Picadilly, entre outras – sob alegada supervisão da Network Rail, empresa pública que gere e possui a maior parte da rede ferroviária do Reino Unido.



De acordo com os especialistas de proteção de dados ouvidos pela ‘Wired’, é preocupante “a falta de transparência sobre a utilização da IA em espaços públicos” – a privacidade dos passageiros pode ter sido colocada em causa, apesar da proteção e segurança dos mesmos serem os principais objetivos da utilização do sistema de vigilância.

Os testes foram extensos, tanto em grandes como em pequenas estações: através do reconhecimento de objetos, o novo sistema consegue “detetar pessoas que invadem as linhas, monitorizar e prever a sobrelotação das plataformas, identificar comportamentos antissociais (como correr, gritar, andar de skate ou fumar) e detetar potenciais ladrões de bicicletas”, refere a ‘Wired’.

De acordo com Jake Hurfurt, diretor de investigação do grupo ‘Big Brother Watch’, a Network Rail tratou “com desprezo” as preocupações relativamente à privacidade dos passageiros. “A implementação e normalização da vigilância por IA nestes espaços públicos, sem muita consulta e conversa, é um passo bastante preocupante”, indica o responsável, que salienta que o facto de ser possível identificar “características demográficas” – como género e faixa etária – é preocupante.

O sistema de inteligência artificial, criado pela Amazon, é simples: quando os passageiros passam por uma “linha virtual” perto das cancelas de entrada, as câmaras capturam as imagens que são enviadas para análise através do sistema ‘Amazon Rekognition’. Através das imagens, é possível analisar rostos e objetos que permitem “medir a satisfação dos passageiros”.

Segundo Gregory Butler, CEO da empresa de análise de dados ‘Purple Transform’, “o principal benefício do uso da IA nestes sistemas de vigilância é a deteção mais rápida de incidentes de invasão”. No entanto, o objetivo desta tecnologia é “desenhar uma espécie de publicidade personalizada”, segundo a denúncia. “Estes dados podem ser utilizados para maximizar a publicidade e as receitas de retalho”, escreve a ‘Wired’.

A Network Rail já reagiu, garantindo que a empresa leva “muito a sério a segurança da rede ferroviária” e utiliza “uma gama de tecnologias avançadas nas estações para proteger os passageiros, os funcionários e a infraestrutura ferroviária do crime e outras ameaças”.

Partilhar

Edição Impressa

Assinar

Newsletter

Subscreva e receba todas as novidades.

A sua informação está protegida. Leia a nossa política de privacidade.