A fronteira oriental da Europa atravessa o Império Russo, os Montes Urais, o Mar Cáspio e, finalmente, a Transcaucásia (ou Cáucaso Sul). No entanto, há cientistas que acreditam que a parte sul do Cáucaso pertence à Ásia, enquanto outros, que têm observado a sua evolução cultural, acreditam que este país deve ser considerado Europa.
A ‘discussão’ ganhou outro peso esta semana: Nikol Pashinián, primeiro-ministro da Arménia, não teve escolha a não ser sacrificar ‘uma torre’: Nagorno-Karabakh, um enclave montanhoso de população arménia, concebido na época soviética como um território autónomo dentro da República do Azerbaijão. Foi declarado independente em 1992, como República de Artsakh, mas na prática é parte da Arménia, que travou várias guerras sangrentas para o manter. A primeira, vencida por Yerevan, em 1993. A última, perdida, em 2020. A Arménia ‘salvou a face’ com a ajuda da Rússia, que enviou uma força de paz e garantiu que pelo menos o controlo do núcleo central da região seria das milícias arménias. Três anos volvidos, Pashinian decidiu entregar a região e o seu homólogo e adversário do Azerbaijão, Ilham Aliyev, ficou com a peça.
Na passada quarta-feira, Baku lançou uma operação antiterrorista que garantiu, em 24 horas, a rendição incondicional das milícias, sendo que a Rússia não mexeu um dedo. Mas Pashinián também não. Foi um sinal de realismo. O primeiro-ministro arménio vinha já a preparar a mudança há muito tempo, uma vez que aquela ‘torre’ já não era defensável. Sacrificá-lo, de acordo com o líder político, vai acabar por tornar o país uma parte sólida da Europa.
Os arménios foram sempre muito claros sobre isto e não apenas porque são cristãos. Enquanto a Rússia foi também Europa, a Arménia sentiu-se protegida à sombra do Kremlin. Mas a invasão da Ucrânia colocou Moscovo no centro de um novo projeto geopolítico que despreza publicamente os conceitos dos países europeus. A retirada da Rússia do Tribunal Penal Internacional (TPI), em 2016, foi apenas um dos muitos detalhes que sublinharam o distanciamento de Moscovo do establishment político europeu.
O gesto de Pashinyan, no passado dia 1, de enviar o acordo de adesão a esse mesmo Tribunal ao Parlamento para ratificação, foi muito mais: o movimento definitivo para perder Karabakh e salvar a Arménia. Porque se for assinada a adesão, Vladimir Putin já não poderá pôr os pés na Arménia sem que a polícia o venha prender, em virtude do mandado de detenção emitido em março pelo TPI. Mais: Yerevan enviou ajuda humanitária a Kiev e anunciou que ia realizar manobras militares com tropas americanas, entre 11 e 20 de setembro. Moscovo reagiu convocando o embaixador arménio para “pedir esclarecimentos sobre estas medidas hostis”. A segunda terá sido um telefonema para Ilham Aliyev, instruindo-o a avançar para Karabakh que as tropas russas não iriam mexer um dedo. Já em dezembro último, as tropas azeris bloquearam o corredor de Lachin, a única estrada que liga Karabakh à Arménia, sem qualquer intervenção das tropas russas.
Pashinián foi muito claro e já o disse abertamente em abril: a paz é possível se a Arménia afirmar que as suas fronteiras são as internacionalmente reconhecidas, as da antiga República Soviética Arménia, e que não reivindica e não reivindicará os territórios de qualquer outro país. Ou seja, ‘abandonaremos Karabakh’.
A guerra de Nagorno-Karabakh está perdida. Moscovo não tem interesse em que Yerevan ganhe mas Pashinián não levantou as velas, virou-se em frente e dirigiu-se para a Europa. Só o poderá fazer deixando Karabakh para trás, porque nem a União Europeia nem a NATO podem envolver-se profundamente num país que está a travar uma guerra com o seu vizinho por um território que todos reconhecem legalmente como parte do Azerbaijão. Uma vez sacrificada essa ‘torre’, Bruxelas e Washington ficarão felizes por ‘comer’ essa peça do xadrez geopolítico de Putin.














