Dono de um estilo único e de uma elegância inconfundível, o descapotável que seduziu Brigitte Bardot e Grace Kelly marcou uma época, como hoje ainda marca quem com ele se depare. Afinal, sempre são seis décadas a arrancar suspiros!
Se ainda não sorriu hoje, provavelmente, é porque ainda não viu nenhum Renault Floride! Não era publicidade da época, mas poderia sê-lo. Há 60 anos, o Renault Floride encantava pela genuína graciosidade, leveza de espírito e desconcertante jovialidade. Evocava ao tempo livre, à liberdade de movimentos e de pensamento, como símbolo de modernismo de uma época áurea em fortes motivações e convicções, bem retratada, de resto, na história do nascimento deste belo automóvel…
Do falso arranque…
E tudo começou em 1957. Nesse ano, a Renault tentava impor do outro lado do Atlântico outro modelo, o Dauphine, mas em franca competição com o Volkswagen Cox (o popular “Carocha”) e com uma rede de distribuição pouco eficiente, os resultados ficavam aquém do previsto.
Ciente da importância do mercado automóvel norte-americano, Pierre Dreyfus (então diretor da Renault), lançou o desafio de criação de um automóvel totalmente novo e diferente, capaz de atrair clientes jovens, com forte sentido de evasão e vontade de explorar o “outro lado da vida”, que só um cabriolet podia proporcionar.
Sem gabinete de marketing ou estudos encomendados, foi durante uma viagem à Flórida (EUA) que surgiu o nome do novo “embaixador da liberdade” da Renault: o Floride! Contudo, só em outubro de 1958, o novo modelo se mostrou ao público, após um “falso arranque” no Salão de Genebra desse ano, onde foi apresentado em dois stands diferentes e rivais, como resultado da disputa de paternidade no design da sua carroçaria por dois estilistas italianos contratados pela Renault (um dos quais, entretanto, ingressado na concorrente Ghia).
… Ao sucesso garantido!
Desfeito o “equívoco”, acabou por ser o Salão Automóvel de Paris de outubro de 1958 a acolher a verdadeira estreia do Floride que, em maio de 1959, passou a integrar o catálogo de modelos da Renault e… não apenas como cabriolet! Na verdade, a elegante carroçaria, desenvolvida a partir do Dauphine, também ganhou uma versão de capota rígida (“hard top”) e outra coupé. No fundo, três maneiras diferentes de apelar ao sorriso!
Apesar de ter como base o Dauphine, não é fácil encontrar semelhanças entre os dois “best-sellers” da Renault. Já reconhecer elegância ao Floride é um exercício tão natural como a própria beleza do cabriolet/coupé, cujas linhas fluídas transmitiam a sensação dinâmica de movimento, tão apropriada para explorar a “bela vida” no cabriolet, como o carácter desportivo no coupé.
Já no interior, as semelhanças com o habitáculo do Dauphine são maiores, com o painel de instrumentos a ser herdado do pequeno sedan, bem como as formas minimalistas em voga naquela época. Com a configuração 2+2, o espaço para os dois ocupantes da frente era generoso e atrás duas pessoas também podiam viajar com um mínimo de conforto, se bem que o espaço de 175 litros disponível atrás dos bancos dianteiros podia igualmente ser bem aproveitado para aumentar a capacidade da bagageira, localizada à frente, que ascendia aos 240 litros.
Motor com “alma” Gordini
Equipado com transmissão traseira e motor longitudinal também traseiro, o Floride não era perfeito em termos de distribuição de massas. Mas o seu propulsor Ventoux, um clássico 4 cilindros de 845 cm₃, herdado do Dauphine Gordini, oferecia 40 “simpáticos” cavalos de potência às 5.200 rpm com a ajuda de um carburador Solex.
Com uma caixa manual de três velocidades (onde a primeira não era sincronizada), um sistema de travagem simples mas eficiente com a ação de tambores sobre as quatro rodas e uma suspensão inovadora e confortável, designada por “Aérostable”, o Floride era francamente agradável de conduzir, convidando a passeios e escapadelas fora da cidade, mas também se expressando de forma alegre e ágil nos centros urbanos em crescimento.
Evolução bem-sucedida
Entre 1962 e 1965, o “automóvel-prazer” da Renault sofreu várias evoluções, que o foram tornando cada vez mais popular, mas com ajustes mínimos na carroçaria, visíveis, de resto, na na perda das tomadas de ar laterais da carroçaria. Pelo contrário e ao nível do motor, os up grades foram notórios e contribuíram, decididamente, para uma maior vitalidade na estrada, primeiro com a adoção do conhecido propulsor “Cléon-Fonte” de 956 cm₃ já com 51 cv, depois e a partir de 1963, com a integração do motor que equipava o Renault 8 Major, um 1108 cm₃ que debitava 55 cv, e, finalmente, com a evolução deste bloco, já com carburador de duplo corpo integrado, que oferecia 57,5 cv (sim, na altura, os meios cavalos eram importantes!).
Como resultado de todas estas evoluções, o Floride/Caravelle passou de uma velocidade máxima inicial de 125 km/h para uma de 145 km/h, melhor controlada, já nos últimos anos de produção, pela caixa de 3 velocidades totalmente sincronizadas e pelos travões de disco à frente, uma novidade na época.
A mudança também se repercutiu nas designações do modelo, cuja evolução ditou que se chamasse “Floride S” (na versão cabriolet) e “Caravelle” (primeiro apenas na versão coupé e depois em ambas as versões), numa nomenclatura que já tinha sido adoptada do outro lado do Atlântico, em homenagem ao avião de construção francesa.
Brigitte Bardot e Grace Kelly como “embaixadoras”
Para além das envolventes características inatas do Renault Floride/Caravelle, uma parte do seu sucesso também está ligado à imagem da atriz Brigitte Bardot e da princesa do Mónaco, Grace Kelly, que, direta ou indiretamente, entraram na história do modelo, que ajudou à afirmação da mulher nos anos 60.
No primeiro caso, a “sex-symbol” da década de 60, recebeu um Floride de cor “Kilimanjaro Branco” em agosto de 1959, que a Renault mandou entregar em Nice (França), quando a atriz filmava “Want to dance with me”.
E bastou uma sedutora sessão de fotos com o cabriolet para que o Floride passasse a ser visto como um automóvel de emancipação para a mulher da década de 60 e um desejo secreto (e concretizável) para muitas delas, que nunca sequer tinham aspirado a ter um automóvel.
De mesma forma, a Renault também fez chegar um outro Floride, mas na versão Coupé e pintado de “Verde Bornéo”, ao palácio da princesa Grace do Mónaco. A princesa e também atriz, não se coibiu de o utilizar nas deslocações na sua vida quotidiana, emprestando ao Floride ainda mais glamour e contribuindo para que o sucesso mediático e comercial do modelo fosse ainda maior.
Após uma exemplar carreira de 10 anos, que terminou em 1968 com a produção de 117.039 exemplares em 22 cores diferentes, o Floride/Caravelle manteve, e continua a manter, um “charme” muito peculiar que faz dele um dos automóveis de coleção mais apreciados e desejados. Decididamente, 60 anos depois, o tempo está longe de ofuscar o seu fascínio!













