Ucrânia: De Washington à Polónia à procura da “irmã”

Val Treshchov só lamenta não ter pensado em tudo mais cedo, quando viajou de Washington para Lisboa e daí para Varsóvia de onde pretende chegar à fronteira com a Ucrânia, em busca de Daria, uma prima que trata como irmã.

Executive Digest com Lusa

Val Treshchov só lamenta não ter pensado em tudo mais cedo, quando viajou de Washington para Lisboa e daí para Varsóvia de onde pretende chegar à fronteira com a Ucrânia, em busca de Daria, uma prima que trata como irmã.

No mapa dos desencontros e da história, este gestor de projetos digitais nascido há 36 anos em Kiev (“então URSS”, fez questão de notar, tal como o seu nome “meio-russo”) mudou-se com os pais cientistas para Washington, nos Estados Unidos, nos alvores do século, e longe ficaram avós, tios e tias, e duas primas.



É uma delas que lhe interessa especialmente agora, Daria, uma adolescente que terá conseguido um lugar num comboio de Kiev para Lviv, no oeste do país, e furado o cerco militar russo, e, com esperança e sorte, atingir Przemysl, na fronteira entre a Ucrânia e a Polónia.

“O último comboio não apareceu, oxalá amanhã [hoje], ela consiga e, no melhor cenário, acabaremos por nos encontrar e partirmos juntos para a América”, afirma à Lusa em Varsóvia Val Treshkov, lamentando que a outra “irmã”, Natalya, nos seus 20 e poucos anos, não tenha conseguido ainda fugir da invasão russa iniciada há pouco menos de uma semana, tal como outros familiares. Lamenta sobretudo não ter pensado nisto tudo antes.

“Quem me dera ter tido esta ideia mais cedo. Mas na altura ninguém pensava que teria de fugir. As pessoas tinham água, comida, aquecimento, não lhes passava pela cabeça que isto iria ser assim”, prossegue Val Treshchov, antes de pedir uma pausa para se recompor.

Alguns familiares ainda conseguiram escapar para os arrabaldes da capital, mas desses ignora se estão melhores ou piores dos que aqueles que ficaram. Nem tão pouco os da mulher, também ucraniana, residentes próximo de Chernobyl, cenário do pior desastre nuclear da história, em 1986, numa região agora controlada pelas forças russas.

O pessimismo está na ponta da língua de Treshchov, que considera a situação política bloqueada: “Não há opções, nem concessões. Posso estar enganado, mas vai ficar tudo pior”, receia.

A última vez que visitou o país foi há apenas um ano para assistir ao funeral de um avô, mas agora tudo mudou e receia entrar porque essa pode ser uma viagem sem retorno. Apesar da nacionalidade americana, é igualmente ucraniano e pode ser mobilizado para a o esforço de guerra. E o seu objetivo é outro.

“Quero tirar toda a gente, quero fazer tudo o que estiver ao meu alcance”, insiste, a começar por Dália e antes de tudo colocá-la na Polónia.

A partir daí, “não importa”, a “irmã” estaria fora da Ucrânia, e podia ir para a América ou até Portugal. “O que for, não importa”, volta a dizer.

A Rússia lançou na quinta-feira de madrugada uma ofensiva militar na Ucrânia, com forças terrestres e bombardeamento de alvos em várias cidades, que já mataram mais de 350 civis, incluindo crianças, segundo Kiev. A ONU deu conta de mais de 100 mil deslocados e mais de 660 mil refugiados na Polónia, Hungria, Moldova e Roménia.

O Presidente russo, Vladimir Putin, disse que a “operação militar especial” na Ucrânia visa desmilitarizar o país vizinho e que era a única maneira de a Rússia se defender, precisando o Kremlin que a ofensiva durará o tempo necessário.

O ataque foi condenado pela generalidade da comunidade internacional e a União Europeia e os Estados Unidos, entre outros, responderam com o envio de armas e munições para a Ucrânia e o reforço de sanções para isolar ainda mais Moscovo.

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