Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto: relato de quem sobreviveu a três campos de concentração nazi

“Aprendi a dormir abraçado a pessoas que acabavam por morrer durante a noite”, recorda Jacob Drachman

Executive Digest

Aos 87 anos, é um dos últimos sobreviventes dos campos de concentração nazi e por isso a sua história é uma das muitas que hoje é repetida um pouco por todo o mundo – tudo para que ninguém esqueça o horror que foi o holocausto e o que passaram as suas vítimas. Uma voz que se junta a tantas outras que esta quinta-feira, 27, se erguem para assinalar o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto.

 

O caso de Jacob Drachman, nascido na Polónia em 1935, ganha ainda mais força porque fintou a morte várias vezes. Primeiro, foi no gueto da cidade polaca de Lodz, já transformado numa espécie de campo de concentração, no dia em que os alemães invadiram a sua casa e um soldado o encontrou escondido atrás de uma chaminé. Tinha na altura cerca de oito anos.

“Entraram no pátio com motas e camiões, a gritar ‘todos para fora’. Toda a gente desatou a trepar para o telhado, à procura de refúgio. Mas não houve dó nem piedade: agarraram-nos como puderam, até pelos cabelos. Vi como foram abatidos pelas metralhadoras, como foram espancados. Só não vi bem quem me encontrou”, conta um emocionado Drachman, que esteve à conversa com o El País a partir da sua casa em Nahariya, em Israel, na Orla do Mediterrâneo. “Fui encostado a uma parede, arma apontada à cabeça e só me lembro de ter ouvido: quem está lá em cima? Eu respondi: Ninguém. ‘E tu o que estás a fazer’, perguntou-me novamente. ‘Estou à procura de gatos’, respondi”, recorda – isto antes de lembrar que, acabou por abraçá-lo, a tremer de medo, e que ele só lhe disse: ‘Sai daqui”.

“Durante seis anos tive fome”

Continue a ler após a publicidade

Drachman acabou por não escapar ao horror dos campos de concentração, ao ser enviado para Auschwitz, durante a II Guerra Mundial. São recordações que, como assinala ao diário espanhol, lhe aparecem como instantâneos da memória dos quais nunca se livrou. “Lembro-me de simplesmente não ter o que comer. Durante seis anos tive fome. No fim da guerra, tinha 11 anos e pesava apenas 20 quilos.” Isto tudo sem “saber porque estava ali, rodeado por um muro e arame farpado”, recordando ainda as muitas noites em que “dormia abraçado a quem estava ao seu lado, mesmo aos que morriam”, depois arrastados para fora dali, depois de lhes tirarem a roupa e os sapatos.

De Auschwitz, seguiu, dias depois, para o campo de Stutthof, perto do Báltico, onde os dias não foram melhores. “Lembro-me de estar na fila para ser queimado, à mistura com um grupo de crianças, e de ter suplicado a um soldado alemão para me livrar do crematório. Disse-lhe que podia trabalhar, ser útil. Até disse ‘Heil Hitler’, só queria viver. Ele riu-se e acabou por me deixar sair daquela fila para a morte”.

Stutthof seria o último campo a ser libertado pelos aliados, em maio de 1945. Da sua família numerosa – Drachman garante que os familiares mais ou menos próximos eram cerca de 120 – apenas quatro sobreviveram: ele, os pais e um tio.

Continue a ler após a publicidade

 

 

Partilhar

Edição Impressa

Assinar

Newsletter

Subscreva e receba todas as novidades.

A sua informação está protegida. Leia a nossa política de privacidade.